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Nas terras de Alá: aí sim, choque cultural

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08.02.2012 - 21:35:44

Tem coisas na vida que a gente espera ver e viver. Outras acabam acontecendo e nem dá para acreditar no que os olhos veem e nas emoções que sentimos. E uma dessas foi conhecer o Marrocos. Poderia cogitar, alguma vez na vida, em pisar aqui. Mas não dava para imaginar, de fato, o que veria e faria aqui. Compramos as (baratas) passagens (e viva a Ryan Air!), reservamos um albergue recomendado por amigos e foi só. Nada planejado. Só sabia que iria ao deserto, conheceria Marraquexe, que o suco de laranja é sensacional e que temos de pechinchar para fazer compras. O bom é assim, quando não se sabe nada.

Abriu a porta do avião e pronto: estou em terras completamente diferentes! O sol quente que desconheço há meses, as casas todas cor de areia, de longe viam-se os cactos e os escritos árabes dividindo espaço com francês. A sensação que tive foi de criança vendo alguma coisa pela primeira vez: embasbacada, olhando para todos os lados. Que bom que vim conhecer alguma coisa, de fato, diferente! Que choca e encanta os olhos, dá um nó na cabeça, agrada o nariz e os ouvidos.

Sem nem sair do aeroporto, começou a maior prática que existe por aqui: negociar. A primeira situação foi com táxi. Isso mesmo, 20 minutos disputando quem dava menos! Ai, Alá amado, tá aí uma enorme deficiência que tenho. Prefiro que me deem o preço e pronto. Sou péssima negociante! De táxi a almoço, tudo se negocia. Aliás, ô gente que gosta de um dinheiro! Não há comerciante de feira hippie que consiga ser mais chato que os daqui. Não pode nem olhar para o lado que já começam a querer negociar. Vão te seguindo e, se pergunta o preço, por pura curiosidade, se ferrou. “What’s your price? What’s your last price?” (qual seu preço? Qual seu último preço?), tudo varia até 300%.

No fim das contas, fui pegando as manhas. A primeira dica é pedir três ou quatro vezes menos do que oferecem. A segunda é dizer “então não vou comprar” e sair andando. Eles vêm atrás e aceitam seu preço. A terceira é dizer que é brasileiro e estudante. E quem deu essa terceira dica foi um dos próprios comerciantes mesmo. Negociando pôsteres de 75 dirham cada, pedi 100 em dois. “Brazilian? Student, right?” “Yes, Yes!”, respondi.  “Ok, we are friends, so.” E pronto, utilizamos essa tática em outros lugares e funcionou bem.   

E paga-se para tudo! Para alguém te ajudar a atravessar um riozinho, para tirar uma foto ou assistir a qualquer apresentação de música, por mais simples que seja. Como um senhorzinho tocando a mesma nota repetidamente num violino, como se aquilo fosse mesmo uma música. Mas eles fazem isso porque sabem que dá mesmo vontade de registrar tudo. É muita informação! Do vestuário marcado pelo islamismo às najas sendo levantadas pela flautinha em plena praça. Das mulheres carregando os filhos nas costas amarrados em tecidos aos homens encapuzados. As banquinhas de frutas, temperos e condimentos. As grandes ruas disputadas por carros e carroças e as menores por pessoas e motoquinhas. Mas é melhor que você nem perca seu tempo vendo isso por trás das lentes. Digerir tudo a olho nu, sem se preocupar com foto, é muito digno.

Bagunça organizada

Aliás, que loucura, que muvuca são as ruas de Marraquexe. Não ser atropelado aqui, quase um milagre de Alá! Prova para quem tem bom reflexo. E não se perder nas ruas da Medina, outra prova para quem acha que é bom de direção. Tudo parece ser igual, mas ao mesmo tempo, são muitas coisas diferentes para todo canto. Uma bagunça muito organizada, ou como bem disse um amigo, uma confusão feita à mão. Luminárias, xixas (narguilês), sapatos, bolsas, condimentos, bules, facas, frutas, tudo sendo vendido um ao lado do outro, compondo uma bagunça linda e organizada.

Há pobreza, não há como negar. Dezenas, centenas de pedintes. A moeda tão desvalorizada que faz a nossa graça. Mas é uma forma de pobreza diferente. Não sei se é naturalizar demais, mas eu encarei mais como uma simplicidade encantadora. Porque pobreza agride os olhos, dói. E não, nada me chocou ou doeu. Tivemos o prazer de ter a companhia de marroquinos que nos fizeram conhecer uma Marraquexe que nem todos os turistas têm oportunidade: por desconhecimento e segurança também. Com eles, nos enfiamos em cada beco e ruazinhas de Marraquexe que me faziam questionar: estou mesmo aqui? Fugimos das imagens turísticas oferecidas na famosa praça Jemaa el Fna.

Era uma cidade funcionando mesmo, turismo à parte. E por vezes me senti meio atemporal ali, não saberia dizer em que década estava se não me dissessem. O comércio naquela forma mais original, que dava quase para imaginar trocas de produtos. Os trabalhadores em seu ofício artesanal, as mãos fabricando seu sustento. Todos ali, dividindo os becos e ruas com jumentos, carroças, vendedores de frutas deliciosas e motoquinhas. Os churrasquinhos vendidos nas esquinas e ao lado um monte de lixo. Perto das frutas, escorria uma água muito suja. Ali ao lado, um lindo parque. E, acreditem, havia uma harmonia nisso tudo.

Marraquexe parece guardar um valor ignorado pelo mundo ocidental, uma outra lógica parece guiar a vida dessa cidade. A beleza nos detalhes, na arte, nas cores. Como podemos ver no palácio Bahia, a grandiosidade reside na beleza dos detalhes e vida da arte. Ou em qualquer esquina, casas e restaurantes, dos simples aos mais caprichados, todos coloridos e detalhados. São cores, aromas e sabores por todos os lados. Essa cidade de mais de mil anos parece insistir no seu caráter milenar.

Numa dessas andanças com esses amigos marroquinos, bateu a fome. Paramos num cantinho que vendia-se uns sanduíches com batata frita que, dificilmente, encararíamos se estivéssemos só. Desses cantos que a vigilância sanitária passa longe. Mas na verdade era como recusar um pastel de feira da periferia com vinagretezinho. A minha sensação foi a mesma. Um turistão no Brasil não encararia sozinho essa refeição, a não ser que o levassem lá. E que delícia! Comer aquilo sentados num parque vendo as crianças brincando sob os olhos das mães conversando entre elas.

Ali do parque, ouve-se aquele som que se repete várias vezes ao dia. Um chamado vindo das mesquistas, por um megafone, levando os fiéis para rezar. Depois desse chamado, percebe-se um fluxo em direção à casa de Alá. Mas nada tira o enorme movimento das ruas e dos comércios.

O que muito me chamou a atenção é que, por mais que todos esses produtos comercializados pareçam ser muito turísticos, feitos para a gente ficar doido para comprar, é que eles, de fato, fazem parte do cotidiano dos marroquinos. Enquanto eu comprava um bule e copinhos de chá, só para enfeitar a sala da casa dos meus pais, alguém ao lado, comprava para ser usado em sua cozinha. Eu escolhia uma sandália de couro pensando quem usaria aquele sapatinho de Aladim, que tinha aos montes para serem vendidos, quando reparei que todos usavam aquilo. Ou quando escolhia pashminas para enrolar os pescoços da minha mãe e tias, a moça ao lado comprava para tampar seu cabelo, como manda sua religião.    
 

E falando em religião, encerro esse texto sobre Marraquexe com uma das coisas mais incríveis que vivi por aqui. Domingo foi dia do profeta Maomé. Um desses amigos marroquinos quis nos levar para ver um ritual em celebração a esse dia. Nos permitiram entrar porque estávamos com eles. Numa espécie de terreno baldio esticaram pelas laterais esteiras de palha para as pessoas se sentarem. À frente, homens com tambores se concentravam.

Festa popular e religiosa de um lado é tudo do mesmo jeito: mulher, homens, crianças, todo mundo junto, naquele clima de festa. Nos sentamos com eles e esperamos começar o ritual. Acendem incenso e começam a tocar os tambores. O ritmo, ao longo de uns vinte minutos foi se acelerando e, de repente, uma mulher com o rosto todo tampado pelo véu se levanta ali perto dos homens que tocavam e começa a ser tomada por algum espírito ou qualquer força que não sei explicar. Imaginem o santo baixando em alguém ao ritmo dos tambores. Poderia ser candomblé, mas estou falando em islamismo. Outra senhora se levanta e se junta aos tambores e, quase morro de susto, uma outra atrás de mim dá um pulo, se apoia nos meus ombros para levantar e segue o ritmo. Não sei que Deus, Alá ou que Orixá inventou ao fazer a África assim, tão especial e espiritual.

O problema é que depois de uma viagem dessas, corre-se o grande risco de desejar colocar somente países “exóticos” na rota turística. É que as diferenças agradam demais. Perceber o quanto o homem pode ser diferente um do outro, como uma cultura pode fazer a vida e os valores de um indivíduo tão diferentes do meu. Como, por exemplo, trata-se a menstruação na vida de uma menina que aqui vive. Simplesmente uma questão que vai influenciar completamente sua noção de felicidade. E também ver que, no fim das contas, somos todos iguais. Os ônibus lotados, o churrasquinho na esquina, a família no parque num dia de domingo, o carinho que a mãe tem com o filho, nas brincadeiras das crianças, nos desejos de felicidade. Somos todos iguais.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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