Tem gente que gosta de resort, outros preferem esquiar ou ir pra Disney, mas a minha ideia de férias perfeitas tem um quê bem hippie: gosto de praia remota, aquelas de difícil acesso, com clima retrô, uma vila bem fofinha, onde a gente pode interagir com o povo local e andar descalço. Onde se usa pouca roupa e nenhuma maquiagem. Onde todo o supérfluo não tem espaço.
Tá certo que poucas praias no Brasil ainda preservam esse espírito. Certamente Caraíva (sem o S, por favor!), no sul da Bahia, é um desses lugares. Cercada pelo mar e pelo Rio Caraíva, o povoado é um dos mais antigos do país. Há registros de 1530. Fica em uma Área de Proteção Ambiental e é delimitada pela reserva indígena Pataxó. Conheci a vila em 1995, quando a luz elétrica ainda não tinha chegado por lá. Apaixonada, voltei nos dois verões seguintes. Seguiu-se então um hiato de 13 anos e, finalmente, retornei agora com a minha família para passar alguns dias.
Nesse tempo, Caraíva ganhou muitos visitantes, a luz chegou e a infraestrutura melhorou consideravelmente. Devo admitir que a mudança foi positiva. Acabou o barulho dos motores e o cheiro de diesel, entrou a cerveja gelada, ar-condicionado e outras benesses da vida moderna. Mas celulares dificilmente funcionam por lá, embora o Wi-Fi possa ser usado em alguns bares e restaurantes. Televisão não tinha – ainda bem – na casinha que alugamos na beira do rio. Descanso total.
Mas mesmo com tantas mudanças, Caraíva continua igual. A luz demorou a chegar, porque a rede é subterrânea, um dos projetos mais interessantes do País. Não se vê um fio ou poste. O clima é o mesmo de 13 anos atrás e, me atrevo a dizer, de alguns séculos atrás também. Uma atmosfera leve paira sobre o povoado, onde se chega apenas de canoa. Não há carros e as ruas são de areia. No máximo, uma carroça para fazer o transporte.
As crianças brincam o tempo todo nas ruas e nadam no rio. A felicidade é quase palpável. Os moradores de lá, diferente de muitas currutelas pelo Brasil afora, não têm ambição de ir pra cidade grande. Mas muita gente da cidade grande tem a pretensão de viver ali.
À noite, tem forró com trio ao vivo. Um dia em cada estabelecimento, que é pra todo mundo se divertir e todos os comerciantes ganharem grana. A democracia funciona em Caraíva. É assim com o serviço de travessia de canoa e com as carroças de transporte. Cada um na sua vez.
Provavelmente, como todos lugares, o povoado tem seus problemas e seus habitantes os ciúmes, invejinhas e pequenezas inerentes à natureza humana. Mas gosto de pensar que a utopia de uma vida mais livre, alegre, fraterna e completa tem nome e endereço: Caraíva, meu amor.