Carla Lacerda
Goiânia – Com o anúncio de que a imunização contra a covid-19, em Goiás, tem agora novo grupo prioritário – pessoas com comorbidades -, pais de autistas reclamam da exclusão da categoria do formulário disponibilizado pela Secretaria de Estado da Saúde (SES) nos postos de vacinação.
A dona de casa Marlene Gomes, de 68 anos, é mãe de Leandro, 35, que tem um grau intermediário de autismo, uma condição neurológica que afeta a comunicação e o comportamento social dos indivíduos. Ela conta que, desde o diagnóstico, precisou abandonar a carreira no Direito para cuidar do filho. “Estou muito injuriada, me sinto injustiçada até, porque incluíram as pessoas com síndrome de Down na vacinação e os autistas não”, desabafa.
Ela destaca que, assim como Leandro, muitas pessoas que estão dentro do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) – nome oficial da síndrome – não conseguem realizar sozinhas atividades de vida diária, como a assepsia das mãos, e precisam ser monitoradas constantemente pelos familiares.
“O Leandro pega comida do chão e leva à boca”, exemplifica, ao citar ainda que, apesar de verbal, o jovem adulto não consegue apontar quando sente dor. “Ele tem as ecolalias [repetição de palavras ouvidas anteriormente de forma disfuncional], mas não dá conta de expressar sentimentos, dor, etc.. Se, por exemplo, ele perder o olfato [um dos sintomas da covid], não tem como sabermos”, complementa.
Na esperança de conseguir imunizar o filho, mesmo com os autistas fora da lista prioritária de comorbidades divulgada pela SES-GO, dona Marlene levou Leandro nesta quarta-feira (5/5) ao posto de saúde da Cidade Jardim. “A mulher que me atendeu disse que as pessoas com Down são ‘mais doentes’ e vivem menos do que quem tem TEA”, afirmou ao sair do local, sem conseguir proteger Leandro contra a covid-19.
“Sabe, eu estava esperançosa de que meu filho fosse vacinado, porque vi entrevistas em que o governador e o secretário [de Saúde, Ismael Alexandrino] falaram que os autistas estariam no grupo de comorbidades”, lamenta.
Por meio de nota, a SES informou que realmente as autoridades em Goiás falaram sobre a inclusão dos autistas na lista, mas a atualização do Plano Nacional de Imunização (PNI), do governo federal, não trouxe esse item.