José Abrão
Goiânia – O uso de inteligência artificial (IA) no trabalho veio para ficar: segundo levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a Microsoft, em janeiro de 2026, 62% das empresas brasileiras com mais de 50 funcionários já faziam uso de ferramentas de IA no cotidiano. Em 2024, eram 34%: uma expansão de 82% em dois anos. Segundo um artigo publicado pela mesma instituição, 30 milhões de trabalhadores já são impactados de alguma forma pela IA.
Na pesquisa, a ferramenta mais citada foi o ChatGPT, usado por 89% das empresas, seguido pelo Copilot (34%) e Gemini (21%). Porém, a IA vai muito além de chatbots e modelos generativos de linguagem genéricos: ferramentas específicas e soluções tecnológicas direcionadas estão transformando o mercado de trabalho em diferentes setores, e as startups com faro para detectar essas oportunidades estão se destacando.

Pioneiros no agro e na construção civil
Duas áreas com enorme potencial ainda não muito explorado são o agronegócio e a logística: o Brasil é um país produtor de dimensões continentais, e a empresa goiana SOU AgroSoluções saiu na frente ainda em 2018, com foco no gerenciamento logístico de insumos e royalties. Seu produto principal é o SafraControl, plataforma que gerencia recebimentos, distribuição de fertilizantes, sementes, defensivos e o controle de royalties.
Valquer Novaes, fundador da empresa, explica que suas soluções automatizaram e deram segurança para processos morosos e feitos manualmente, muito suscetíveis a erros. “O primeiro produto é uma plataforma para gestão de logística do agro na distribuição de insumos. Ali dentro, o cliente faz toda a parte de agendamento, roteirização das cargas, acompanhamento, as etapas do carregamento até a liberação, as entregas e auditoria de frete. A IA ajuda a entregar as melhorias de forma mais rápida e acelerada nas funcionalidades novas, nas mudanças, com melhor qualidade”, pontua.
Outra ferramenta desenvolvida é para a validação de documentos, como comprovantes de entrega. “O cliente não precisa mais ficar olhando documento por documento. Como era feito antes? Depois que é feita a entrega, sobe o comprovante e aí algum usuário teria que validar para garantir que não é uma foto aleatória do caminhão, porque o comprovante de entrega é o que respalda o ciclo fechado para a transportadora receber o frete. Então, a gente já tem uma IA ali que faz essa validação, ela checa se a foto é um comprovante, se está assinado, se tem data de entrega”, resume, oferecendo mais transparência e segurança ao processo.

Outro sistema organiza as cargas e sua distribuição na frota e nas rotas do cliente sem que isso tenha que ser feito carga a carga: “Se o cliente tiver 50 cargas naquela semana, ele pode fazer as 50 de uma vez só, e a inteligência ali por trás vai olhar a rota a ser usada, agrupar os clientes que fazem sentido na mesma rota, conseguir encher o máximo dos caminhões. Ele consegue montar rotas mais eficientes para reduzir o custo do frete e melhorar a conta logística dele”.
Parte dessa qualidade veio da experiência: Valquer trabalhou em uma sementeira, e o contato próximo com o agronegócio revelou a ineficiência da logística e as dores de cabeça dos produtores. Como desenvolvedor, ele já conhecia outros sistemas de logística, mas sabia que o agro possui especificidades que precisavam ser trabalhadas.
“Então foi isso que a gente conseguiu fazer: a gente desenvolveu 100% com o nosso time, mas, antes de desenvolver, a gente passou por um laboratório na prática, sofrendo as dores ali de verdade do usuário, e aí sim foi onde a gente conseguiu fazer algo que resolve mesmo, de verdade, as dores do agro”, explica. Para ele, a tecnologia não é um fim, mas um meio, e a IA é só mais uma ferramenta que veio para ajudar: “Ela sozinha não vai resolver tudo, mas ela é o meio pelo qual a gente consegue melhorar processos, gerar eficiência operacional e redução de custo, mas sempre vai depender do recurso humano”, finaliza.

A inovação também se faz presente na área urbana: quem mora em Goiânia já deve ter percebido que sempre há um prédio em construção no horizonte (quando não são vários). A plataforma goiana Coordly saiu na frente ainda em 2019, trazendo eficiência, organização e planejamento para o mercado da construção civil.
Seu fundador, Romeu Neiva, já era da área de construção civil e notou que a parte de gestão de projetos e planejamento era muito ineficiente. Engenheiro civil com mestrado em arquitetura e construção, ele decidiu empreender na área de Building Information Modeling (BIM), que basicamente é uma forma de digitalizar as informações da construção.
“Aí surgiu a oportunidade de empreender em duas frentes, uma de serviço, então a gente criou uma empresa de coordenação e compatibilização de projetos em BIM, para o mercado imobiliário aqui de Goiânia, principalmente, e a plataforma, o software, que surgiu em 2019, como uma forma de fazer esse processo de forma mais automatizada, centralizando tudo num lugar só”, conta.

Por meio da Coordly, a inteligência artificial ajuda o coordenador de projetos, que é a pessoa que está sempre envolvida na tomada de decisões, para que a obra aconteça da forma mais tranquila possível: “Os problemas que, até então, eram resolvidos dentro da obra vão ser resolvidos na fase de projeto. Então a gente otimiza de 40% a 70% do tempo dessa pessoa responsável por coordenar o projeto, com uma ferramenta que agiliza o trabalho dela”.
Para fazer uma obra, há a necessidade de ter documentos, que são plantas baixas, elevações e cortes. O Coordly oferece modelos tridimensionais para visualização desse mesmo projeto e extração de dados dele. Além da centralização, há ainda conexão entre as equipes pela plataforma para vincular todos os profissionais envolvidos, do arquiteto ao eletricista.
“Isso tem um potencial grande de economia: a construção civil é uma indústria muito ineficiente. Então essa metodologia hoje é o principal vetor de inovação e transformação da construção. Tanto é que, se você der uma pesquisada breve sobre BIM, vai ver que já tem até iniciativa do governo federal para poder fazer contratação. É uma área bem técnica, mas que tem um impacto gigante na sociedade”, pontua.
“A tendência é que, para que a gente tenha o alcance desses benefícios que essas ferramentas podem trazer, a gente precise ainda continuar fazendo a qualificação dos profissionais, seja interna ou externa, tanto dos profissionais que trabalham na empresa quanto dos nossos clientes, para a gente poder traduzir isso em resultado. O desafio exatamente está em traduzir isso em resultado”, avalia Neiva.
Para ele, a demanda já existe e só vai crescer, assim como a necessidade de qualificar a cadeia produtiva. “Isso demanda tempo, é natural, isso demanda muito tempo mesmo. Esse aperfeiçoamento e esse aprimoramento de processos, metodologias e tudo mais só conseguem ser consolidados com o tempo. Nem sempre existe o entendimento de que esse tempo precisa ser respeitado”, comenta sobre a aceleração desses processos.
E, de fato, inovações como essa vão só acelerar: segundo levantamento da IDC Brasil, o mercado brasileiro de IA foi avaliado em US$ 2,4 bilhões em 2025, com projeção de US$ 8,1 bilhões até 2030, com um crescimento de 52% de 2024 para 2025. O Brasil já ocupa a 14ª posição no Global AI Index 2025, da Tortoise Intelligence, liderando a América Latina em desenvolvimento e adoção de IA.
Além disso, segundo a Abstartups, o Brasil tem mais de 700 startups focadas em soluções de IA, e o governo federal, por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, planeja investir R$ 23 bilhões em infraestrutura tecnológica até 2028.
Terreno fértil
O professor doutor Celso Camilo, um dos fundadores do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia-UFG), afirma que a demanda de organizações por projetos na área de IA é crescente, além da busca por apoio estratégico da universidade para definir caminhos e governança.
“Diferentes perfis de pessoas buscam capacitação e desenvolvimento com IA. A IA é uma ciência que apoia o desenvolvimento de várias ferramentas que provocam uma revolução tecnológica e, por consequência, uma revolução social. Assim, vários setores econômicos estão sendo transformados”, afirma o professor. “Mesmo que haja resistência e dificuldade de entendimento do momento que vivemos, as pessoas e organizações vão receber os impactos da revolução. O letramento é parte da solução para reduzir medos e empoderar as pessoas para adaptar e escolher como querem se posicionar nesse momento”, completa.
O pesquisador avalia que, no curto prazo, vamos ver mais agentes com IA sendo assistentes dos humanos em diferentes tarefas, inclusive nas compras. “Nesse ponto, a IA contribui muito para reduzir o tempo e a complexidade de montar pilotos que ajudem a validar a ideia no mercado. Antes, gastavam-se muitos meses de desenvolvimento em um protótipo mínimo para apresentar ao mercado, e esse tempo foi muito encurtado com a IA. Além disso, o conhecimento multidisciplinar está mais acessível e integrado para que haja um melhor aproveitamento do empreendedor eficaz”, pontua.
Esse é o caso do jovem estudante de Ciência da Computação e empreendedor Gabriel Lopes, de 23 anos, que tem uma startup voltada para a otimização de vendas nas redes sociais. Sua ferramenta de IA, a Lussia, extrai dados para desenvolver roteiros e conteúdos com estratégia de marketing para o comércio. Atualmente, a Lussia está em fase inicial de desenvolvimento e não está aberta ao público geral, apenas a clientes pontuais, como um MVP (produto mínimo viável) que entrega esse serviço de marketing estratégico.

“Os processos de extração de dados das redes sociais são trabalhosos, e a geração artificial dos roteiros ainda precisa ser aperfeiçoada, mas revela resultados mais positivos do que roteiros humanos, em média. O próximo passo continua sendo a identificação do problema real nas empresas em seus processos de marketing nas redes sociais”, explica Gabriel.
Ele participou do Startup Day mais recente e foi orientado a procurar editais de fomento pelo potencial da sua ideia. “A Lussia pretende ampliar significativamente o faturamento e o sucesso social de pequenos empreendedores, democratizando um dos maiores canais de vendas no Brasil. Eu acredito que a IA irá potencializar o trabalho em praticamente todas as áreas do mercado, infelizmente reduzindo alguns times, mas também trazendo novas oportunidades para um novo mercado”, avalia o jovem empreendedor.
Advocacia: IA como ferramenta indispensável
Outro setor sendo revolucionado pela IA é o da advocacia: o Brasil é o país com o maior volume de processos e, segundo a Associação Brasileira de Advogados (Aba), 55,1% dos advogados brasileiros já usam IA regularmente no trabalho e 47,8% dos escritórios com mais de 500 advogados adotaram ferramentas de IA no cotidiano. Um artigo publicado pela da FGV Direito SP aponta que cerca de 80% dos profissionais no setor jurídico usam IA com alta frequência.
O advogado e agora também desenvolvedor Gustavo Leite já possuía o desejo de entrar no mercado tecnológico antes da advocacia e ingressou no bacharelado em IA da UFG, onde conheceu seus sócios na Exordial IA, ferramenta que nasceu com a ideia de resolver problemas cotidianos dos advogados como a redação de petições, análise de contratos, uso de anexos e outros elementos processuais.
Entre os diferenciais da plataforma está principalmente a busca de jurisprudência a partir de um banco de dados, evitando alucinações de IA, e também um chat jurídico, em que o advogado consegue tirar dúvidas, planejar peças e fazer pesquisas. Além disso, eles também lançaram recentemente um programa de jurisprudência que pode ser inserido em chatbots como Claude e ChatGPT.

“Nós recebemos um bom feedback do mercado. Os usuários relatam que as petições que nós criamos possuem uma qualidade maior do que qualquer outra IA genérica é capaz de criar. Nós estamos liderando no quesito qualidade, e a gente sempre pensou em facilidade para o usuário, então a nossa plataforma foi pensada para ser simples, intuitiva, com uma menor quantidade de botões”, relata Leite.
O advogado destaca que muitas pessoas ainda não compreendem como a IA pode ser trabalhada atualmente para lidar com problemas específicos de forma competente: “A IA ajuda você a pensar. Ela vai pegar o contexto e o texto que você já tem, e que já é muito bom, e te ajuda a refinar sua redação e analisar um número grande de documentos. Ela se torna uma ferramenta poderosíssima e, acredito que em breve, indispensável. Acredito que todos os advogados vão usar IA por ser muito mais eficiente e estratégico”.
Para o futuro, Leite sonha grande: “Pretendemos entregar uma experiência premium em que vamos alcançar um nível maior de profundidade. Já entregamos algo técnico, e o que a gente realmente quer é um novo patamar, conseguir trabalhar aquela inteligência jurídica para que a redação do advogado e os insights que ele tem ganhem um nível maior de sofisticação”.
