Goiânia – Em Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, os pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari apresentam um conceito metafórico que incide sobre a teoria do conhecimento, ou epistemologia, contribuindo para a sua compreensão geral. Traduzido para o português em cinco volumes pela Editora 34, a obra, que é composta em volume único na edição francesa, traz a conceituação de rizoma como metáfora do conhecimento, numa exposição bem detalhada pelos autores. Tomado de empréstimo ao reino da botânica, o rizoma, definido pelos dicionários especializados como “haste geralmente subterrânea que une sucessivos brotos”, assume contornos de uma capilaridade que se espraia de forma bastante eficiente no contexto da luta pela sobrevivência a que se referiu Charles Darwin, tanto no sentido literal quanto no sentido figurado do termo.
No âmbito da metáfora, Deleuze e Guattari apontam que o rizoma seria uma figura mais pertinente do que a árvore, embora esta predomine metaforicamente na cultura em função mesmo de uma forte tradição no campo da filosofia do saber. Nos muitos detalhamentos que os autores fazem para sedimentar o conceito, há referências às gramíneas, um exemplo objetivo de rizoma. Assim, um tufo de grama se liga a outro em função de sua estrutura em haste, estabelecendo conexões que se distanciam e interligam de forma muitas vezes insuspeita, espalhando-se em limites que nem sempre são demarcados.
Transposta para o campo das ideias de quaisquer natureza, como defendem os autores de Mil Platôs…, a metáfora rizomática funciona ainda como uma espécie de variação temática do chamado pós-estruturalismo. Mesmo que possa apresentar alguns paradoxos, a conceituação de rizoma dos escritores franceses dialoga com outras propostas congêneres instigantes, dentre as quais se poderiam destacar a intertextualidade e a interdiscursividade, que apontam de maneira complementar para a ideia de diálogo entre textos e entre discursos que num primeiro momento não teriam relação aparente.
Um exemplo instigante dessa correlação rizomática no campo artístico está nas telas de cinema no momento. Em Perdido em Marte, filme dirigido por Ridley Scott, tem o espectador o desdobramento de um gênero, ou uma variação rizomática dele, que teria começado com Stanley Kubrick e seu clássico 2001, Uma Odisseia no Espaço, de 1968. Em ambas as produções, procuraram os roteiristas reduzir ao máximo a distância entre o que é pura ficção e o que poderá um dia vir a ser fato científico e não apenas teoria.
A fotografia de Perdido em Marte é primorosa. A projeção em 3D faz o espectador sentir-se como se estivesse realmente em solo marciano, quase que podendo tocar as suas areias e rochas avermelhadas. O contato com equipamentos que atualmente vasculham o vizinho da Terra, que no futuro fílmico já fazem parte de um passado um pouco distante, tece um rizoma extraordinário entre a distinção que Aristóteles estabelecia entre narrar o que aconteceu e o que poderia ter acontecido.
A poética das esferas
Perdido em Marte apresenta a história de um astronauta que é deixado para trás numa evacuação de emergência da missão de que participa. Seus companheiros acreditam que ele tenha morrido ao ser atingido por uma peça da nave que se solta sob a ação de fortes rajadas de vento. Embora ferido, ele sobrevive, recuperando-se dos ferimentos através de uma autocirurgia ambulatorial, quando passa a travar uma luta pela sobrevivência, na esperança de que algum contato com a Terra se estabeleça.
Enquanto as ações se desenrolam, Mark Watney, o astronauta interpretado por Matt Damon, põe em prática todos os seus conhecimentos; dialoga constantemente consigo e, por extensão, com a plateia, em solilóquios que têm a finalidade de diminuir o impacto da solidão. Questões existenciais naturalmente vêm à tona e ao observar do alto de uma montanha marciana o pôr-do-sol no distante planeta, medita sobre a extraordinária solidão que envolve o explorador espacial. Na tentativa de manter a sanidade, Watney ouve a coleção musical deixada por uma colega, cujo repertório é formado basicamente de composições de discoteca dos anos de 1970, o que ele abomina, pois a sua preferência recai sobre a musicalidade do século XXI.
A partir do momento em que consegue estabelecer contato com a Terra, um frenesi se estabelece. As ações tomadas para o resgate são embaladas ao som de Starman, composição de David Bowie presente em seu disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, de 1972. Em outros momentos, o hit que aparece nas telas é I Will Survive, na antológica interpretação de Gloria Gaynor, que pode ser pensado como uma espécie de hino do astronauta esquecido em Marte, já que a tradução literal do título da música é Eu sobreviverei, ou Eu vou sobreviver, muito embora a correspondência entre a situação cantada por Gaynor e a vivida pelo astronauta fique mesmo só título da canção.
Ridley Scott parece ter escolhido uma trilha sonora que realmente estava no espírito de época – os alemães diriam zeitgeist – de que se impregnou o período das viagens espaciais na transição entre os anos 60 e 70 do século passado. A cor e o design do uniforme dos astronautas de Esquecido em Marte remetem de maneira subliminar à cor da roupa que David Bowie usava em shows com o repertório de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars. Conforme Deleuze e Guattari, o rizoma metafórico estabelece hastes que o interliga a outros rizomas, formando os mil platôs expressos por seus bulbos. Em outras palavras, formam-se intertextos e interdiscursos insuspeitos.
A trilha sonora de Esquecido em Marte, que poderia ser denominada pelo neologismo de exomusicalidade – numa correspondência que remete a cognatos como exobiologia, que é o estudo da vida, ou a sua possibilidade, fora da Terra –, encontra uma correlação rizomática, ou interdiscursiva, com a MPB em dois exemplos possíveis a princípio. Em artigo para um site da Internet sobre os 40 anos do disco de David Bowie, o vocalista da banda de rock nacional Nenhum de nós, Thedy Corrêa, relata a saga que foi a versão por ele escrita, que em português recebeu o título de O Astronauta de Mármore. Apesar das críticas ferinas dos especialistas, a versão foi aprovada por Bowie, que a ela fez menção em um show em São Paulo, dizendo que tocaria uma canção que sabia que todos poderiam cantar em português.
O disco de 1972, ainda segundo Corrêa, estava recheado de canções e metáforas espaciais na esteira da recente conquista da lua. No Brasil, dois anos antes, Roberto Carlos lançava em seu disco anual uma faixa intitulada O Astronauta, cuja letra foi composta por Edson Ribeiro e Helena dos Santos.
Em belíssimo arranjo, a canção apresentava alguém profundamente melancólico com o mundo recheado de guerras, violência e tristezas, que desejava ser um astronauta para desligar os controles de sua nave a fim de permanecer eternamente no espaço sideral. Portanto, bem na contramão do cosmonauta interpretado por Matt Damon, que parece viver num futuro breve em que os problemas de ordem social mais prementes da humanidade já estariam resolvidos.
Assim, a competente transposição para as telas do romance de Andy Weir, The Martian, com a rica expressão rizomorfa de sua trilha sonora, apontam para a consolidação, através de uma massa crítica que vai se formando, de um gênero tanto literário quanto artístico que bem poderia ser denominado de forma cognata de exopoética.
*Gismair Martins Teixeira – Doutor em Letras pela Universidade Federal de Goiás e professor-pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Seduce-GO.
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