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III Fronteira

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13.03.2017 - 09:30:00
 
Goiânia – Se houvesse somente a mostra dedicada aos filmes da cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes, diretora de primeira grandeza, a III edição do Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental – já seria uma programação sine qua non a todo e qualquer cinéfilo que se preze. Este festival surge após a décima edição da mostra O Amor, a Morte e as Paixões e preenche uma lacuna na programação. Estes eventos e o Cine Cultura, com sua brilhante programação, alçam Goiânia, definitivamente, no polo do cinema de vanguarda.
 
Rita Azevedo Gomes é, provavelmente, a maior diretora do cinema português e uma das maiores de toda a história do cinema. Figura no mesmo time de Ida Lupino, Chantal Akerman, Marguerite Duras, Agnès Varda, Vera Chytilová, Maya Deren, Claire Denis e Naomi Kawase, mas, infelizmente, ainda é muito subestimada e pouco conhecida por aqui. Seu cinema é impregnado de uma beleza pungente que emana uma poesia em cada frame, em cada fala, tudo de modo extremamente natural, nada forçado como acontece em muitos outros filmes. Uma sensibilidade raríssima de ser atingida.
 
A influência de Manoel de Oliveira, um gênio do cinema português, faz-se presente sobre sua obra, mas sem nunca deixar transparecer os traços de sua assinatura marcante. Um sopro de luz que irradia e ergue às alturas o cinema enquanto arte. Estes traços advêm de uma cultura europeia, por meio de uma riquíssima formação literária, onipresente em películas lusitanas.
 
Sua carreira é marcada por uma curta, mas monumental filmografia. Durante o festival, serão exibidos os longas: O Som da Terra a Tremer (1990), Frágil como o Mundo (2002), A 15ª Pedra (2007), A Vingança de uma Mulher (2012) e Correspondências (2016). Ainda não tive o prazer de assistir ao seu mais recente trabalho e ao seu longa de 2007, mas os outros são obras-primas absolutas do cinema.
 
Os recentes filmes de Júlio Bressane (Beduíno, 2016) e Luiz Rosemberg Filho (Guerra do Paraguay, 2016), dois diretores icônicos do cinema brasileiro, solidificam ainda mais a nobreza deste festival e o comprometimento com a qualidade artística. Haverá exibição de curtas de Ken Jacobs, mestre da rotoscopia, e um nome importantíssimo do cinema americano. Abigail Child, outra referência obrigatória do experimental nova iorquino, teórica e figura central da teoria feminista no cinema junto com Laura Mulvey, Barbara Hammer, entre outras. Aloysio Raulino, um grande nome do cinema nacional, terá um lançamento de um box e a exibição de seu longa-metragem Noites Paraguaias (1982).
 
Acontecerá ainda uma mostra denominada Landscapes com filmes novos de referências do cinema experimental como o japonês Tomonari Nichikawa, o americano Robert Todd, Lewis Klahr, mestre da animação e colagem americano e o importante realizador canadense Stephen Broomer, bem como outros nomes que estão despontando como Ana Vaz, Fern Silva, Eva Kolcze e Kelly Sears. Será exibido o filme novo do inglês George Clark, nome importante do avant garde britânico.
 
Em edições anteriores, outro diretor emblemático esteve presente no evento. Andrea Tonacci, italiano de alma brasileira, um dos expoentes do movimento Cinema Marginal ao lado de Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Ozualdo Candeias Ribeiro… Tonacci realizou alguns dos mais importantes filmes brasileiros: Bang Bang (1971), Serras da Desordem (2006) e Já Visto, Jamais Visto (2013). Infelizmente, faleceu no fim do ano passado, um ano de trágicas perdas para o cinema.
 
O III Fronteira selecionou 6 longas e 16 curtas para as mostras competitivas. A origem destes filmes é de países como Brasil, Colômbia, Equador, Argentina, México, Síria, EUA, Jamaica, Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Filipinas. Esta edição acontecerá entre os dias 16 e 25 de março, no Cine Ritz, em Goiânia. A curadoria das Mostras Competitivas do III Fronteira ficou a cargo de Camilla Margarida, Henrique Borela, Marcela Borela e Rafael Parrode. A realização é da Barroca Produções e o projeto conta com recursos do Fundo Estadual de Cultura de Goiás, da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Goiás (Lei Goyazes) e da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. 
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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