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Thaís Sena, Henrique Tibúrcio, Mariana Maranhão e Eduardo Júnior (Foto: divulgação)

Uso de IA ganha força entre advogados

Economia de tempo é citada como principal benefício

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14.08.2026 - 11:44:18

José Abrão

Goiânia – Parece que foi ontem: o ChatGPT, o primeiro grande modelo de linguagem disponível para o grande público, foi lançado em novembro de 2022. Acessível e em formato de chat, bastava enviar sua demanda para ver os resultados. De lá para cá, as tecnologias de inteligência artificial similares a ele se expandiram para diversos campos, funcionalidades e especialidades e já fazem parte da realidade cotidiana de diversas profissões. Entre elas, está a advocacia.

Segundo dados do Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026, feito em parceria pelas seções de Goiás, Paraná, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Espírito Santo, junto com a Trybe, Jusbrasil e ITS Rio, cerca de 77% dos profissionais da área do Direito no Brasil utilizam frequentemente ferramentas de IA no trabalho. Isso significaria o uso por três a cada quatro advogados.

O relatório identificou que 84% dos profissionais que adotaram a IA tiveram suas expectativas atendidas ou superadas e disseram ter economizado tempo com a adoção dos programas, enquanto outros 91% perceberam melhorias na qualidade técnica do trabalho final. Além disso, o levantamento mostrou que cerca de 34% dos escritórios jurídicos já possuem um orçamento dedicado à contratação de ferramentas de IA ou à capacitação dos profissionais no uso dessas ferramentas.

Um ponto destacado por todos os profissionais entrevistados foi a economia de tempo. Advogada especialista em Direito Agrário e Empresarial, Thaís Sena relata que a IA é um assunto muito novo, que desperta muita curiosidade, mas também desconforto para quem não está familiarizado com ela. No seu cotidiano, ela relata que a IA a tem auxiliado a buscar informações, a organizar ideias, a revisar textos e a fazer pesquisas. Os processos geralmente são volumosos e a tecnologia dá um suporte importante na análise de um grande volume de dados. “A IA é muito útil na advocacia porque lidamos diariamente com esse grande volume de informação. A IA também permite ganhar eficiência e otimizar as etapas. Eu ganho muito tempo. Posso me dedicar a itens do meu dia a dia que exigem uma atuação de advogada”, resume.

“As atividades que antes me exigiam um tempo maior, hoje eu consigo realizar com muito mais velocidade. E hoje, em uma realidade com muitas ferramentas tecnológicas, muitas redes sociais, velocidade é a palavra do mundo”, avalia. “Mas eu vejo a IA menos como uma substituição do trabalho e mais como uma mudança na forma de trabalhar. Essa é a grande mudança. Quando bem utilizada, ela libera o profissional de tarefas repetitivas e permite que a gente possa focar em tarefas que geram mais valor para o nosso cliente”, completa.

Para a profissional, ainda há muito que a IA não pode substituir. Ela relata que foi ao tribunal conduzir um assunto de interesse de um cliente com um desembargador, algo que a IA nunca poderá fazer. Esse lidar, esse tête-à-tête, “é um trabalho exclusivamente humano. A IA não conhece o cliente como o advogado conhece. Esse é um grande diferencial do ser humano. Estratégia, sensibilidade, capacidade de negociação, leitura de contexto, confiança. Isso tudo continua essencialmente humano”. A responsabilidade jurídica, pontua, permanece integralmente do advogado. Cabe conduzir de forma ética como a advocacia vai trabalhar com essa tecnologia.

 

Thaís Sena (Foto: divulgação)

A advogada Mariana Maranhão, especialista em Direito Civil e Processual Civil, relata que inicialmente teve resistência às novas tecnologias, mas logo aderiu pela agilidade conferida pelas ferramentas. “A gente otimiza muito o tempo. A Jusbrasil tem a Jus.ia para a pesquisa de jurisprudência. Uma pesquisa que podia levar semanas, entrando em tribunal por tribunal, agora pode ser feita em alguns segundos”, conta.

E, para além das ferramentas especificamente jurídicas, Mariana salienta outras de organização documental e mesmo para a gestão do próprio escritório, otimizando até o pagamento das contas. “Hoje é tudo em tempo real. Com a evolução, quem não se adaptar vai ficar para trás”, diz. “Mas tem quem acha, às vezes até clientes, que é só chegar na IA para achar a solução jurídica, o que é errado. Você tem que saber o que está fazendo para a ferramenta te auxiliar, ser seu ponto de partida, e não resolver a tarefa completa”, relata.

“Além das inteligências artificiais, utilizo outras tecnologias que contribuem para a organização do trabalho: a Legalcloud, na contagem de prazos processuais; a Google Agenda, no controle de audiências e compromissos; a Clicksign, na assinatura eletrônica de documentos; e o Google Meet e o Zoom, na realização de reuniões e atendimentos a distância”, completa.

Mariana Maranhão (Foto: divulgação)

“Essas ferramentas otimizam o tempo, reduzem atividades repetitivas e permitem maior dedicação ao estudo do caso, à definição da estratégia processual e ao atendimento do cliente. Contudo, seu uso exige cautela, responsabilidade, proteção dos dados e rigorosa conferência das informações”, lembra. “A tecnologia atua como suporte e não substitui o conhecimento técnico, a análise crítica, a experiência e a sensibilidade do profissional. Afinal, nos termos da Constituição Federal, o advogado é indispensável à administração da Justiça”, conclui Maranhão.

Conectando gerações

Para Henrique Tibúrcio, um advogado com 32 anos de profissão, atuante na área do Direito Empresarial, a tecnologia representa uma nova etapa de uma transformação que começou com a informatização dos escritórios. “É uma revolução, na verdade”, resume. Segundo o advogado, a profissão já passou por outros momentos de transformação tecnológica. “Nós tivemos alguns momentos na história da profissão que foram marcantes. A informatização, um desses momentos. E, com isso, a internet, que abriu um leque de possibilidades de pesquisa, e agora a inteligência artificial”, completa.

“Encontrar documentos, encontrar determinadas passagens de texto, analisar questões de prescrição, por exemplo, se há algo fora do prazo. Tudo isso em uma velocidade incrível”, afirma. Segundo ele, mesmo depois da digitalização dos processos, muitas dessas tarefas ainda exigiam que o advogado percorresse as páginas dos documentos em busca das informações necessárias. Com a inteligência artificial, esse trabalho pode ser acelerado significativamente.

Para ele, o principal benefício da nova tecnologia está justamente na economia de tempo. “Ela realmente permite ganhar tempo”, afirma. A possibilidade de automatizar parte do trabalho permite que o advogado concentre seus esforços nas atividades que dependem de interpretação, conhecimento jurídico e tomada de decisão.

Henrique Tibúrcio (Foto: divulgação)

Embora advogados recém-formados já tenham maior familiaridade com ferramentas digitais, profissionais que iniciaram a carreira antes da popularização dos computadores e da internet também conseguem se adaptar. “Eu acho que estão se adaptando muito bem e muito facilmente, porque ela é uma ferramenta fácil de usar”, afirma.

Uma das razões para essa facilidade, segundo ele, está na própria forma de interação com os sistemas atuais. “Você praticamente está conversando com ela”, explica. Dessa maneira, o uso da tecnologia não exige necessariamente uma grande especialização técnica ou conhecimentos avançados de programação.

A IA para a OAB

O presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Goiás da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (Casag/OAB-GO), Eduardo Júnior, afirma que a Ordem enxerga a IA como uma nova etapa de transição para a advocacia e que todas as profissões vão vivenciar. “Está mudando substancialmente o modus operandi, assim como foi com o computador. É notório que não se trata de uma ameaça, mas de uma ferramenta. A maturidade institucional de quase um século do Sistema OAB permite enfrentá-la sem pânico e sem ingenuidade, cobrando responsabilidade de quem a utiliza”, assegura.

Para Eduardo, a automação não muda de forma alguma a essência do atendimento jurídico oferecido à advocacia pela Casag. “O atendimento continua humanizado e individual. Nossa escuta segue atenta às demandas assistenciais voltadas a dar suporte aos mais de 50 mil advogados e advogadas de todo o Estado. A fórmula olho no olho, atenção especial e individual, não muda. Mas a IA agrega agilidade: automatiza triagem, agendamento, respostas a dúvidas recorrentes e etapas de acesso ao serviço, otimizando o tempo do advogado que nos procura”, pontua.

Eduardo Júnior (Foto: divulgação)

Agilidade e economia de tempo, Eduardo concorda, são o que o advogado mais tem a ganhar com a tecnologia: “Ao ampliarmos os serviços e a forma de atendimento da advocacia com ferramentas de automação, reduzimos barreiras de contato, especialmente para quem está no interior do Estado ou fora do horário comercial tradicional. Sobra tempo para o advogado atender aos clientes e, por consequência, ampliar a oferta de seus serviços jurídicos. É reflexo”.

O Sistema OAB tem dado suporte ao advogado nesse processo de integração da IA, com orientação. “Erros de aprendizado, como o uso de uma ferramenta de IA sem a revisão devida, são tratados como falha a corrigir, não a punir. Para situações em que haja conflito entre a ética e o uso de ferramentas de IA, a OAB tem pensado na aplicação de termo de ajuste de conduta e encaminhamento à ESA-GO para qualificação no uso responsável da tecnologia”, diz. “Acredito que há uma linha clara entre erro de boa-fé e má-fé. O uso fraudulento, como o prompt injection, carece de resposta institucional firme. Isso é inadmissível. Já o erro deve ser tratado com ferramentas de correção e aprendizado”, finaliza.

Uma tecnologia em evolução

Renato Naves, CEO, um dos fundadores e sócio-líder da CoreJur, plataforma especializada em tecnologia para o setor jurídico, aponta que a área jurídica está entre os segmentos mais impactados pela inteligência artificial. Isso ocorre, de acordo com ele, porque grande parte do trabalho dos advogados envolve justamente atividades relacionadas à informação, como análise de dados, leitura de documentos e processos e produção de textos jurídicos.

“A área jurídica está entre as três áreas mais impactadas pela inteligência artificial nesse momento”, afirma. Para ele, a característica do trabalho jurídico faz com que os efeitos da tecnologia sejam percebidos de maneira imediata, especialmente em tarefas relacionadas à produção e ao tratamento de informações.

Naves afirma que a adoção da tecnologia pelos profissionais brasileiros tem ocorrido de maneira acelerada. Apesar da rápida expansão, o executivo ressalta que a tecnologia ainda apresenta limitações. As ferramentas de inteligência artificial generativa funcionam com base em modelos probabilísticos e, por isso, estão sujeitas a erros. Entre eles está a chamada “alucinação”, quando o sistema apresenta informações incorretas, aleatórias ou sem fundamento como se fossem verdadeiras.

“Existe muita experimentação, mas já existe muito resultado prático sendo colhido e outros ainda estão em avaliação”, explica Naves. Para ele, a adoção da IA no Direito está em uma fase de evolução, na qual os profissionais ainda avaliam quais aplicações efetivamente proporcionam ganhos de produtividade e qualidade.

Renato Naves na CoreJur (Foto: divulgação)

A CoreJur, segundo Naves, começou a trabalhar com inteligência artificial antes da popularização das ferramentas de IA generativa. A empresa mantém projetos de pesquisa e desenvolvimento na área desde 2020, em parceria com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) da Universidade Federal de Goiás (UFG).

O objetivo, segundo o executivo, é utilizar a tecnologia para aumentar a produtividade no tratamento de documentos jurídicos. Isso inclui tanto a análise documental quanto a elaboração de textos, relatórios e pareceres, além da análise de processos e documentos utilizados em operações de diligência, crédito, fusões e aquisições e compras públicas.

“A ideia não é substituir o advogado na sua tarefa principal”, afirma Naves. Ele considera fundamental que todo conteúdo produzido ou auxiliado por inteligência artificial seja revisado pelo advogado. O motivo está justamente na possibilidade de erros cometidos pelos sistemas.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Um comentário

  1. Excelente matéria, que ótimo esse avanço tecnológico em Goiás , parabéns Renato Naves pela Corejur. 👏👏👏

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