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Amor em 3D

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23.06.2017 - 11:13:19

 
Querido Rodrigo,
 
Você me pergunta o que eu tenho assistido de interessante por aí. Recentemente, vi Her, com Joaquin Phoenix, na Netflix. Não se trata de um lançamento, mas eu ainda não tinha conferido. É um retrato interessante do amor nos dias atuais. Nossos medos, angústias, limitações e expectativas estão todos ali, de forma clara, dolorosa e poética.
 
No filme, Phoenix interpreta Theodore Twombly, um escritor solitário que se apaixona por um sistema operacional. Recém-saído de um divórcio que ele resiste em aceitar, acaba se envolvendo com Samantha – nome do sistema operacional que ele instala em seu computador e em seu smartphone, e com o qual passa a interagir quase todo o tempo.
 
Também assisti, na semana passada, a um documentário falando dos relacionamentos afetivos no Japão. O quadro não é muito diferente de Her: pessoas solitárias em Tóquio, que preferem se relacionar com seus equipamentos eletrônicos do que com seres humanos, e que se quiserem um abraço ou um contato presencial, muitas vezes precisam pagar por isso.
 
O documentário mostra um jovem japonês que nunca teve um encontro afetivo com alguém e decide procurar uma casa especializada no assunto. Preste atenção, eu não disse encontro sexual, mas afetivo. Embora seja virgem, ele também nunca soube o que é ser abraçado ou beijado por uma mulher, nem mesmo o que é conversar com alguém de outro gênero. E a casa proporciona essa experiência, desde que o cliente pague por ela.
 
Por um determinado valor, o jovem pode entrar em uma ala reservada e conversar por uma hora com uma moça. Se pagar um pouco mais, pode deitar no colo dela por três minutos. Por mais 16 euros (60 reais) tem direito a um abraço de um minuto. Ao final do encontro, o repórter pergunta a ele o que achou da experiência: “É interessante estar com uma mulher em 3D. Até então, eu só tinha contato com elas em filmes, mangás e jogos eletrônicos”.
 
Bela definição para um mundo que perde cada vez mais a capacidade de interagir com a realidade e enfrentá-la. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman falou sobre isso bem melhor que eu. Leia Amor líquido e verá um verdadeiro tratado sobre como funcionam as relações afetivas na modernidade. Os laços dão lugar a conexões frágeis, rápidas e superficiais, que podem desfeitas a qualquer momento, por meio de um simples clique.

O que chama muito minha atenção nos dias atuais – e isso Her e o documentário retratam muito bem – é nossa neurose por controle cada vez mais acentuada e nossa quase que total intolerância à frustração.
Começamos o filme com pena de Theodore, mas aos poucos vamos compreendendo que ele não era um pobre marido apaixonado e abandonado.
 
“Creio que escondi meus sentimentos ao longo do casamento e a deixei sozinha na relação”, explica à melhor amiga, ao fazer um mea culpa sobre a separação. A ex-mulher o confrontava, expunha suas fragilidades, questionava o que não estava bom e ele não soube lidar com isso. Samantha, o sistema operacional pelo qual se apaixona, é a possibilidade de amar algo que seja seu espelho e que não imponha conflitos e vontades que não as suas.
 
Ao ser questionado pelo repórter sobre a razão de nunca ter saído com uma moça antes, o jovem japonês justifica: “Mulheres são imprevisíveis, não sabemos o que querem, o que vão dizer ou fazer. Nos filmes e nos jogos é mais fácil. Não gosto de me sentir inseguro”. E quando a solidão aperta, basta apelar para a possibilidade de pagar pela companhia de alguém, ganhar um abraço de um minuto ou um colo de três minutos.
 
Faz sentido. Amar dá trabalho, exige disposição e humildade. É preciso estar disposto a se doar, a conversar, a ceder. É necessário reconhecer as próprias falhas, pedir desculpas, levar as necessidades do outro em conta. E os seres humanos da modernidade querem facilidade e, sobretudo, reconhecimento. Querem acreditar que estão sempre certos, que são ótimos, que só erraram quando pensaram que estavam errados.
 
Também não por acaso, nunca estivemos tão sós. Porque as facilidades e os espelhos não nos ajudam a crescer, apenas reforçam nossas características, sejam elas boas ou ruins. Eles também nos privam do melhor da vida: as surpresas. Às vezes elas são tristes, mas muitas vezes são maravilhosas. Seguimos então iludidos, solitários e sem confrontos.
 
Sessenta reais é o custo de um abraço na casa de encontros. Lágrimas, discussões, esforços e frustrações são o preço de uma relação afetiva de verdade. Parece muito a ser pago, no segundo caso, mas os resultados a longo prazo compensam. Porque saber que alguém está com você tanto por reconhecer seu valor, quanto por estar disposto a lidar com suas falhas, não tem preço. Game over.
 
Fabrícia
 
P.S 1 – Leia este texto ouvindo “Como dizia o poeta”, com Vinicius de Moraes;

P.S 2- Texto baseado em carta do leitor, cujo nome foi trocado para preservar sua privacidade.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / [email protected]

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