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Stranger Things e Pokémon GO já são antigos

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05.08.2016 - 11:03:07
 
Goiânia – Diante do computador para escrever sobre Stranger Things, o blockbuster da Netflix, dou-me conta de que o assunto envelheceu. O tema do dia agora é o Pokémon GO. Menos de 24 horas após a chegada às lojas virtuais brasileiras, o fenômeno era tão avassalador que já havia “especialista” na Globonews a dizer que o joguinho para celular “aprofundava as diferenças sociais brasileiras” – como se elas, as diferenças, não viessem desde a colonização.
Cai a ficha. Não dá para falar sobre Pokémon GO. Não dá para escrever sobre qualquer “novidade”. Tudo se torna antiguidade em uma velocidade estonteante e sobre-humana. Então voltemos bem mais ao passado.
 
Em 1890, o médico e psicólogo William James explicava que a vida adulta carece de marcos inaugurais comuns à fase de crescimento, tais como o primeiro dia de aula, o primeiro beijo, a primeira viagem de férias em família, a primeira experiência sexual. Sem eles, os anos se tornam “ocos” e o tempo parece acelerar. Por isso, à medida que envelhecemos, aumenta a sensação de que os dias passam cada vez mais rápido.
 
James escreveu diante do espanto do mundo pós-revolução industrial. Nunca mais os dias passariam lentamente, mas as coisas seguiram mais ou menos um ritmo cadenciado até a virada dos anos 1980/1990.
 
Quem cresceu nessas décadas tinha um hábito que pareceria uma bizarrice aos jovens contemporâneos. Aguardávamos ansiosamente o lançamento do novo disco da banda preferida por um, dois, três anos. Mesmo quando ele chegava, continuávamos ouvindo os anteriores por anos a fio. Quem tinha Legião Urbana em 1985 manteve a fidelidade até “A Tempestade”, lançado 11 anos mais tarde.
 
Em algum momento na década de 2000 ocorreu o momento de inflexão. A facilidade de acesso a novos artistas praticamente eliminou a idolatria quase religiosa que se perpetuava por décadas (com uma ou outra exceção). Como diziam os Titãs, a melhor banda de todos os tempos da última semana logo iria ser substituída pelo novo sucesso do passado e assim por diante. Impensável, nos dias atuais, guardar nas gavetas, por anos, uma edição da Bizz com seu artista preferido na capa.
 
Tempo é artigo cada vez mais escasso. E essa vida em altíssima velocidade não se limita aos produtos culturais (como os seriados de TV ou jogos de celular). Ela está em todos os campos, do trabalho aos sentimentos. Cultivar afeito demanda tempo.
 
Afinal, para que sonhar com aquele amor platônico por meses se há uma abundante oferta de corpos ao alcance de um clique nos aplicativos de encontros casuais? Tinder, Grindr e afins eliminam, ou encurtam muito, os meios para chegarmos logo aos fins, pois não há tempo “a perder”.
 
Não sou ludista, como um leitor quase chegou a me acusar; sou um entusiasta da tecnologia. Considero-me um privilegiado por poder acompanhar todas essas mudanças diante de meus olhos – acho que sentimento parecido tiveram aqueles que acompanharam o pequeno passo de Neil Armstrong.
 
Entendo que o novo sempre vem, mas confesso que, às vezes, toda essa velocidade assusta um pouco. Pois, no instante de um piscar de olhos, nós, que há algum tempo éramos jovens, também nos tornamos antigos. E compreender isso é estar diante de nossa finitude.
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por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

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