Voluntariado que transforma
Por Telma Sobolh presidente do Voluntariado Einstein Hospital Israelita
Há mais de quatro décadas atuando com o trabalho voluntário, tive o privilégio de acompanhar a evolução da saúde brasileira e, ao mesmo tempo, constatar que um dos elementos mais importantes do cuidado continua sendo o mesmo: a capacidade de acolher pessoas. A ciência, a tecnologia e a qualificação das equipes transformaram a assistência em saúde, mas nenhuma inovação substitui a força de um olhar atento, de uma escuta verdadeira ou da presença de alguém disposto a caminhar ao lado de quem enfrenta um momento de vulnerabilidade.
Essa convicção ajuda a explicar por que acredito que o voluntariado ocupa um papel cada vez mais relevante na construção de um sistema de saúde mais humano. Não se trata apenas de solidariedade. Trata-se de uma atuação estruturada, preparada e responsável, que complementa o trabalho das equipes assistenciais e fortalece a relação entre as instituições de saúde e a sociedade.
Ao longo dos anos à frente do Voluntariado Einstein, vi nossa iniciativa deixar de ser compreendida apenas como um gesto de boa vontade para se consolidar como uma ferramenta de transformação social. Quando organizado, o trabalho voluntário amplia o acesso à informação, fortalece ações de promoção da saúde, aproxima comunidades dos serviços e contribui para reduzir barreiras que vão muito além das questões clínicas.
Estamos falando de relações humanas. Pacientes e familiares encontram acolhimento em momentos de incerteza. As instituições fortalecem sua capacidade de cuidar de forma integral. E os próprios voluntários descobrem que doar tempo também significa ampliar o olhar sobre o outro e sobre si mesmos. Poucas experiências têm um potencial tão grande de transformar quem recebe e quem oferece ajuda.
Essa percepção não nasce apenas da experiência. Ela também é confirmada por resultados. Pesquisas realizadas pelo Voluntariado Einstein mostram que mais de 90% dos pacientes de São Paulo e Goiânia consideram a atuação dos voluntários um diferencial da organização. O reconhecimento demonstra que a humanização do cuidado não é um conceito abstrato, mas uma experiência concreta para quem vive o ambiente hospitalar.
Também não é por acaso que iniciativas estruturadas de voluntariado vêm sendo reconhecidas como importantes aliadas da saúde pública. Ao promover educação em saúde, apoiar campanhas de prevenção, fortalecer redes comunitárias e estimular a participação cidadã, o voluntariado amplia o alcance das políticas públicas sem substituir o papel do Estado ou dos profissionais de saúde. Soma esforços, conecta pessoas e fortalece soluções coletivas.
Talvez o maior aprendizado desses mais de 40 anos seja compreender que o voluntariado não transforma apenas realidades individuais. Ele fortalece uma cultura de corresponsabilidade, mostrando que a construção de uma sociedade mais saudável depende do envolvimento de todos nós. Quanto mais instituições, empresas e cidadãos compreenderem essa força, maiores serão as possibilidades de construir uma saúde verdadeiramente humanizada, acessível e comprometida com as pessoas.
*Telma Sobolh é presidente do Voluntariado Einstein Hospital Israelita
