Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – Um dos goianos que mais se destacaram em nível nacional, Domingos Netto de Vellasco, que nasceu na antiga Vila Boa em 1899, ocupou diversas funções públicas de relevância: parlamentar em duas Assembleias Nacionais Constituintes (1934 e 1946) — único político goiano a ostentar essa dupla participação —, Senador da República, Deputado Federal — eleito por dois Estados (Goiás e Rio de Janeiro) —, Ministro togado do Tribunal Superior do Trabalho, Secretário de Segurança Pública de Goiás, entre outras. “Em síntese, exerceu cargos de expressão nos três poderes e cumpriu uma jornada de escol”, como ressaltou o historiador Jales Guedes Coelho Mendonça, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), ao falar no relançamento, na manhã desta sexta-feira, dia 10, no auditório Augusto da Paixão Fleury Curado, do livro “Nova China”, originalmente publicado em 1960 e que mereceu nova edição por iniciativa da Fundação João Mangabeira, que a incluiu em sua coleção ‘Equidade é liberdade’.
Durante a infância, vivida integralmente na antiga capital de Goiás, Domingos Vellasco absorveu os ensinamentos do frei Henrique d’Abadie, dominicano francês que influenciou poderosamente sua concepção de mundo. Nasceu daí a base de seu cristianismo social — título de um de seus livros. “A origem do socialismo estava na bíblia, nas palavras de Jesus”, costumava repetir à neta Ana Maria. Outro parente, Alarico Vellasco, conta que seus santos preferidos — São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis e Santo Agostinho — eram também seus mestres, tanto que uma máxima supostamente atribuída ao último traduzia sua norma de ação, como católico: “Nas coisas certas, unidade de pensamento; nas coisas discutíveis, inteira liberdade. E em tudo a caridade”. Jales Mendonça publicou um ensaio sobre o parlamentar, “Domingos Vellasco: Herdeiro de Bulhões na política e antagonista de Prestes na esquerda”, no “Jornal Opção”.
Domingos Netto de Vellasco, que faleceu em 1973, foi o primeiro Senador socialista da América Latina, participou do movimento tenentista, da Revolução de 1930 e da Revolução Constitucionalista de 1932; eleito Deputado Constituinte em 1933, foi preso em 1936 por apoiar a Aliança Nacional Libertadora. Fundou a União Democrática Nacional (UDN), que presidiu em Goiás, e o Partido Socialista Brasileiro (PSB); atuou na Constituinte de 1946 e, como Senador, liderou a campanha ‘O petróleo é nosso’. Nomeado ministro do TST em 1961, teve os direitos políticos cassados pelo AI-5 em 1968.
A obra documenta três viagens à China entre 1956 e 1959, no auge do Grande Salto para Frente. O autor transita da crônica de costumes (a cozinha cantonesa, a abolição do riquixá) à análise de dados agrícolas e industriais, confrontando a fome do passado com as estatísticas de produção do presente. “Vellasco não esconde a admiração pelo regime, mas esta é ancorada por visitas a cooperativas, as comunas populares e por conversas com bispos católicos e líderes muçulmanos que atestavam liberdade religiosa. Ao narrar a transformação da terra em propriedade coletiva e a emancipação feminina pelas leis do casamento, o autor provoca o leitor a suspender a lente ocidental e a encarar a Revolução Chinesa como experiência histórica concreta, não como a caricatura ideológica”, afirmou o professor Einstein Paniago, coordenador-geral da Fundação João Mangabeira em Goiás.
Dois livros de Domingos Vellasco, ambos editados pela Fundação João Mangabeira, entidade que promove a formação política e a formulação de políticas públicas para o PSB, foram distribuídos gratuitamente aos presentes: “Nova China”, segunda edição; e “Rumos políticos”.
Processos históricos
A republicação do livro resgata “uma obra que é, ao mesmo tempo, testemunho pessoal e documento histórico”, ressaltou o professor Einstein Paniago. “Ela nos coloca diante de um momento decisivo da história mundial: os primeiros anos da República Popular da China, quando um país marcado por séculos de fome e humilhação iniciava uma transformação profunda em sua economia, sociedade e cultura”.
O texto de Vellasco “combina o olhar literário – atento às cores, aos sabores e às impressões humanas – com a precisão de quem busca compreender os processos históricos em curso. Ele descreve o encanto de um jantar em Cantão com a mesma seriedade com que analisa o aumento da produção agrícola ou a formação dessas cooperativas. Essa fusão entre narrativa sensível e análise rigorosa confere ao livro uma força singular, pois é memória viva e reflexão crítica”.
Ao registrar a melhora de vários indicadores socioeconômicos chineses, Vellasco não apenas informa, mas antecipa o que viria a ser a marca da trajetória do país após a Revolução de 1949: a capacidade de mobilizar o trabalho coletivo para superar desafios históricos. “Seus prognósticos, à época visionários, mostraram-se certeiros. A China que ele descreveu como uma Nação que havia liquidado a fome e despertado para a dignidade tornou-se, décadas depois, protagonista incontornável do cenário global”, afirmou.
Discursou também o representante do Partido Socialista Brasileiro, Domingos Leonelli Netto, que foi Secretário Estadual de Turismo da Bahia; Deputado Estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (1979-1983); Deputado Federal pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (1983 -1991) e Deputado Federal pelo Partido da Social Democracia Brasileira (1995-1999).
