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Roda Gigante

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02.01.2018 - 09:10:00
Goiânia – A cada ano que passa Woody Allen, como diretor prolífico que é, lança um novo trabalho e causa reações diametralmente opostas tanto em relação ao público quanto à crítica. A uma série de detratores que o acusam de realizar sempre o mesmo filme, entretanto esta característica não é demérito. Sang-soo Hong, um dos mais contundentes diretores atuais cimentam sua obra justamente neste aspecto. Tsai Ming-liang idem. Não existe uma regra que impõe a necessidade da versatilidade como pode ocorrer muito bem em relações a outras figuras emblemáticas da sétima arte, muito embora Allen já transitou da comédia ao drama existencialista à Bergman.
 
Roda Gigante (2017), seu recente longa-metragem, está sendo bombardeado por críticas negativas de forma equivocada. É bem verdade que Allen possui em sua filmografia recente oscilações que podem incentivar a alguns a dizer que é mais do mesmo, ou que Allen já esteve mais inspirado. Tal assertiva não deixa de ser verdade, a fase áurea de seu diretor realmente compreende um passado mais distante, precisamente as décadas de 70 e 80, período de rara fertilidade em ebulição. Todavia um filme de Woody Allen é melhor do que quase toda a produção do cinema americano atual e seus filmes, principalmente os mais recentes como Magia ao Luar (2014) e Café Society (2016), representam um farol diante da escuridão que assola Hollywood.
 
Apesar de ser mais do mesmo, há um frescor e uma vitalidade incríveis na direção e na construção de personagens muito bem delineados ao longo da narrativa que corrobora uma outra qualidade fundamental ao longo de sua longa carreira, a capacidade formidável de dirigir atrizes. Kate Winslet está um assombro e, possivelmente, esta película representa seu melhor papel.  Ela representa Ginny, uma mulher de quase 40 anos, melancólica devido a atos pelos quais ela se arrepende e que abandona seus sonhos para morar atrás da roda gigante em Coney Island durante a década de 50 e é casada com Humpty (Jim Belushi), operador de um carrossel. A parte do alívio cômico fica a cargo de seu jovem filho incendiário.
 
A chegada de Carolina (Juno Temple), filha de Humpty, fugindo de seu marido gângster, degringola uma série de eventos trágicos ao longo da projeção. Tanto Ginny quanto Carolina se apaixonam pelo salva-vidas e aspirante a escritor Mickey (Justin Timberlake), enquanto os mafiosos a procuram. Para Ginny, sua vida representa um calvário, e sua relação extraconjugal representa um alento e uma possibilidade de encontrar a felicidade varrida. Em um dado momento, ela que sonhava em ser atriz, diz-se insatisfeita em representar o papel de garçonete, uma de suas personas, ou seja, uma de suas personalidades para se adequar a determinada situação, tal como ocorre em Persona (1966), de Ingmar Bergman, a quem Allen é um profundo admirador.
 
O trabalho de direção de Woody Allen é magistral e a fotografia de Vittorio Storaro, deslumbrante. As cores vibrantes remetem ao período do Technicolor e promove uma alternância entre iluminações que espelham o íntimo das personagens. Os tons gélidos e azulados expõem o lado pragmático da realidade, enquanto o escaldante dourado representa o sonho, a possibilidade de uma redenção diante da infelicidade da qual faz parte da vida daqueles seres. Woody Allen edifica um belo melodrama à Douglas Sirk e comprova que ainda há muita lenha a queimar. 
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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