Logo

Rastros de Ódio

WhatsAppFacebookLinkedInX
19.03.2018 - 17:08:31

Impossível passar incólume ante a grandiosidade e o talento singular de John Ford em contar uma história. Rastros de Ódio (1956), possivelmente sua obra-prima máxima, remonta a uma miríade de raríssimos planos muito bem arquitetados e que se entrelaçam de modo admirável, como no suntuoso plano que se inicia com a abertura de uma porta e a sequência que encerra a película com a mesma porta sendo fechada, passando por toda uma jornada que compreende um personagem em uma busca impetuosa por uma vingança após sua família ser chacinada, ao mesmo tempo em que almeja resgatar Debbie Edwards (Natalie Wood), sua sobrinha sobrevivente.

Ao longo de seu penoso e tortuoso caminho, Ethan Edwards (John Wayne) se transformará após os percalços inexoráveis impostos ao longo de sua odisseia pelo oeste. Ethan, ao retornar da guerra civil, encontra este cenário desolador e o prolongamento de sua dor se estende, rompendo o seu desejo de encontrar no esteio familiar aquilo que fora ceifado em sua passagem por uma guerra ignóbil, mas a violência parece não se distanciar de seu personagem, insistindo em tatuar em suas recordações a brutalidade inerente ao ser humano, demonstrando em sua tez uma expressão de desolamento, de um banzo preconizado por uma ausência de paz.

Jean-Claude Brisseau disse que o que mais o toca em relação ao cinema de John Ford é sua capacidade de os personagens serem confrontados com a decepção e o fracasso, serem obrigados a digerir uma humilhação – diríamos agora uma ferida narcísica – e continuarem a viver assim mesmo, sem chorar como pirralhos bem como a incrível capacidade de dar vida a uma série de personagens secundários, algo cada vez mais perdido no cinema. A decepção de Ethan o impele à vingança e é o combustível que enaltece seu desejo de prosseguir.

O trágico evento que insere Ethan e seu sobrinho mestiço no encalço dos índios que dizimaram sua família perpassa por planos suntuosos de um autêntico esteta visual que contempla uma paisagem árida e imensa embevecida pela fotografia acachapante de Winton Hoch que consegue extrair com rara sensibilidade a beleza das locações no Monument Valley imiscuindo a luz amarelada do sol com o vermelho da terra ressaltada ainda pela belíssima banda sonora de Max Steiner e Stan Jones, apinhada de canções melancólicas que refletem a condição solitária do personagem vivido por John Waye e toda sua aura misteriosa e distante que são marcas permanentes de Ethan.

A cena em que Ethan macula o túmulo de um comanche atirando nos olhos do cadáver – corroborando o racismo do personagem – para quebrar a tradição indígena que diz que um pele-vermelha sem olhos está condenado a vagar entre os ventos é emblemática e inesquecível, e espelha a situação de ambos os personagens, ou seja, se o índio está agora condenado e sem rumo, o próprio Ethan se encontra no mesmo destino. O senso de composição fílmica em cada plano ou extra-campo de Ford é nada menos do que brilhante.

A ambiguidade do personagem e a dúvida sobre sua real missão se evidenciam quando Ethan descobre que sua sobrinha pode estar contaminada pelo seu convívio com os índios gerando uma tremenda interrogação na cabeça do público. Será que ele almeja resgatá-la ou matá-la? A narrativa caminha e a incerteza se acentua à medida que a projeção se desenrola até a antológica sequência em que Ethan pega em seus braços sua sobrinha e a convida para retornar à casa, perpetuando o aforisma de Jean-Luc Godard que diz que o cinema é a expressão de bons sentimentos.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]