Théo Mariano
Goiânia – A vacinação contra a covid-19 é realidade em Goiás. As 183 mil doses recebidas pelo Estado, porém, não foram suficientes para cobrir a imunização de grupos classificados como prioritários nos Planos
Nacional e
Estadual de Imunização. Um deles é a comunidade quilombola que, segundo documento divulgado pela Secretaria do Estado de Saúde (SES-GO), possui pouco mais de 20 mil pessoas no território goiano. “A vacina é uma garantia de sobrevivência para nossa comunidade”, relatou Lucilene Santos, membro da Associação do Quilombo Kalunga (AQK) e apoiadora do movimento quilombola, em entrevista ao jornal
A Redação nesta terça-feira (19/1).
O presidente da Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE), Adriano Paulino, afirmou estar “triste” com a notícia de que os povos tradicionais quilombolas foram deixados de fora da primeira etapa. “A Chapada dos Veadeiros está aberta para alguns atrativos, mas seguimos fechados [a comunidade]. O turismo é o carro-chefe do local, e estávamos esperançosos com a priorização na vacina, porque o setor foi afetado”, acrescentou em conversa com o AR.
De acordo com o líder comunitário, o turismo representa cerca de 70% da economia quilombola no território Kalunga. “Estamos na expectativa para que entremos neste grupo prioritário. Estamos assombrados com o vírus”, comentou. Paulino ainda adiantou o planejamento de retomar as atividades turísticas em março, mesmo em caso da comunidade não receber o imunizante.
Segundo Lucilene Santos, há cerca de 3 mil moradores no quilombo Kalunga, o maior território quilombola do país, localizado no município de Cavalcante. “Esperávamos ser listados no grupo prioritário da vacinação, principalmente porque a economia local depende muito do turismo, que foi bastante afetado com a pandemia do novo coronavírus”, desabafou.
Para a associada da AQK, o difícil acesso à saúde também se torna um desafio para os membros da comunidade, ainda mais em casos de emergências na saúde. Lucilene acrescentou que a distância até as unidades de saúde com o atendimento necessário pode variar de 500 a 600 quilômetros. “Muitos [quilombolas] vivem em zonas rurais. Se alguém adoecer, existirá grande dificuldade para conseguir vagas em leitos de UTI e enfermarias”, relatou.
De acordo com a Fundação Palmares,
há 58 comunidades quilombolas registradas em Goiás. No Plano Nacional de Imunização, divulgado pelo Ministério da Saúde (MS), tanto os povos de quilombos e indígenas são listados como grupos prioritários para a vacinação contra a covid-19. Na prática, entretanto, somente os indígenas aldeados, cerca de 300 pessoas no estado, foram incluídas na primeira etapa da imunização com a dose da CoronaVac, vacina fabricada pela farmacêutica chinesa Sinovac e o Instituto Butantan.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO), o Plano Estadual de Imunização, feito com base no plano nacional, apresenta um cronograma preliminar de vacinação. “Para este primeiro momento, foram definidos grupos expostos diretamente ao vírus, como trabalhadores da linha de frente [do combate à covid-19], ou que residem em locais onde a transmissão do vírus seja rápida”, diz nota da pasta enviada ao AR.
Na primeira fase em Goiás, foram escolhidos como prioritários os idosos e pessoas com deficiência que estejam em instituições de longa permanência, indígenas aldeados e profissionais da saúde que estejam atuando na linha de frente do combate à covid-19. O total de vacinas recebidas é o bastante para vacinar 91,5 mil pessoas no estado, considerando a aplicação das duas doses.
Em nota enviada ao AR, Ministério da Saúde (MS) confirmou que os quilombolas "estão contemplados" na campanha nacional de vacinação contra a covid-19. "Entretanto, como o quantitativo recebido até o momento – 6 milhões de doses -, houve a necessidade de um replanejamento dentro das prioridades elencadas inicialmente", justificou a pasta.
Segundo o MS, houve um recorte no público priorizado pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação. A pasta afirma que foram levadas em consideração "pessoas que teriam maior risco de internação e óbito, bem como o quantitativo de vacina disponibilizado inicialmente". Ainda no texto, a Saúde ressalta que "particularidades regionais" deverão ser discutidas entre estados e municípios.
O jornal A Redação questionou o MS sobre haver ou não alguma previsão de incluir os quilombolas nos grupos escolhidos para vacinação, mas a pasta não respondeu.
O AR também fez o mesmo questionamento à SES-GO, que igualmente não se manifestou. O espaço permanece aberto.