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Zé Alfredo Ciabotti: a literatura como rota-desvio

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24.01.2016 - 16:31:28

Goiânia – 1 — A certa altura, em algum 12 de junho, cidade como outra qualquer
Sai o casal de casa para comemorar o seu dia. Como é de se esperar, ele se faz todo em cordialidades: abre a porta do carro, estende a mão oferecendo o braço, caminha ao lado dela em gesto de companheirismo. Quando entram no restaurante, ele puxa a cadeira, desenrola mais reverências, escolhe o vinho chileno, a entrada é especial. Olham-se com ternura, brindam, dizem, escutam, enfim-celebram. E então jantam. Ambos já de volta ao carro, e ela sugere o lugar onde passarão mais-juntos-ainda a noite. Lá eles dançam, alegríssimos; trocam carinhos, nem se lembram do resto do mundo. Fazem amor, cenário bem-lindo. Beijam-se, apaixonados, no momento de honra, em que ele tira da carteira os quinhentos e cinquenta reais, e clareia a noite, e termina a fita: tudo dentro do combinado para o grandioso dia. 
 
2 — Flash Fiction
A cena-aqui, recontada de “Dia dos namorados” — narrativa em parágrafo único que integra o livro O amor pode ter fim e outros contos, publicado em 2015 pelo escritor uberabense Zé Alfredo Ciabotti — coloca o leitor imediatamente naquilo que Horacio Quiroga entende ser crucial para se obter a “vida” no conto: o pequeno ambiente de suas personagens. Tanto que: a situação narrativa em si nasce e se dá dentro dessa “esfera”, de extremíssima brevidade, que Julio Cortázar, aliás, reafirma como a forma fechada do conto contemporâneo — “uma máquina infalível destinada a cumprir sua missão narrativa com a máxima economia de meios”. 


O escritor Zé Alfredo Ciabotti e o seu livro de contos “O amor pode ter fim” (2015)

 
3 — “Vidas em que tudo dá certo não dão boas histórias”
Os 25 contos do livro — todos brevíssimos — se situam no espaço e no tempo da indiferença humana. São narrativas contemporâneas, imiscuídas no nosso enfim-cotidiano, tão cediço às imagens de amor que vêm, em bastantes, alienadas naquele conhecido “destino-miragem”. Em contrapartida, apresentam-se estórias de encruzilhada e de síntese, e nelas nós vemos, distendidos, como se por um triz, os limites afetivos dos personagens, seus desvãos, falhas, amores, desamores, tropeços, ruínas. Não exatamente escancarados de violência (um dos traços, afinal, da chamada prosa contemporânea), mas por entre buracos de fechadura que o autor tem o cuidado — sensibilíssimo — de não rechaçar nem preencher de glamour, não apresentando, pois, ao leitor nenhum tipo de solução brandida em padrões bestas de emoções cristalizadas. 
 
4 — “Nem tudo que se come se digere”
A razão de verossimilhança e de sentido se estabelece, no conjunto da obra, entre o que os personagens veem/vivem e aquilo que também não se deixa de fora da percepção crítica: o que ao mesmo tempo pulsa e é, a todo momento, tomado da gente e que todos os dias acorda, desamanhece, sussurra, pede atenção, silencia, grita. Os contos são encontros com o cotidiano dos relacionamentos, dos inícios e interrupções, das ruas, das esquinas não luminosas, não gentrificadas da vida. Em todos eles, prevalece a crítica ao espetáculo sem o tom espetacular da neutralidade, sem que se proponha uma leitura de zona confortável, aquela de olhar desviando sentidos. 
 
5 — Negar a expressão pasteurizada das “percepções absolutas”
Com estética própria — de “cronista do mundo ordinário”, como bonita e acertadamente afirma Emílio Rogê, prefaciador do livro —, Zé Alfredo Ciabotti também explora o que Beatriz Jaguaribe, crítica literária e professora da UFRJ, chama “o choque do real”. Em contos como “Esperança”, “As heroínas” e “Sujas de glacê”, de maneira convincente e com consistência narrativa, o autor se dedica àquelas fraturas de realidade, tão nossas, tão vívidas, que aqui, embora venham ficcionalizadas, não são feitas para esconder, senão-mesmo para trazer à luz uma realidade “que é ignorada ou absorvida mecanicamente” e que, reportada agora com irreverência incômoda, converte-se no necessário momento de intensificação catártica, perturbadora, mas que nos faz ver além “das imagens sensacionalistas usualmente exibidas nas mídias que saciam os anseios do grande público pelo pão e circo”. 
 
6 — Contingentes da narrativa pós-moderna
Para Lucien Goldmann, David Harvey, Steven Connor e tantos outros estudiosos da pós-modernidade, a ficção pós-moderna representa uma resposta ao extremo da mercantilização da vida sob o capitalismo tardio, cuja lógica preconiza a transferência de sentido e significação das pessoas para aquilo que se compra (ou sonha comprar), seja a preço de banana ou de teor sofisticadíssimo. Obras como O amor pode ter fim intensificam, na contramão dessa lógica, a consciência da incoerência — prevalente em um mundo rasgado de frivolidades, de desimportâncias extremas do dia a dia que são quase sempre levadas ao absurdo de uma valorização vazia. É assim que a escrita de Ciabotti reage de maneira fundamental à experiência do ser humano, instigando de certa forma o leitor a uma nova tolerância com relação à própria narrativa, que assumidamente não dança em torno dos “forjados espaços extraordinários” nos quais transitam os mesmos astros sem desastres, as mesmas não intermitências, os mesmos “incluídos”.
 
7 — Uma literatura para formar leitores e fermentar leituras
De escrita enxuta, com a devida tensão e intensidade inerentes ao conto breve/brevíssimo, o autor oferece uma visão por vezes desconcertante do real, mas que, generosa com o leitor, não está a serviço dos aplausos de desfaçatez que ainda vemos — e como vemos!, infelizmente — na proposta ficcional de muitos escritores contemporâneos, felizes com seus prêmios, tão alheios ao pulsar da escrita. Zé Alfredo escreve “em meio à correria diária, em meio ao pandêmico cotidiano”, como ele mesmo diz. Seus contos podem ser lidos num zás, na fila do banco, nesses nossos intervalos entre um e outro “por fazer” na vida. São sobretudo estórias “para formar leitores”, para provocar, propor alternativas e desvios. E, pois-sim, para fermentar no e do mundo leituras, leituras, sempre leituras…
 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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