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Um dia você acorda e percebe que a dor passou

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18.12.2015 - 09:52:21

(Foto: freeimages.com)
 
Sarah Mohn
 
Goiânia – Há pouco mais de um ano, quando saí de relacionamento bastante conturbado, uma amiga me disse uma frase meio óbvia, mas tão profunda, que mudou minha forma de enxergar os rumos da vida a partir daquele instante. Talvez essa amiga nem saiba a importância de ter me dito aquilo, mas a frase funcionou como um rito de passagem e a carrego comigo desde então.
 
“Quando termina um relacionamento, você sofre, sofre, sofre. Acha que vai morrer. Sofre mais um pouco. Mas um dia acorda e percebe que a dor passou. Porque a dor passa.” Acho isso uma das constatações mais lindas e precisas que já ouvi. Aproxima-se da popularesca “o tempo cura tudo”, mas vai além. A frase de Letícia Saba toca a alma e nos obriga à reflexão.
 
Quem nunca chorou até soluçar, parou de ver graça em tudo quanto é coisa, fez da própria cama um casulo de proteção, faltou ao trabalho para, apenas e tão somente, passar um dia inteiro deitada em posição fetal sem sentir fome e sede não é protagonista ainda do enredo chamado vida. Quem nunca ficou doente com o fim de um relacionamento não viveu a plenitude da existência humana.
 
Não que eu deseje isso ao próximo, mas tenho plena convicção de que, quem sofre por amor, amadure, cresce, aprende, se aperfeiçoa, evolui. E transfere toda essa bagagem positiva de aprendizado a um novo amor. É o famoso preparar alguém para o próximo da fila. Afinal, gata escaldada tem medo de água fria. E gente amadurecida não renega sabedoria. 
 
O fato é que, apesar de ter toda essa consciência da previsibilidade humana, ainda me questiono sobre porque raio de motivo temos de passar por situações destrutivas na vida. Talvez o espiritismo apresente ponderações evolutivas que envolvam carmas e, o cristianismo, argumentações sobre desígnios divinos. Mas eu, cética assumida, prefiro buscar respostas na lei universal da ação e reação. Obrigada, Newton.
 
Se um relacionamento não dá certo, uma série de fatores explica as razões do fracasso. Tenho convicção de que nossas próprias atitudes contribuem para o desfecho de uma relação. A começar pela escolha do parceiro. No fundo, lá no fundo, a gente sempre sabe quando algo tem futuro ou está fadado ao fracasso. Insistir por medo de perder o que talvez nunca tenha sido nosso ou fingir não perceber demonstrações claras de incompatibilidade são os piores dos erros. São a parte mais grave do antagonismo passional.
 
Não me refiro a rejeitar diferenças e ser intolerante aos defeitos do parceiro. Um relacionamento saudável é feito de acordos declarados, mas também dos subjetivos. É preciso desprendimento e altruísmo para compreender o comportamento e o perfil do companheiro. Aceitar as diferenças, até o limite profícuo, é fundamental para evitar o confronto estéril e desnecessário. Afinal, ninguém nunca será igual a ninguém. E a troca de experiências, opiniões e diferenças, pode (e deve) colaborar com o crescimento do casal.
 
Vejo muitos casais querendo que o parceiro se adapte à rotina, aos gostos, às amizades, ao estilo de vida da companheira, e vice-versa, mas pouco oferece em troca. Quase nenhum esforço e interesse demonstra em trocar vivências e compartilhar projetos. Muitas vezes nos esquecemos de tirar o foco do nosso próprio umbigo e perguntar ao outro o que ele quer, o que está sentindo e o que podemos fazer por ele. Exigimos, mas não oferecemos. Nos esquecemos que a adaptação é uma etapa conjunta e de mão dupla.
 
À parte esses casos, e retornando a Newton, acredito que a escolha do parceiro errado é culpa exclusivamente de quem o escolhe. De quem ignora aquela vozinha interior que sempre diz, dia após dia, que o relacionamento não terá futuro e o saldo será um oceano de lamentações e sofrimento. Mesmo assim insistimos, calando os alertas da razão, na tentativa de evitar encarar o sofrimento.
 
Mas é impossível que uma união nessas condições perdure. Aliás, não acredito em relacionamento que termina e volta. O remendo sai sempre pior que o estrago. Uma hora, de repente, a clareza emerge de algum submundo e a pessoa percebe que é humanamente impossível conseguir viver entrelaçada dos pés à cabeça à areia movediça da dor. É nessa hora que iniciamos o processo de racionalização de que tudo sempre esteve errado, desde o começo. E, como diz minha psicóloga, adentramos ao processo de aceitação.
 
Então sofremos, sofremos, sofremos. Achamos que vamos morrer. Sofremos mais um pouco. Até que um dia acordamos e tomamos consciência de duas coisas: a de que ninguém morre por amor e a de que um dia a dor passa. Porque ela sempre passa.
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por Sarah Mohn

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