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Zara, aqui não é a China

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18.08.2011 - 19:21:39

 

Em certa medida, em alguns recônditos da nossa humanidade, se faz cada vez mais a pergunta: de onde vem esse produto? A questão não é nem um pouco nova. Em meados dos anos 1990, a Nike foi acusada de explorar a mão de obra de trabalhadores na Ásia e na América Latina. Pagava muito mal, as condições de trabalho eram degradantes e o direito à sindicalização dos funcionários não era garantido.

É bem verdade que, em países como a China, onde se encontra grande parte da produção da Nike, os trabalhadores nem têm o direito de se sindicalizar. Mas a empresa tampouco se mobiliza para promover melhorias nesse âmbito, junto ao governo chinês. E, segundo a organização norte-americana de direitos humanos Global Exchange, apesar de muitos compromissos feitos pela marca esportiva depois das denúncias, pouco mudou desde então, no que tange ao cerne da questão.

Trata-se de um símbolo. Ao lado da Nike, há inúmeras outras empresas, mais ou menos famosas, que possuem práticas idênticas.

Nos últimos dias, soubemos que a Zara, fabricante espanhola de vestuário espalhada pelo mundo, tem entre seus fornecedores brasileiros empresas que exploram mão de obra escrava. Em São Paulo (SP), em duas oficinas onde as pessoas também moravam, foram libertadas 15 pessoas que costuravam produtos da marca. A maioria era boliviana. Em uma terceira, em Americana (SP), uma parte dos 52 trabalhadores encontrados produzia calças da Zara.

A situação descoberta pelos auditores do Ministério do Trabalho incluía jornadas exaustivas de até 16 horas diárias, salários de R$ 274 a R$ 460, cerceamento de liberdade e condições degradantes de trabalho, em locais que não respeitavam as normas de saúde ou segurança. Os ambientes eram apertados, sujos, sem ventilação e com fiação elétrica exposta.

A resposta da empresa foi dada prontamente. Seu compromisso foi o de exigir que as terceirizadas responsáveis pelas subcontratações em questão, solucionassem o problema de imediato. E, de acordo com as informações dadas pela Zara à ONG Repórter Brasil, a empresa também fará uma revisão do trabalho de suas contratadas com o objetivo de evitar novos casos como esses.

É compreensível que uma indústria de porte gigantesco como é a Zara, marca do maior grupo têxtil no planeta (Inditex), tenha fornecedores numerosíssimos; e que a terceirização (e a “quarteirização”) dos serviços dificulte o devido monitoramento de toda a sua cadeia de produção. “Dificulte”, mas não “impossibilite”. As empresas precisam fazer investimentos para sanar e, mais importante ainda, prevenir esse tipo de problema.

Nós, como consumidores, temos a responsabilidade de cobrar. Afinal, quem quer patrocinar desrespeitos tão graves como esses? É uma tarefa muito árdua, ainda estamos começando a conhecer o que está por trás dos produtos que vestimos, calçamos, comemos e tudo o mais. Seja quanto a seus impactos sociais e ambientais, ou seus impactos sobre a nossa própria saúde. Mas é preciso avançar. Coisa que se faz, antes de mais nada, com a pergunta: de onde vem esse produto?

 

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por Elisa A. França

*Jornalista formada pela UFG, especializada em comunicação ambiental, com passagem pelo Greenpeace e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

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