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O dólar disparou, e agora?

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12.05.2018 - 09:15:00
São Paulo – A gente se acostumou a ter um dólar na casa dos R$ 3,00 durante muito tempo, mesmo ele estando dentro do regime de livre flutuação. Ou seja, não havia no cenário nacional ou internacional nada capaz de mexer de forma impactante na cotação. Mas esse cenário mudou. As decisões abruptas de Donald Trump, a sobretaxação de importações americanas, os riscos de conflitos com Irã afetam e potencializam a alta do dólar. Mas o fator que mais impulsiona o dólar em relação ao real é a alta do petróleo, que pressiona a inflação americana e pode determinar que os Estados Unidos subam a taxa de juro.
 
Para você entender como isso funciona, vamos tentar explicar. A taxa de juro regula o total de dinheiro em circulação no mercado. Quando tem muito dinheiro em circulação, as vendas se mantêm aquecidas e os preços sobem. Se você aumenta a taxa de juro, diz para as pessoas que em vez de gastar o dinheiro vale a pena aplicar no mercado, em títulos lastreados pelo governo, para aproveitar a alta dos juros. Muito bem, mas onde o Brasil entra nessa? Quando a taxa nos EUA está baixa, o Brasil e outros países se tornam interessantes para aplicações. Entram aqui muitos dólares de investidores internacionais e a cotação se mantém estável. Se os americanos sobem os juros, os investidores migram seus recursos para lá e tiram dólares do Brasil, fazendo a cotação subir. Menos dólar aqui é igual a real desvalorizado.
 
Muito bem, mas o que o cidadão brasileiro comum tem a ver com tudo isso? Tem muito a ver. O impacto de um dólar alto é muito mais negativo do que positivo. Quer saber como? Então ou tentar explicar: As consequências mais visíveis são aumento da nossa inflação, porque muitas matérias-primas e equipamentos ainda são importadas, como por exemplo grande parte do trigo, que está no pãozinho, no macarrão, nas bolachas ou biscoitos, dependendo da região do País. O trigo brasileiro tem baixa qualidade, apenas 30% serve para panificação. Os outros 70% são usados para produzir outras farinhas e produtos menos nobres. Por isso importamos grande quantidade de países como a Argentina. Com qualidade e quantidade insuficientes, com o dólar em alta, o efeito será direto para todas as famílias brasileiras. Quer ver piorar ainda mais esse problema? Temos previsão de uma safra de trigo bastante aquém da registrada no ano passado por problemas climáticos.
 
Mas importamos também máquinas, veículos, produtos químicos, farmacêuticos, adubos e inseticidas, aparelhos eletrônicos, circuitos integrados etc.. Tudo isso tem impacto na produção e eleva os preços finais dos produtos. Com isso, a curva da inflação, que tem sido muito baixa, deve oscilar de forma mais vigorosa para cima. Todos nós deveremos sentir no bolso a diferença. Outro efeito do dólar será o preço da gasolina, cujos preços são regulados internacionalmente pela cotação do dólar. Com valor maior, os fretes sobem para todos os produtos e influenciam o preço final.
 
O dólar alto também afeta diretamente as viagens internacionais. Com um dólar mais alto, passagens aéreas, custos de viagens, gastos no exterior sobem automaticamente. Muitas pessoas ou gastarão mais para viajar ou terão de adiar momentaneamente a programação de férias em favor de um destino no Brasil, uma ida para o Nordeste ou para uma praia no Brasil mesmo.
 
De todo modo, é possível que haja uma tentativa de corrida para os preços em euro. Pode ser que o euro se mantenha um patamar mais interessante, mas isso deve ter um efeito curto, pois historicamente há uma tendência de equiparação entre as moedas mais fortes.
 
Outro efeito ruim é o especulativo. Quando uma moeda feito o real sofre uma desvalorização, mesmo todo mundo sabendo que temos reservas suficientes no Banco Central, sempre há forças especulativas que apostam contra a nossa moeda e fazem pesadas incursões nos mercados futuros de dólar. Tudo isso pode criar um cenário de instabilidade econômica ainda maior que o atual. Bem, se já não bastassem os efeitos atuais da crise política e da fraqueza de nossa economia, que reluta em subir alguns degraus.
 
Ganham nesse cenário de dólar alto exportadores, que vendem para o exterior e recebem mais reais por dólar. Também se beneficiam as agências de turismo que devem ter maior fluxo de pessoas no mercado doméstico. Com essa taxa de câmbio, as importações tendem a cair, as compras externas do tipo formiguinha, feitas por pessoas físicas em sua maioria por meio de sites, idem.
 
O tamanho e o tempo dessa alta serão fundamentais para medir os impactos na vida de todos os brasileiros. A recomendação, por hora, é tentar fugir de compras e gastos em dólar. Se for algo inevitável, como uma viagem de negócios ou de estudo ou até para um tratamento de saúde, que esteja programada um pouco mais para a frente, a recomendação é ir comprando dólares aos poucos. As oscilações são muito altas neste momento. Se você comprar tudo agora pode pegar muito o efeito da alta e fazer um mal negócio. Comprando aos poucos, irá formar um valor médio que no futuro pode ficar abaixo ou próximo do preço final.
 
No mais, é torcer para Trump encontrar-se com a lucidez e devolver os Estados Unidos ao caminho da normalidade. É algo bem difícil, mas como ele é totalmente imprevisível, nos resta torcer.

 

 
Eleno Mendonça é jornalista, consultor de imagem e diretor da Eastside23 Comunicação Corporativa – [email protected]
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por Eleno Mendonça

*Jornalista, consultor de imagem e diretor da Eastside23 Comunicação Corporativa

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