João Gabriel de Freitas
Enfaixada na altura da cintura e nos braços, Kátia Maria Dias Goulart, 51 anos, um dos três sobreviventes do incêndio que consumiu o apartamento 1.203 do Edifício Aldeia do Oeste, na avenida G, do Setor Oeste, contou na tarde desta sexta-feira detalhes da madrugada de horror vivenciada por ela, o marido, a filha e o genro. Internada no Hospital de Queimaduras junto com o marido João de Oliveira Goulart, de 49 anos, Kátia sofreu queimaduras de primeiro e segundo grau na parte superior do corpo, mas conversa normalmente.
Para familiares e vizinhos de edifício, que acompanharam a agonia da família, ela contou como foi as horas de pânico desde que acordou na madrugada de quinta-feira. Kátia disse que levantou cedo, para ir ao banheiro da suite do quarto dela e do marido. Momentos depois escutou um barulho forte vindo do quarto vizinho, onde dormiam a filha, Muniki Dias Goulart, de 25 anos, e o genro Eduardo Augusto de Araújo Silveira, 32 anos. Na hora, ela pensou ser o genro e preferiu não incomodar o casal. No etanto, minutos depois, escutou gritos de Eduardo: “Ó o fogo! Ó o fogo!”.
As chamas já tomavam conta da sala do apartamento e os quatro moradores se juntaram no quarto de João de Oliveira e de Kátia. Conforme contou, Eduardo estava desesperado e chamou a todos para pular pela janela. “Ela disse que nem deu tempo de convencê-lo e o genro pulou em seguida pela janela”, disse a vizinha Andrea Silva Pereira, que visitou Kátia na tarde desta terça-feira. Muniki também estava determinada a pular, mas foi contida inicialmente pela mãe. Kátia a segurou pelo braço, enquanto Muniki ficou com apenas uma perna para fora da janela. “Ela disse que aos poucos foi perdendo as forças e a pele dos braços pareciam derreter com o calor”, contou Andreia. “Quando estava já sem forças, ela virou para a filha e disse: ‘Pode pular minha filha, pode pular. Deus vai estar junto com você’”, contou a vizinha.
Muniki ainda se pendurou alguns minutos na janela, antes de despencar e atingir o teto de zinco do mezanino, que amorteceu a queda. Depois de Muniki cair, o pai dela, João Goulart, tentou chamar por socorro. Saiu do quarto e encarou as chamas da sala, em uma temperatura que chegou próxima a 800 graus. Se deparou com a porta de entrada fechada e sem as chaves. Conseguiu chegar até a cozinha, onde foi salvo por outra vizinha, Teresinha Francilina Barros, de 76 anos, que o puxou pela janela para o apartamento ao lado.
Sozinha no quarto, a espera de ajuda, Kátia contou que se enrolou em um edredon e que provavelmente perdeu a consciência alguns minutos até a chegada dos Bombeiros, devido a fumaça.
Inconformados, moradores do prédio reclamam que eles próprios foram avisando uns aos outros para deixarem o local. Não receberam nenhum chamado da portaria e nem do alarme de incêndio, que não foi acionado.
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