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Jean-Claude Brisseau e os espelhos da alma

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10.04.2017 - 08:58:53
Goiânia – A potência e o tour de force impressionantes, com os quais Jean-Claude Brisseau molda sua arte, são traduzidos pela retumbante capacidade e organicidade em mergulhar, penetrar no âmago de seus personagens, desnudar seus mais íntimos desejos, aqueles mais segredados, que por vezes são tão complexos, inimagináveis, mas que fazem parte dos seres com suas desmesuráveis idiossincrasias, cuja imaginação pode ser, para mim ou para outrem, inconcebível, mas que é peculiar a cada ser, uma vez que a pluralidade submerge nos mais recônditos pensamentos e a vontade de materializá-los, pô-los em prática e viver a seu bel-prazer são uma constante, mas cuja consciência muitas vezes inibe e reprime tais desejos.
 
Brisseau, diretor “maldito”, esquecido, embora brilhante. É necessário contextualizar seu cinema. Possivelmente, o maior diretor do cinema francês, ao lado de Maurice Pialat, surgido após a novelle vague, esplêndido movimento cinematográfico. A geração subsequente à clássica rompeu dogmas pré-estabelecidos, embora nem sempre os negando ou não reconhecendo a importância dos mestres clássicos, no entanto, buscando novos valores, uma nova estética, o novo em detrimento do “velho”. A necessidade de se buscar uma identidade e prospectar novos caminhos. 
 
Ao longo das décadas e a inflexível perenidade da mudança fizeram com que os programas de tevê galgassem cada vez mais espaço perante o espectador, desvirtuando a gramática cinematográfica, e contaminando boa parte do público com cortes excessivos, promovendo uma padronização que, definitivamente não combina com o cinema.
 
Enquanto Hollywood agoniza na mesmice, impregnada por narrativas e encenações paupérrimas, com raras exceções, uma vez que a montagem se faz cada vez mais frenética, sem dar o devido tempo ao ator de desenvolver-se em cena, aliada a uma péssima escrita de câmera. Brisseau parece estar completamente avesso a tudo isso e surge com traços extremamente autorais, destilando uma mise-en-scène de encher os olhos, bem como uma noção exemplar de coerência visual. O beabá que precede toda a apreciação artística diz que é mais importante o modo como a história é contada, e não ela própria, ou como a sábia lição edificada por Akira Kurosawa: "Com um bom roteiro um bom diretor pode produzir uma obra-prima, com o mesmo roteiro um diretor medíocre pode fazer um filme passável."
 
Sua escassa filmografia representa um oásis em um deserto de obras anódinas. Quase todos os seus 12 filmes são obras-primas, e não há um sequer abaixo de excelente. Eleger um único favorito em meio a imensa qualidade de seus longos é um exercício indigesto. Poderia ser Céline (1992), Coisas Secretas (2002), Os Indigentes do Bom Deus (2000), De Barulho e de Fúria (1988), A Garota de Lugar Nenhum (2012), mas hoje este posto pertence a Boda Branca (1989), um dos dez melhores da década de oitenta.
 
Nele, a trajetória da decadência moral de um professor de filosofia é dissecada brilhantemente. Ao se apaixonar por uma de suas alunas, ele põe em risco sua estabilidade do matrimônio. A atriz Vanessa Paradis, a aluna em questão, está deslumbrante, assim como o professor interpretado por Bruno Cremer. Ela é imbuída de uma lucidez e de um cinismo assombrosos. A busca incessante pelo amor, pelo querer ser correspondido, e a interminável necessidade de amar são o mote principal da película. Ao mesmo tempo em que leciona e ensina seus alunos, é justamente com ela que ele vai aprender a viver e a amar. A relação se desenvolve com extrema maestria e o caminho para a solidão parece inexorável.
 
Top 10 – Jean Claude Brisseau
 
1. Boda Branca (Noce Blanche, 1989)
2. Coisas Secretas (Choses Secrètes, 2002)
3. Céline (1992)
4. Os Indigentes do Bom Deus (Les Savates du Bon Dieu, 2000)
5. A Garota de Lugar Nenhum (La Fille de Nulle Part, 2012)
6. De Barulho e de Fúria (De Bruit et de Fureur, 1988)
7. Anjos Exterminadores (Les Anges Exterminateurs, 2006)
8. Um Jogo Brutal (Un Jeu Brutal, 1983)
9. Anjo Negro (L'Ange Noir, 1994)
10. Erótica Aventura (À L'Aventure, 2009)
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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