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Você não é melhor porque não gosta de sertanejo

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09.04.2015 - 11:41:19
 

Goiânia – Há mais ou menos cinco anos escrevi um texto com esse mesmo título e enfoque para um blog que mantinha com um grupo de colegas jornalistas – o Blog da Lista, que Deus o tenha. Hoje, muitas luas depois, resolvi voltar ao tema por perceber que o preconceito sociomusical ainda é uma realidade praticamente inalterada.

Acredito que para quem vive em regiões do país onde o sertanejo está enraizado na história local, como Goiás e o interior de São Paulo, por exemplo, respeitar essa vertente é exercício limitado aos apreciadores desse estilo. É como se existisse uma espécie de movimento separatista, uma linha divisória precisamente delimitada que aparta o universo sertanejo de todos os demais.

De todos os demais, sim. Sejamos honestos. A galera do pop respeita a da MPB, que por sua vez tolera a do rock, que suporta até mesmo os adeptos do brega. Inclusive os convidando para festivais alternativos, como já foi o caso do Vaca Amarela, em 2011, com o cantor Falcão entre as atrações principais; ou do Festival Bananada, por tantas vezes promovendo o tecnobrega da Banda Uó. Até mesmo o funk pancadão ganha respeitabilidade do segmento indie, exemplificada na constante presença do grupo Bonde do Rolê em casas noturnas alternativas daqui de Goiânia. Menos o sertanejo. Reparem.

O sertanejo é o filho pródigo da música. É aquele parente renegado pela família, a ovelha negra do pasto. “Baby, baby, não adianta chamar quando alguém está perdido…”. Lixo cultural. Deixem-no lá, bem longe, quietinho naquele canto. Fiquemos aqui, convencendo-nos da vã existência da criança. Inútil fruto concebido pela parcela de intelecto questionável da sociedade.

Pensam assim vários líderes de segmentos musicais. E quando não se declaram abertamente contrários ao estilo destoante, atestam o preconceito em piadas infames e corriqueiras. Reparem (parte 2). É assim que funciona. A questão é que o maior problema não é a opinião isolada dessas pessoas. É o raio de adesão que o julgamento atinge na rede de relacionamento que elas mantêm. A força que a semente ganha para desabrochar no círculo vicioso da intolerância e na difusão desmedida de pensamento discriminatório desses pequenos grandes mundinhos (nem tão) segmentados.

Intolerância gera intolerância e o chavão está mais que correto. Prega-se por aí o combate à homofobia, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, almeja-se o tão sonhado fim do racismo, mas por hora nos abstemos de duelar contra os pequenos preconceitos que nos cercam em todo santo lugar desse mundão. E a intolerância musical é também um tipo de preconceito. Que nos entrega a falsa crença de superioridade, quando deveríamos perceber que nada mais fazemos do que vestir a carapuça de nossa pequenez evolutiva.

Não vou generalizar, mas já cansei de ver fiéis convictos da doutrina antisertaneja cantando repertórios inteiros do Leandro e Leonardo, após algumas doses de qualquer desinibidor alcoólico. E olhe lá os que não se emocionam, ajoelham-se e choram inebriados por comoção momentânea. Pois é. Para os mais reprimidos, deixo uma recomendação: cantar sertanejo, às vezes, é libertador. Desarma o espírito e transcende paradigmas. Vá por mim, faça isso de vez em quando. Mas não sempre, que é para não desrespeitar seu equilíbrio mental. Seria o mesmo que obrigar uma concertista a escutar Gaiola das Popozudas toda noite. Deixa de ser saudável.

Pessoalmente, não curto sertanejo. Afora clássicos do Chitãozinho & Xororó ou do Chrystian & Ralf, que me ajudam a atingir o mais alto grau de fossa quando nela preciso estar, não vejo graça ou beleza na nova geração do aclamado sertanejo universitário. Mas nem por isso eu me acho melhor do que quem curte esse estilo musical. Nem por isso eu empino meu nariz, levanto o queixo, solto aquele suspiro depreciativo e me deixo ser invadida pelo sentimento de superioridade intelectual. Eu não ouço, não me aprazo com isso, mas respeito quem gosta.

Por coincidência, ou não, da vida, abri há uns dias um email, desses esotéricos de autoajuda, e entre tantas previsões psicológicas, análises da energia cíclica mensal e pacotes financeiros promocionais, uma frase me chamou a atenção. “A cada um, seu gosto lhe parece o melhor do mundo”. Sábio conselho, que aqui compartilho. Deveríamos todos aproveitar, que é gratuito.

Um adendo: abra o YouTube, procure por: Evidências + Chitãozinho + Xororó + Sinfônico 40 anos. Depois me diga aqui se você não cantou essa música inteira. 😉
 

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por Sarah Mohn

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