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Una palabrita acerca del cambio en la Habana

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29.06.2019 - 08:00:00

Estou em Cuba. Exige matemática. Já fui bom nisso.
 
Existem duas moedas oficiais em circulação no país. Uma é o Peso Cubano. CUP. É a moeda dos nativos, moradores, aqueles que denominam a si próprios cubanos. Vale muito pouco. Quase nada.
 
A outra moeda é o CUC. Peso Convertible. A moeda dos turistas.
 
Imagino – e só imagino – que o CUC surgiu devido a um mercado negro de dólares que invadiu o país, principalmente devido ao turismo. Como não dá para ficar dando mole para americano excomungado, criaram um cascalho específico para quem vem curtir praias, história, cultura, mulatas. O CUC tirou o dólar de (grande) circulação. Como o Real. Vale, inclusive, um pouco mais.
 
1 CUC = 25 CUP. E dá-lhe tabuada, conta, matemática.
 
Depois de um dia cheio, resolvi sair à noite pela cidade. Sem rumo. Ainda não havia feito isso.
 
Tomei banho, um gole de Havana Club 3 Años, passei a mão em uma Hollandia (cerveja nacional verdinha, vibe Heineken) e fui pra rua. Já na descida da escada metálica de minha habitación, a mesma velha que havia me atacado antes, pedindo dinheiro, volta à carga: “Que rico. Estás tomando una cervezita…”
 
Subo a Calle Del Oficios. Plaza Vieja. Calle Obispo: a rua mais agitada de Havana Vieja. Passo em frente a um sebo que vi um ou dois dias antes. Três pessoas lá dentro. Entro.
 
No som, Metallica. Uma das pessoas, um sujeito beirando os cinquenta – desdentado, visivelmente maltratado pelo tempo, pela vida, por tudo – bate cabeça. Um legítimo headbanger cubano.
Pergunto sobre histórias em quadrinhos. E não consigo evitar o riso. O metaleiro sente a frequência. Me pergunta qual banda está rolando. Comemora minha resposta correta. Me lança um novo desafio. Acerto com poucos segundos: Ramstein. O sujeito vai à loucura.
 
Assumo o tal protagonismo. Conto para eles de um show dos alemães que vi, abrindo para o KISS. Em determinado momento, o vocalista arrancava para fora das calças uma piroca gigante – falsa, claro – e ejaculava um jato de água na bunda e na cara do tecladista, de quatro no palco. O roqueiro esboça um certo desconcerto. Os outros dois caem na gargalhada.
 
Me manda outro desafio. Moleza. Aerosmith. Me transubstancio no Dr. Rock. Para eles, óbvio.
 
O papo flui. Vejo livros e gibis. É a livraria mais cara de Havana até o momento. O metaleiro é funcionário. O outro é dono. E o terceiro é um artista plástico de técnica monstruosa. Inspirado pelo meu interesse nos livros de arte, me mostra suas obras registradas no celular. Impressionante.
 
Pergunto sobre bandas e show de rock em Cuba. Acertamos de ir juntos ao Maxim Rock na sexta. Mal sabe ele que sou ruim de cumprir compromissos.
 
Saio do sebo com a alma leve e lavada. A caminhada noturna já havia valido a pena. Passo em frente a uma lojinha que vende água, cerveja, essas coisas. Pergunto quanto é a lata de Heineken. 1,50 CUC. No meu interior, celebro alegre a vitória. Cheguei a pagar 3,50 numa longneck. No La Vitrola. (Como consolo, sei que a Madonna chapou o coco e dançou bêbada sobre as mesas por ali.)
 
Mas alegria de burro dura pouco. Ao invés de pagar com CUC, mostro cédulas de CUP e pergunto se aceitam. Dizem que sim. Entrego duas notas de 50 e inquiro sobre quantas cervejas aquilo vale. Um outro funcionário diz: “duas”. Passo a mão nas latas e sigo em frente. Na rua, abro uma e entorno um gole. O cérebro começa a processar: se 1 CUC = 25 CUP, então 100 CUP = 4 CUC.
 
Na verdade, não foi tão rápido assim. Com um raciocínio lento e esburacado, custo a fazer a conta de que havia perdido 1 CUC. 4 Reais. Sofro com isso. Sou um sovina.
 
Fico pensando se volto lá e cobro meu dólar cubano. Desisto da ideia quando chego a o belo Parque Central. Floridita e talicoisa. Logo sou abordado por um sujeito. Carlos, se não me engano. Me pergunta de onde sou, aquela coisa toda. Fala das praias, de um ônibus que é mais em conta que os táxis e por aí vai. Tudo isso para se decepcionar ao saber que não tenho interesse em conhecer lindas cubanas de 25 anos.
 
Volto pela Obispo. Termino a segunda Heineken. Quente.  Passo pelos caras que me surripiaram 1 CUC. Prefiro carregar comigo a humilhação de não saber fazer contas quando é necessário. Logo eu, formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Goiás.
 
Um pouco bêbado, sinto fome. Comer sempre ajuda no combate à ressaca do dia seguinte. Meus planos, no começo do dia, eram uma refeição rica e farta. Àquela altura, uma pizza me bastava. Encontro uma dessas portinhas que vendem pizzas. Cubanas. Só indo à Cuba para entender o que é uma pizza cubana. Pergunto o preço. 15 CUP. E em CUC? 2 CUC. Vá se lascar!
 
Caminho mais um pouco. Outra portinha. Quanto é a pizza? 2 CUC. Me dá uma. É a metade do tamanho e o dobo do preço da que vendem embaixo da minha habitación, a Casa Ona. A única coisa sobre o balcão é um saleiro. Dane-se. Espalho sal sobre a pizza e sigo comendo pelas calles. Cruzo o dono do sebo. Ele dá uma gargalhada ao me reconhecer.
 
Chego em casa, tomo uma pequenina dose de rum com limão, abro uma Hollandia e começo a escrever. O ciclo se repete. Algumas vezes. Como, lentamente, o último pacote de salamitos que trouxe do Brasil. A partir de agora, estou ao Deus dará.     

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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