Carolina Pessoni
Goiânia – "Pai amoroso e presente", "profissional exemplar", "ambientalista engajado"… Quando perguntamos sobre Washington Novaes, esses são apenas alguns dos elogios direcionados a ele. Pioneiro no jornalismo ambiental no Brasil, o escritor e colunista do jornal A Redação morreu na última segunda-feira (24/8), em Aparecida de Goiânia, após complicações de uma cirurgia para a regirada de um tumor no intestino.
Nascido em Vargem Grande do Sul, em São Paulo, morava há quase 40 anos em Goiânia. Washington deixou a esposa, Virgínia – com quem iria completar 50 anos de casado em 2020, os filhos Pedro, Marcelo, Guilherme e João, e sete netos. Ícone da causa ambiental, o jornalista deixou órfãos não só seus filhos, mas todos que se inspiram no seu trabalho em defesa do meio ambiente, do Cerrado, da Amazônia e dos povos indígenas.
Seu maior legado talvez seja o ativismo ambiental por meio das séries e documentários que produziu ao longo da vida, como o memorável "Xingu, a Terra Mágica", de 1987, ainda de grande relevância mesmo após mais de 30 anos. Mais que a luta pela causa que norteou sua vida e seu trabalho, Washington deixa outros exemplos, principalmente para quem conviveu tão próximo dele.

Washington Novaes e equipe comemorando o prêmio da série Xingu, na Coreia do Sul (Foto: Acervo da família)
"Ele era um pai mais que perfeito. Trabalhava muito, às vezes ficava muito tempo longe quando estava fazendo os documentários e a gente sentia muita falta, mas ele sempre foi muito presente", lembra o filho João Novaes. Ele, que se inspirou no pai e seguiu carreira no audiovisual, recorda com carinho da convivência em casa. "Ele sempre teve uma relação muito harmoniosa com minha mãe, é um exemplo para mim e meus irmãos de como conduzir a família. Era muito carinhoso", diz.
João afirma ainda que o pai era um modelo de ética e que sempre estimulou e ensinou o valor do trabalho para os filhos. "Nada o corrompia, não tinha brecha para nada. Desde pequeno, ele nos levou para o mundo do trabalho. Ele me ensinou a engraxar sapatos, lavar um carro e depois acabei me tornando arquivista dos trabalhos dele. Por muitos anos, recortava os jornais e guardava tudo bem organizado por data e por tema", diz.
Duas das maiores recordações de João estão ligadas ao trabalho realizado com pai. O diretor de audiovisual conta que em 2001 estava em crise com a faculdade Filosofia que cursava, quando Washington o convidou para participar da produção de uma série de documentários. "Meu pai me falou: 'tranca essa faculdade por um tempo e vem trabalhar comigo'. Resolvi acompanhá-lo e aí fui mordido pelo audiovisual. Percorremos mais de 14 mil quilômetros pela Europa gravando as soluções para o lixo, que já existiam naquela época, para um documentário sobre o tema para a TV Cultura", relata.
Outra lembrança de João é de quando, em 2007, Washington voltou ao Xingu para revisitar as etnias que havia retratado 20 anos antes. Dessa vez com os filhos, o objetivo era mostrar o que mudou e a pressão que os povos indígenas da região sofriam ao longo desse tempo. "Foi um trabalho feito em família que resultou no documentário 'Xingu – a terra ameaçada'. Isso foi muito marcante para todos nós."

Washington Novaes no Xingu (Foto: Marcelo Novaes)
Por retratar e se dedicar à causa do Xingu, Washington construiu uma relação muito próxima com o povo indígena Kuikuro, que tem a maior população na região. "Meu pai construiu um laço familiar muito próximo com os kuikuros, tanto é que eles farão um quarup, que é uma homenagem, para o meu pai no próximo ano", diz.
O quarup é uma grande honra prestada pelos kuikuros aos mortos ilustres, colocando-os no mesmo nível de seus ancestrais. O ritual ocorre em meio a danças, cantos, construção de uma espécie de monumento, competições e outras homenagens. "É uma celebaração muito importante e simbólica para esse povo. Para se ter uma ideia, o outro único homem branco que se tem notícia que recebeu esse tipo de homenagem foi o antropólogo Darcy Ribeiro", explica João.

Washington Novaes em sua casa (Foto: Acervo de família)
Pedro lembra que, então, escolheu cursar Geografia – o que, de certa forma, também o faria estar em contato com o trabalho do pai, porque inevitavelmente o levaria à questão ambiental. "Fiz mestrado em ciência ambiental e trabalhei na área alguns anos, mas por conta da relação com meu pai também sempre tive um pé no documentário. Trabalhei em projetos com ele até o momento em que eu decidi que o que eu queria mesmo era trabalhar com audiovisual", diz.
Legado
Exemplo profissional, parte do legado de Washington está na luta pela causa ambiental. "As lutas do meu pai se tornaram nossas. Estamos desde 2012 tentando colocar um projeto em prática, que é o Museu da Água de Goiás. Mais que um museu, ele será um centro de educação ambiental ao lado da barragem do Parque Altamiro de Moura Pacheco. Essa será a minha maior batalha", diz João Novaes.
O diretor conta que para Washington havia uma lógica no seu ativismo, mas também uma relação que transcendia sua luta pelo meio ambiente. "Ele falava que não devíamos falar em um 'meio ambiente', mas em um ambiente inteiro. Era um lado muito racional e outro profundamente místico dessa relação com a natureza. Ele dizia que todos nós somos 'poeira de estrela', feitos da mesma coisa, da mesma matéria. E é assim que vou lembrar do meu pai, uma força da natureza como um ipê florido, que ele tanto retratou", diz, emocionado.
Grande perda
Personalidades de diversas áreas lamentaram a morte de Washington Novaes. Pelo seu perfil oficial do Instagram, o governador Ronaldo Caiado afirmou que recebeu com "imenso pesar" a notícia do falecimento do jornalista.
"Trata-se de uma grande perda para o jornalismo, meio ambiente, cultura, e toda sociedade. Que suas obras e incalculáveis contribuições deixadas sigam a alcançar cada vez mais pessoas e a transformar realidades", disse na nota.
25 de Ago, 2020 às 5:29 PDT
O prefeito de Goiânia, Iris Rezende, também prestou suas homenagens pelas redes sociais. "O dia de hoje amanheceu triste pela perda um amigo e uma das maiores referências do Brasil na área ambiental", disse na mensagem.
No texto, o prefeito ainda se referiu ao jornalista como uma pessoa que "primou pelo debate de alto nível em outros temas essenciais à sociedade, como a liberdade de imprensa". "Foi na essência um mestre para seus pares. Sinto profundamente essa perda e, em minhas orações, peço a Deus que conforte os corações dos familiares, amigos e também todos os ambientalistas de Goiânia e do mundo", completou.
O ex-governador Marconi Perillo também se manifestou por meio das redes sociais. No Twitter, afirmou que "Goiás e o Brasil estão em luto com a perda do grande brasileiro Washington Novaes". "Um homem que fez história com seu idealismo e levou a cultura indígena do País para o mundo", disse.
Washington Novaes era um homem à frente do seu tempo e que deixa um legado enorme para o Brasil. Sua obra vai seguir viva em nossa memória e vai sempre nos guiar no caminho da humanidade e do respeito ao próximo.
— Marconi Perillo (@marconiperillo) August 25, 2020
Em um post no Twitter, o jornalista ambiental André Trigueiro lamentou a partida de seu "mestre e amigo". Na mensagem, ele afirma que o Brasil perdeu um dos gigantes do jornalismo, o mais importante pioneiro do jornalismo ambiental no País. "Tudo o que eu sou nessa profissão, na área ambiental, eu devo ao exemplo, à contundência e à coragem do mestre Washington Novaes", disse emocionado.
E o Brasil perde um dos gigantes do jornalismo: meu querido mestre e amigo Washington Novaes #gratidao pic.twitter.com/h6ONet5efz
— André Trigueiro (@andretrig) August 25, 2020
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás também manifestou seu pesar pela morte do jornalista. Por meio de nota oficial, a instituição destacou que Washington cursou Direito em São Paulo (foto da formatura ao lado), montou banca de advogado, mas que seu talento era para o jornalismo. "A Diretoria e o Conselho Seccional da Ordem goiana lamentam profundamente a perda do jornalista e rogam a Deus que traga conforto aos familiares e admiradores nesse momento de dor", diz o texto.
Políticos, entidades de defesa do meio ambiente e diversas personalidades também lamentaram a partida de Novaes. O filósofo Leonardo Boff o classificou como "grande documentarista, jornalista, defensor dos povos indígenas e ecologista".
Marina Silva destacou o trabalho do jornalista na área ambiental, ressaltando sua produção sobre o tema. "Se há pessoas que marcaram de maneira especial a trajetória da causa ambiental no Brasil, uma delas é Washington Novaes, que fez da boa informação a sua trincheira e nela foi imbatível e respeitado por todos", disse.
O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) afirmou que a área ambiental perdeu um de seus "grandes aliados". Em nota oficial, o instituto destacou que o "trabalho incansável de divulgação de ideias e alertas aos impactos da degradação ambiental sempre será lembrado, e certamente servirá de inspiração para a atual e futuras gerações."
A carreira
Com 63 anos de jornalismo, Washington Novaes foi repórter, editor, diretor ou colunista em várias das principais publicações brasileiras: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Última Hora, Correio da Manhã, Veja e Visão. Também era ambientalista e bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, turma de 1957.
Na televisão, foi durante sete anos editor-chefe do Globo Repórter e editor do Jornal Nacional, da Rede Globo. Comentarista de telejornais das Redes Bandeirantes e Manchete, além do programa Globo Ecologia. No programa “Globo Repórter” dirigiu documentários como “Amazonas – a pátria da água” e “As crianças do reino do Porantim (roteiros de Thiago de Mello), “A doença dos remédios”, “O conto do vestibular” e “O caso Ângela Diniz”, entre outros.
Como produtor independente de televisão, dirigiu as séries “Xingu – a terra mágica”, “Kuarup”, “Pantanal” e “Xingu – a terra ameaçada”. Ganhou vários prêmios internacionais e nacionais de jornalismo e televisão, entre eles medalhas de ouro e prata em festivais mundiais de televisão em Nova York, Havana, Seul e Portugal, o Prêmio de Jornalismo Rei de Espanha, o prêmio do Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental de Serra da Estrela (Portugal), o troféu Golfinho de Ouro e o Prêmio Esso Especial de Meio Ambiente. Ganhou também o Prêmio Unesco de Meio Ambiente 2004 e o Prêmio Prof. Azevedo Netto 2004, conferido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental.

(Foto: Acervo da família)
Foi Secretário de Meio Ambiente Ciência e Tecnologia do Governo do Distrito Federal nos anos de 1991 e 1992. Teve vários livros publicados, entre eles “Xingu” (Brasiliense), “A quem pertence a informação” (Vozes) , “A Terra pede água” (Sematec/BSB) e “A Década do Impasse” (Editora Estação Liberdade). Participa de vários livros com outros autores.
Foi consultor do “Primeiro Relatório Brasileiro para a Convenção da Diversidade Biológica”, dos “Relatórios sobre Desenvolvimento Humano” da ONU, de 1996 a 1998, sistematizador da “Agenda 21 Brasileira – Bases para a Discussão”.
Foi colunista dos jornais “O Estado de S. Paulo” e “O Popular”. Na TV Cultura de São Paulo foi consultor, supervisor e comentarista do programa “Repórter Eco”. Atualmente está produzindo, junto com a Globo Filmes e a GloboNews, o documentário e série “Desafio limpo”, que aborda a importância das energias renováveis no combate às mudanças climáticas.
Desde junho, Novaes assinava a coluna ‘Ambientes Urbanos’, no jornal A Redação, que reúne artigos e podcasts sobre diversos temas ambientais capazes de tornar as cidades do século XXI mais sustentáveis. Clique aqui e leia os textos.