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Vira-lata com orgulho!

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04.11.2011 - 19:58:47

Eu sou a Nádia Junqueira Ribeiro, brasileira, goiana. O Ribeiro vem do meu pai, goiano, de Morrinhos. O pai dele, vovô João, um moreno baixo, a gente não sabe a descendência, mas desconfiamos que seja de origem portuguesa e indígena. A vovó Diomar é uma princesa! Alta, loira, de olhos azuis. Linda até hoje. Também não sabemos a descendência, mas desconfiamos que seja espanhola.

O Junqueira vem da minha mãe, paulista de Oswaldo Cruz. Você deve conhecer um Junqueira. Rico, provavelmente. Não é meu caso e nem da minha família. A gente é Junqueira da senzala e não da casa grande. Um historiador que escreveu a história da família descobriu para gente por que raios somos Junqueira e pobres. Um senhorzinho, dono de engenho, fez uma filha em uma das escravas da fazenda. A ela, deu um sobrenome somente. Essa mulata a quem agradeço minha negritude, ainda que não fenótipa. O seu neto, meu avô, Seu Junqueira. Um mulato daqueles que todo mundo gosta. Tocava violino de ouvido e fez questão de toda família ter gosto pela música.

E o negão se casou com uma baixinha invocada italianinha. Vó Cida é filha de italianos, imigrantes que vieram trabalhar em lavouras de café em São Paulo. Minha bisa, lembro da minha mãe dizer que se chama Angelina Pagion Rosseto. Isso tudo para dizer que sou uma vira lata de primeira. Sempre achei uma riqueza essa mistura toda: tanto na beleza quanto culturalmente. Na minha família e em todos nós brasileiros. Mas aqui, meus caros, sou vira-lata mesmo.  

Antes dos próximos parágrafos, uns dizeres para não ser injusta. Primeiramente, há muita boa gente por essas terras de cá, que nos tratam bem, gostam de brasileiros e eu também gosto muito. Segundo, estou numa cidade de interior e disso decorre uma mentalidade um pouco retrógrada. Bem, mas vamos lá. Antes mesmo de vir para cá fiquei sabendo to tal episódio das mães de Bragança. Havia muitas prostitutas brasileiras por aqui. E daí que os maridos começaram a se divorciar de suas esposas, envolvidos com as tais. Eis que as mães de Bragança vão à imprensa, fazem um auê e conseguem expulsar essas mulheres daqui e fechar as casas de prostituição. Quando isso? Há cinco anos.

Podem imaginar o que significa eu abrir minha boca e denunciar minha origem, não é? Há muito preconceito conosco por aqui. As outras onze brasileiras que moram comigo compartilham desse sentimento. É tititi na sala de aula entre os colegas, um clima de hostilidade e muita cara torta. Assisto a aulas com turmas diferentes e, somente em uma, sou bem recebida, tanto pela professora quanto colegas. Essa coisa de quererem saber do Brasil, das minhas experiências e me fazer bemvinda. Aliás, algo que brasileiros fazem demais quando percebem intercambistas em sala.

Nas outras turmas, sou simplesmente ignorada. Não é estranho, depois de seis aulas eu nunca ter ouvido bom dia de ninguém? Nem “qual seu nome”? Quando me vejo, entro e saio da aula de cabeça baixa. Sou a última a assinar a lista, para ninguém me reparar. E evito responder qualquer pergunta, ainda que saiba a resposta enquanto todos se calam. Confesso, saio um pouco triste das aulas. Mas aí vou almoçar com minha turma brasileira e alegria está de volta.

Segunda passada, eu e umas amigas estávamos na porta de um pub onde havia festa de Halloween, quando uns portugueses perceberam que éramos brasileiras e não sei como começou a conversa que contou com esse infeliz diálogo:
– As portuguesas são muito boas! São ótimas! Mas vocês, brasileiras, são melhores em alguns aspectos.
– Ah, sim? E quais?
– Vossas bundas são melhores.

A parte mais nobre da minha resposta foi que era deprimente ver jovens em século XXI com a mesma cabeça dos colonizadores e outras coisas mal educadas que não vou contar, mas fui embora satisfeita. Mas ofendida, claro. Quem quer ser conhecida pela sua bunda? É uma sensação muito ruim: o que ele sabe de mim? Da minha história? Sensação de falta de respeito mesmo de todas as formas. Felizmente, até agora isso foi o que ouvi, diretamente, de pior por aqui. Mas há mais histórias tristes que as demais brasileiras me contaram.

Uma amiga mineira, que chegou também em setembro, teve uma experiência, no mínimo, ignorante, uma vez que o Brasil é um dos países que está salvando esse continente da crise. Ela cursa arquitetura e durante uma aula, ela e os colegas estavam fazendo estruturas com massa de macarrão. Ao fim da aula, ao recolher o material que tinha sobrado, um colega deixou macarrões em sua mesa. “Toma, que lá no seu país as pessoas passam fome”. Desse pensamento pequeno, tem mais casos. Minha amiga com quem divido quarto, na aula, disse que no Brasil usamos mais calculadora que Excel e sua professora respondeu. “É porque é país subdesenvolvido”.

Uma que fiquei revoltada e sem reação ouvi esses dias em Porto. Estava na rua com amigos espanhóis quando umas portuguesas, amigas deles, chegaram perguntando porque não tinham ido ao jantar da noite passada. “Não fui convidado”, respondeu um deles. “Sabe como chamamos aqui quem nunca é convidado para as festas? Filho de preto”, respondeu a portuguesa. E por aí segue. Outra amiga baiana, que está aqui desde fevereiro já foi chamada na rua, por colegas, de puta e também de porca. Noutro dia, estava indo para o estágio quando chamaram sua atenção na rua e ela não correspondeu. “Olha, parece uma macaca”, gritou o rapaz.

Essa experiência, que nunca tinha vivido, me fez perceber porque sempre foi legal o fato de ser brasileira quando viajei para fora. É a primeira vez que piso em chão de colonizador, e não colonizados. Minhas experiências, até então, tinham sido com Nova Zelândia, África do Sul e Chile. E aí, percebi, que de certa forma somos iguais e por isso, mais respeitados. Só me resta desejar menos ignorância a esse povo. E que algum dia na vida descubram a riqueza de um ser vira-lata.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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