São Paulo – Quase uma semana depois da captura de Nicolás Maduro em uma operação militar americana em Caracas, o governo da Venezuela anunciou nesta sexta-feira (9/1) a retomada dos contatos diplomáticos diretos com os EUA, pontuando que o objetivo é “restabelecer as missões diplomáticas em ambos os países”.
Em um comunicado cuidadoso, feito para equilibrar a leitura do anúncio tanto dentro quanto fora do país, o governo afirma que o restabelecimento das embaixadas tem o “propósito de abordar as consequências da agressão e do sequestro do presidente e da primeira-dama [Cilia Flores], assim como abordar uma agenda de trabalho de interesse mútuo”. Na prática, o anúncio é a base para a normalização das relações diplomáticas entre os dois países, quase 16 anos depois de os EUA retirarem seu embaixador de Caracas e quase sete anos desde o rompimento oficial dos laços diplomáticos.
‘Gesto de paz unilateral’
O anúncio foi feito após o Departamento de Estado afirmar que uma equipe da Unidade de Assuntos da Venezuela, sediada na Colômbia, incluindo o encarregado de negócios John T. McNamara, chegou a Caracas para “conduzir uma análise inicial para um potencial reinício de operações no país”, afirmou um funcionário.
Diplomata de carreira, McNamara é visto como um possível nome para assumir o posto de embaixador em Caracas. O governo venezuelano confirmou a chegada da delegação no comunicado e acrescentou que uma equipe diplomática da Venezuela também será enviada a Washington. Citando fontes americanas que falaram sob condição de anonimato, o jornal espanhol ABC afirmou que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, teria solicitado ser recebida na Casa Branca na próxima terça-feira.
Antes de fazer o anúncio relativo aos EUA, o comunicado venezuelano reitera a denúncia de que o país foi vítima de uma “agressão criminosa, ilegítima e ilegal contra seu território e seu povo”, que deixou mais de 100 mortos — incluindo 32 militares cubanos e 23 venezuelanos —, “em flagrante violação do direito internacional”. Também classifica que a captura de Maduro e de Cilia como “uma grave violação da imunidade pessoal dos chefes de Estado”.
Nesse contexto, diz, o plano de normalização segue a determinação de Delcy de abordar a agressão americana pelos canais diplomáticos, com a convicção de que a “Diplomacia Bolivariana de Paz é o caminho legítimo para defender a soberania, restaurar o direito internacional e preservar a paz”, diz o comunicado.
Sinal verde
Uma fonte americana disse à AFP que os Estados Unidos ainda não tomaram uma decisão formal sobre a reabertura da embaixada, mas que estão se preparando para fazê-lo assim que Trump der o sinal verde. Um jornalista da AFP testemunhou um comboio de SUVs saindo da embaixada em Caracas, que foi fechada pouco depois de Washington se recusar a reconhecer a primeira reeleição de Maduro, em 2018.
Esta visita representa a primeira entrada de pessoal diplomático oficial dos EUA em Caracas desde o rompimento de relações. Em 12 de março de 2019, os Estados Unidos suspenderam as operações da embaixada em Caracas. Em 28 de agosto do mesmo ano, o Departamento de Estado anunciou a abertura da Unidade de Assuntos da Venezuela, localizada na Embaixada dos EUA em Bogotá, capital da Colômbia.
Várias agências internacionais noticiaram a chegada do avião do Departamento de Estado ao aeroporto de Maiquetía. Até o momento, no entanto, não há expectativa de que sejam realizados encontros entre os diplomatas americanos e membros do governo interino durante esta visita. As discussões sobre reuniões futuras continuam, mas permanecem em fase preliminar.
Chavismo também quer ir a Washington
Segundo o jornal espanhol ABC, o pedido de Delcy para viajar a Washington já foi recebido por vários escritórios do governo federal americano e está sob análise, ainda sem confirmação oficial de reuniões ou uma decisão fechada sobre sua agenda.
Como Delcy está sujeita a sanções americanas por violações de direitos humanos, qualquer viagem aos EUA exigiria uma licença específica ou uma isenção temporária do Departamento do Tesouro, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), sem a qual a entrada da presidente interina nos EUA seria impossível. Fontes enfatizaram ao periódico espanhol que a abertura do processo de análise não implica aprovação automática. Em casos semelhantes, Washington avaliou não apenas os aspectos legais, mas também o contexto político, a conjuntura diplomática e as implicações internas de autorizar ou negar a visita, esclareceu.
Relação diplomática
De acordo com as mesmas fontes, Delcy espera ser recebida tanto na Casa Branca quanto pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo elas, a líder chavista teria usado as condições exigidas por Rubio nos últimos dias — cooperação em matéria migratória, sinais de abertura política e compromissos verificáveis no âmbito institucional, além da entrega do setor do petróleo — como base para efetuar o pedido. Apesar disso, o governo americano não ofereceu garantias de interlocução a Delcy.
A notícia foi divulgada um dia após Trump indicar que pode se reunir com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, na próxima semana na capital americana, após escanteá-la de uma eventual transição ao poder a partir da prisão de Maduro pelos. María Corina tentou se aproximar de Trump e, no início desta semana, ofereceu-lhe o Prêmio Nobel da Paz que recebeu no ano passado, algo que o republicano ambiciona há muito tempo. Se ambas as agendas forem confirmadas, Delcy e María Corina estariam na capital americana ao mesmo tempo, um fato sem precedentes recentes e politicamente sensível. (Agência Estado)
