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Bertolucci, Roeg e… O Rei Leão?! Onde foram parar os adultos?

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01.12.2018 - 08:00:00

 
Os últimos dias foram duros para quem é minimamente ligado ao cinema. Em menos de uma semana perdemos dois dos últimos diretores que ainda mereciam a alcunha de mestre. Quem partiu primeiro foi o britânico Nicolas Roeg, 23 último, aos 90 anos de idade. Três dias depois, foi a vez do italiano Bernardo Bertolucci, que contabilizava 77 primaveras. Tiveram vidas intensas e deixaram um indiscutível legado para o universo das imagens em movimento.
 
A filmografia de Bernardo Bertolucci é pontuada por clássicos: “O Conformista” (1970), “1900” (1976), “Os Sonhadores” (2003). Com “O Último Imperador” (1987), arrematou nove Oscars, inclusive melhor filme e melhor diretor. Não que o Oscar seja uma imprescindível chancela artística – mas é raro algum estrangeiro sagrar-se campeão numa premiação destinada, antes de mais nada, a turbinar a indústria do cinema norte-americano. 
 
História e política, assim como o drama existencial humano, sempre fizeram parte do discurso cinematográfico de Bertolucci. Transitou elegantemente entre orçamentos limitados e superproduções. Jamais abriu mão da complexidade em suas obras. Usou a metalinguagem com maestria, fazendo uma espécie de cinema sobre cinema. E nunca se furtou a lidar com o maior dos temas-tabu: o sexo. “O Último Tango em Paris” continua como um testamento de sua coragem.
 
Lançado em 1972 – mas só ocupando salas no Brasil em 1979, cortesia de nossa “saudosa” censura ditatorial –, “O Último Tango em Paris” permanece uma obra-prima. A história dos amantes anônimos vividos por Marlon Brando e Maria Schneider são um tratado acerca do poder de Eros (e por que não Thanatos?) em nossas existências. E também do vazio e dor que consomem a alma humana. Um cinema em busca da dimensão da vida. Sem heróis ou vilões.
 
A polêmica gerada pela cena da manteiga parece sem data para acabar. Idealizada por Brando e Bertolucci no café da manhã, e só comunicada à atriz Maria Schneider – então com apenas 19 anos – no momento da filmagem, a incômoda sequência assumiu, ao longo do tempo, um caráter de estupro diante das câmeras. A carreira de Schneider degringolou a partir dali. Sua vida também.
 
“Eu me sinto culpado, mas não arrependido”, declarou Bertolucci anos mais tarde. Com a sua morte, as reações se dividiram. De um lado, os que o consideram gênio. Do outro, monstro. É possível separar vida e obra?


Bowie, Candy Clark e Roeg (Foto: divulgação)

 
O cinema de Nicolas Roeg também traz uma certa indissolubilidade com a vida. Por que outro motivo teria convidado David Bowie a interpretar o alienígena Thomas Jerome Newton no antológico “O Homem que Caiu na Terra” (1976)? Àquela altura, no imaginário mundial, Bowie ainda era Ziggy Stardust, o fatídico rock star alien. Roeg teria lhe dito apenas “seja você mesmo”.
  
“O Homem que Caiu na Terra” é um dos filmes da minha vida. Enigmático e labiríntico, jamais se revela por completo. Planos belíssimos e contemplativos, atmosfera documental e uma temporalidade própria, repleta de hiatos, conduzem a película e constroem camadas e camadas de leitura. Tudo que Jerome Newton busca é retornar ao planeta natal, levando água e salvação à sua família. Mas a complexidade do ser humano, do amor e da própria vida estão em seu caminho. E há, também, o sexo.
 
Em comum entre Roeg e Bertolucci, enxergo a procura de um cinema vital, maduro. São estetas não-maneiristas. A beleza de suas imagens não tem fim em si mesma, mas se presta à totalidade da obra que se projeta na tela. É a velha – ainda que tão vilipendiada – premissa de que forma e conteúdo não se dissociam. Reconhecemos em seus filmes o terrível desafio de ser humano. São adultos. Eles, os filmes e sua audiência.
 
Na mesma semana em que o falecimento de Bernardo Bertolucci e Nicolas Roeg abalaram o mundo do cinema, a Disney lançou na internet o primeiro trailer do remake de “O Rei Leão”. Foi uma hecatombe: mais de 224,6 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas – ficando atrás apenas do trailer de “Vingadores: Guerra Infinita”. É com esse tipo de estatística que o cinema de hoje lamentavelmente trabalha.

Se é que alguém não se lembra, “O Rei Leão” original é um desenho animado Disney lançado em 1994. Sucesso astronômico. Diversão inteligente para crianças. Grana preta em merchandising. E só.
 
Muitos afirmam que o filme é um plágio descarado de “Kimba, o Leão Branco”, mangá criado nos anos 50 por Osamu Tezuka – curiosamente considerado “o Disney japonês”. Faço parte deste time. O fato é que “O Rei Leão” está longe de ser arte. Nunca foi adulto. Não carrega um traço sequer de autoralidade. Você é capaz de dizer, de cabeça, o nome do diretor? (Se for, é para você mesmo que estou escrevendo).
 
O trailer da nova versão do leãozinho Simba – tá bom que não foi plágio do Kimba – inundou as redes sociais do comportamento mais constrangedor possível. Marmanjos chorando. Quarentões exasperados arrancando os cabelos diante das imagens (agora em 3D) dos personagens de sua infância ou adolescência.
 
Se em Roeg e Bertolucci existe uma busca por emprenhar a tela com a matéria-prima da vida, para o público de “O Rei Leão” o que importa é seu simulacro tecnológico. E aquele cardápio de emoções planas e pré-fabricadas.
 
Não que eu tenha algo contra entretenimento e escapismo. Acho salutares, inclusive. O problema é tudo se resumir a isso, numa negação constante ao amadurecimento. Não consigo ver como essa crescente infantilização possa ser positiva. Crianças, por mais bonitinhas que sejam, não são autônomas. Precisam de alguém para guiá-las.
 
Com adultos deveria ser diferente. Se alguém, aos 40 anos, ainda precisa de guia, é sinal de que algo está muito errado. Isso talvez ajude a explicar o momento que atravessamos. No Brasil e no mundo.
 
A morte de Bernardo Bertolucci e Nicolas Roeg, somadas ao trailer de “O Rei Leão” me colocaram diante deste dilema: Onde foram parar os adultos? Acredito ser esta uma questão muito séria. E, além disso, não há nada mais patético que marmanjo fazendo biquinho.

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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