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Judiaria

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22.05.2016 - 17:07:05
[Mas daí] a dança dos vaga-lumes, esse momento de graça que resiste
ao mundo do terror…
(Georges Didi-Huberman)    

 
 
Goiânia – Trim, triiiiimmmm… E Josué levanta, dia-sim de outros bem-tais, às cinco horas, amanhecendo-se. Mal tem tempo de abrir o olho, dizer ou maldizer pelintrices, pois-kaboom: já é pessoa invisível. Ultimamente, não acorda de sonhos sequer intranquilos; aliás, até desgosta de falar no assunto:
 
— Sonho, sonho mesmo… hoje, hoje mesmo… — sorumbático, ele explica — se a gente for pensar, parece até que inexiste. Nem sonho nem epifania. Já essa realidade cruenta de tudo…
 
A história dele, como contam, eis a seguinte: foi coisa de dois ou três dias, assim num zás, e Josué andava em aflição danada, precisando sossegar; especulava-se que vinha abilolado da cabeça, sorocando, sorocando… Nunca, em seus trinta e seis anos de vida, tinha sido assim.
 
Era escritor. “Sim, escritor”, pois-Josué se envaidava todo e repetia com gosto-além; claro que de vez em quando a resposta saía em revirete, mas só sendo muito necessário, as pessoas importunando muito. De assentado que: era homem paciencioso, com sensibilidades, respeitador. Adepto de seus-lá ficcionismos, bem-bem, mas em nada incoerente ou deslúcido. Ao contrário. Trabalhava o dia inteiro do que precisasse. Por melhor, escrevia: conto, novela, crônica, crítica. E tanto que…
 
— Poesia, não. Linguagem para gente extraordinária, de palavra-rio, pele, textura, requinte — ficava todo ponderativo. Entendessem vez por todas que ele era homem “de ficção”, preferia estoriar. O que não significava que inventasse as coisas. Nas estórias, sim, lógico, criava personagens, dava nome diferente a tudo; mas em vida real, nem-nunca, a situação era bem outra. Acreditava-se.
 
Um belo dia, porém, voltou para casa proparoxítono. E, pelo que se sabe, foi no que as pessoas começaram a encafifar que pudesse estar de juízo perdido. A sandice foi que ele primeiro passou a sibilar, o tempo todo quase, assaz-assim: “Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo”, e que precisava agora tomar defesa de, empreender a grande obra, que largasse de pusilânimes ditos, a circunstância demandava, era premente, “pois o silêncio não basta”, e foi virando ideia fixa.
 
Pois-bem: morava sozinho. Porteiro do prédio indagou, e de novo. Também vizinhos, colegas, conhecidos. Telefonemas, estranhamentos, conjeturas. Por que era aquela balbuciência toda sobre um suposto ocorrido? Fato que: o homem parecia virado do avesso. Tinha sido moléstia grave? Ruindade praticada ou recebida? Qual o quê? E até que, par de dias depois, ao voltar do grupo onde era professor de línguas, os pés já algo variando, salientes e reentrantes, serpeando pela rua, quando abordado pelo vizinho do oitavo andar foi que Josué destemperou a seguinte explicação:
 
— Isso pode acontecer, não, seu Agenor. Não está correto…
 
— Mas o que é, homem-de-deus, que não está correto?
 
— Isso de tratarem a gente como se a gente fosse invisível.
 
— E o que foi que houve?
 
— Mês passado eu voltava para casa, o de sempre. Vinha penseroso de escrever um conto sobre a visualidade das coisas, isso que a gente vê, pensa que vê ou então aquilo que é preciso transver, sabe? Dobrando a Avenida Central com a Solaris, avistei um menino. Mochila nas costas, provável que também do colégio, ali pelo sétimo ano, mas de fato eu nunca tinha reparado nele. De andar ziguezagueante, fez que ia entrar no ônibus, desfez, refez, aprumou o percurso e subiu. Tomei, então logo, o mesmo coletivo. Sentamos um de frente para o outro. Ele me olhava como se vendo assombração. E perguntou, no afinal, por que que ele não estava me vendo azul, logo justificando que para tudo quanto olhasse via azul, era diferente, até bonito, mas eu, não. Fiquei cabreiro, desconcertei. Fiz que compreendia, e expliquei, tudo dentro do que me foi possível. Daí em seguida, o menino me contou sem fim de estórias, que a mãe também professora, que os irmãos isso e aquilo, e o pai em peleja da vida, “um reparo aqui, sonho de ir morar melhor ali, a vida indo, as coisas se arranjando”.  
 
Deu o ponto, Josué se despediu do menino, de ficcionismo em ficcionismo, sabe-se lá… e ficou de imaginaturas. Olho no de fora, olho dentro, olho-dia. Nunca mais se toparam. Passadas três semanas…  
 
— Fiquei sabendo anteontem, seu Agenor, que mandaram arrancar o olho do menino. Tudo o que ele tinha de mais dele, vendo ou transvoando, vontadeasse, né? Pai e mãe fizeram súplica, pernearam, tinham justificativas, que não, não fizessem aquilo. Que mal tinha o menino ver azul, usufruindo a vida? Ou se ele tão só imaginasse, deixassem, ora. Mas não, alegava-se que assim não podia. Mal mesmo o menino nunca fez a ninguém. Todo mundo atestava, e de pé junto que ele era criança ordeira e cumpridora, para o que, no entanto, não houve jeito, seria feita a judiaria. Foi: sem razão, sem lisura; de procedência e procedimentos iniquáveis, não é de enlouquecer? Um menino, o senhor imagine…
 
Parece que, depois disso, Josué, sempre tristonhonho e sibilante pelos cantos, nunca mais tocou no assunto. Estoriou, no que pôde. Perguntado como é que tinha sido o desfecho para aquela estória do menino, contou que, ainda sem olho, ele via. E nunca, nem um só dia, tinha deixado de ver. Via agora vaga-lumes. O improvável e minúsculo esplendor dos vaga-lumes. Em dança, tanto mais visíveis…

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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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