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“Bohemian Rhapsody”: rock, cinema e caretice

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24.11.2018 - 08:00:00

Lugar de filme é no cinema. Pena que eu vá tão pouco. Coisas desse absurdo caótico que costumamos chamar de vida. Quando consigo descolar um tempinho para conferir alguma sessão, é sempre uma felicidade. Quase sempre, na verdade. Com “Bohemian Rhapsody”, foi.
 
A cinebiografia de Freddie Mercury e da banda Queen está longe de ser uma obra-prima. É cinemão hollywoodiano, profissa, calculado para emocionar o espectador médio. Assisti com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. (E fico me enganando ao acreditar que existam outros motivos, que não o próprio filme, para este comportamento constrangedor.)
 
Bryan Singer dirigiu 80% de “Bohemian Rhapsody”. Tretou com os atores e foi substituído, em cima da hora, por um tal Dexter Fletcher. Nunca ouvi falar. Mas Singer, para quem não se lembra, fez quatro filmes do X-Men. Dois bons e dois nem tanto. Além da bomba “Superman, o Retorno”. Apesar do ego inflado, não passa de um funcionário da indústria. Tem mais de dez filmes no currículo. E se não pariu nenhum clássico até hoje, é pouco provável que venha a fazê-lo no futuro.
 
O arco dramático de “Bohemian Rhapsody” é a transformação de um imigrante paquistanês dentuço em um dos maiores rock stars da história. O Freddie Mercury vivido por Rami Malek convence. E a semelhança física dos atores escalados para viver os outros membros do Queen é impressionante. Mas a chave do sucesso do filme é sua característica meio Legião Urbana: não é sofisticado demais, nem excessivamente indulgente. O resultado é um raio de longo alcance. O que me fisgou não foi a qualidade do filme em si, mas os ganchos que me fizeram pensar nos dias atuais.
 
Freddie Mercury, como é do conhecimento de todos, fez parte da leva de homossexuais vitimados pela AIDS. Os anos 1980 foram tempos caretíssimos, de um conservadorismo aviltante. Figuras como Mercury se tornaram mártires da luta contra aquele período de trevas. Não é deprimente constatarmos que em 2018, com a AIDS relativamente controlada, o mundo enfrente novamente uma onda do moralismo mais hipócrita? A impressão que fica é que está faltando kit gay. Um de verdade, que nos ensine o respeito à liberdade e à diferença.
 
A antológica apresentação do Queen no Live Aid, em 1985, é o clímax de “Bohemian Rhapsody”. O mega-concerto foi organizado pelo roqueiro Bob Geldof com o objetivo de levantar fundos para o combate à fome na Etiópia. É óbvio que houve acusações de todos os tipos contra o evento, afirmando se tratar de pura autopromoção. Compreensível. Mas onde foi parar a solidariedade em relação aos frágeis e necessitados? Mais de três décadas depois, o Brasil elege um presidente que se refere a negros em arrobas. E que reduz as demandas afro-descendentes a mero “coitadismo”. Só eu sinto vontade de chorar?
 
Mas o que me pegou mesmo no filme foi o Rock. Porque é disso que se trata “Bohemian Rhapsody”: uma fábula roqueira. Tão logo veio à público, começaram os questionamentos acerca de quão “fiel à realidade” era a película. Em tempos onde eleições são definidas por fake news de WhatsApp, nada mais patético que esperar que um filme produzido em Hollywood seja um espelho do real.
 
A história do Queen é similar à história de outras tantas bandas: o encontro entre jovens desajustados, buscando seu lugar no mundo – sem abdicar da própria alma. A música como tábua da salvação para párias da sociedade. Liberdade, transgressão, arte e identidade. E a corrupção no meio do caminho. Assim é a tragédia no Rock – que geralmente mostra a face apenas àqueles experimentam o sucesso em escala estelar.
 
Ao final de “Bohemian Rhapsody”, uma dúvida ficou martelando minha cabeça: Em que momento a juventude desistiu de empunhar uma guitarra para enfrentar o status quo? Maldita molecada bunda-mole. Vocês realmente merecem o Luan Santana.

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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