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Férias, Aquaman e Cine Ritz

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29.12.2018 - 08:31:00

Férias escolares. Filhos em casa. Nesta quinta, foi dia do mais velho, 17 anos, apresentar a namorada. O tempo passa e a gente nem vê. 
 
Gosto de envelhecer. Até porquê, a outra alternativa não é das mais atraentes. O que não acho muito legal é a parte do “a gente nem vê”. Me esforço cotidianamente para ver as coisas, acompanhá-las, desfrutar todas as transformações. Não é fácil. 
 
A vida é aquela loucura de trabalho e blá-blá-blá. Quando se é profissional liberal, a coisa fica mais complicada. A tradução exata de “não tenho horário de trabalho” é “trabalho o tempo todo”. Sem folga. E quando você dá aquela paradinha para descansar, doze toneladas de culpa imediatamente se alojam sobre seus ombros.
 
A filhota mais nova, quase nove, tem passado muito tempo ao celular. Difícil controlar. Oferecer alguma alternativa parece ser a melhor saída. Daí que resolvi tirar o final da tarde para algo inusitado: levá-la ao cinema. Que fique bem claro: o inusitado não foi ir ao cinema, mas ir ao último cinema de rua de Goiânia, o Cine Ritz. Seria sua primeira vez.
 
Não me confundam. Não moro em condomínio fechado. Sou do Centro – que, na minha opinião, é onde reside a alma da cidade. De modo que o miolo de Goiânia não é algo estranho à minha filha. A novidade era justamente irmos àquele cinema cravado na rua 8, entre a Avenida Anhanguera e rua 4. Você conhece?
 
Chegamos um pouco antes do horário. Deu tempo de dar um pulo na melhor banca da Avenida Goiás – e uma das poucas que resistem bravamente onde antes jornaleiro era mato. A banca tem um nome que nunca me lembro ao certo. “Dois Irmãos”. Ou “Três”, não tenho certeza. Para mim, será sempre a Banca do Seu Valdir – que hoje está aposentado. É o Eduardo, seu filho, que mantém a coisa funcionando com categoria exemplar. Outro dia falo mais sobre bancas de revista – essa coisa tão século XX.
 
Comprei três gibis e uns pacotes de figurinha das malditas Lol. Passamos em frente ao Esfiha Quente e proponho um lanche antes da sessão. Preferiu focar na pipoca. Ela ainda não tem idade para entender a oportunidade perdida. 
 
Rumamos de volta ao Ritz. No caminho, explico que antes dos shopping centers o Centro era cheio de salas de cinema. E que o Ritz já foi a mais moderna delas. Sua inauguração, um baita acontecimento em Goiânia. 
 
O preço dos ingressos é camarada. Mesmo em dia não promocional, uma meia e uma inteira por 24 pilas. Compramos pipoca (fria) e refri. Me arrependi de não ter pego com o pipoqueiro da esquina. Pelo preço e temperatura. Por outro lado, pensar que estamos ajudando a manter um cinema ativo em pleno Centro da cidade não aquece a pipoca, mas deixa o espírito morninho.
 
Entramos na sala e quebro a cara. Esperava cheiro de mofo, projeção fuleira, assentos detonados. Nada disso. Poltronas confortáveis e com revestimento novo, ar condicionado tinindo, projeção decente. Como ressalva, a exclusividade de filmes dublados. Mas é aquilo: o resultado das últimas eleições mostrou que o forte do brasileiro não é a leitura. 
 
Meu grilo com filmes dublados é um só: não interessa o gênero, qualquer filme dublado imediatamente se transforma em comédia. De qualquer forma, se eu esperasse entrar em cartaz um filme legendado, minha filha jamais conheceria um cinema de rua. E, sendo sincero, isso não seria um grande problema para o que iríamos assistir: mais uma aventura super-heroística hollywoodiana. Só que desta vez protagonizada pelo justiceiro nascido na vizinha Hidrolândia: o Aquaman.
 

(Foto: divulgação)
 
Busco nos filmes de super-herói o mesmo que procuro nos gibis do gênero: diversão ligeira. Me deprime ver marmanjo achando que filmes de super são uma complexa alegoria da vida humana. Via de regra, são bobagens feitas para tomar nosso dinheiro. Meu critério para avaliá-los é tão simplório quanto eles próprios: se vale quanto pesa, tá tudo certo. Aquaman passou no teste com louvor – apesar dos protestos do meu filho afirmando ter sido uma das mais intragáveis experiências cinematográficas de sua existência.
 
Vamos por partes. Aquaman é um personagem da DC, assim como Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha. Ao contrário da Marvel, a vida cinematográfica desta turma tem sido uma tragédia. A razão, para mim, é simples: a Warner quis criar um universo de super-heróis mais adulto. Desde quando super-herói é coisa de adulto? Some-se a isso o fato de não respeitarem a essência dos personagens e pronto. Filme ruim à vista. 
 
A Marvel, por sua vez, tem acertado todas. De bobos não têm nada: replicam nas telas a dinâmica criada há décadas por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko e outros da turma. Não aspiram grande arte, mas entretenimento puro e simples. Mesmo o filme mais fraco da Marvel dá um pau nos melhorzinhos da DC. E antes que algum nerd ortodoxo venha pentelhar, topo deixar os Batman do Nolan fora dessa generalização.
 
Quando surgiu, no início dos anos 1960, a Marvel trouxe uma lufada de ar fresco ao combalido gibi de super-herói. As crias de Stan Lee (e Kirby, e Ditko e outros) eram mais humanas e complexas, ainda que infanto-juvenis. Os personagens possuíam personalidade. Na veterana DC, a coisa não era bem assim. Em suas encarnações usuais, Super-Homem era o mocinho perfeito e Batman um herói trágico e carrancudo. A Mulher-Maravilha era uma guerreira amazona. Mas e o resto? O que diferenciava Lanterna Verde, Flash e o próprio Aquaman, além de seus poderes e da cor dos cabelos? Nada. 
 
Ali pela década de 1970, a Marvel finalmente superou a rival em vendas e popularidade. E tem sido assim desde então – com raríssimos períodos de exceção. A saída para se tornar mais competitiva foi se marvelizar. O roteirista Marv Wolfman sacou isso com seus Novos Titãs, que nada mais eram que uma versão DC dos X-Men. A estratégia funcionou. E chegou ao cinema.
 
“Aquaman” é, em última instância, um filme da Marvel. Ação frenética, humor raso, enxurrada de efeitos visuais, drama piegas. No lugar de sombras, luz e cor. Até cena pós-crédito tem no cardápio. Diversão previsível, mas garantida. Sucesso. Poderia facilmente ser a sequência de “Thor: Ragnarok” – afinal, parece que mesmo a personalidade adotada para o insosso herói veio dali. 
 
Minha filha adorou. Entrou na onda de um filme cheio de falsas reviravoltas. Ficou orgulhosa de Mera e Atlana não serem umas mulherzinhas pamonhas, descendo a porrada num monte de vilões. Se assustou com umas criaturas que pareciam o Alien. Se deliciou com os monstrões gigantes de filme japonês. Condenou o herói quando ele deixou morrer o pai do Arraia Negra. E nem percebeu os litros de botox na cara da Nicole Kidman.
 
Eu também adorei. Mais que o Aquaman da Marvel, me deixou feliz a oportunidade de apresentar pra filhota o último cinema de rua de Goiânia. Espero que tenha sido uma experiência marcante e que, no futuro, ela possa repeti-la com os próprios rebentos. Afinal de contas, se tem algo que ninguém mais precisa é de uma nova igreja evangélica no Centro da cidade. Permaneça heroico e firme, Cine Ritz.
 
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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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