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Uma munduruku no plenário

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17.04.2015 - 16:14:56
 

(Foto: Nádia Junqueira)

Brasília – O espaço é frio – em todos os sentidos. Não entra luz de sol. É palco de brigas, de sacanagens e, cada vez mais, de poucas vitórias. Aquele espaço, que por poucas horas era permitido a ela e seus parentes, durante todo o ano acolhe uma maioria inimiga. Principalmente para ela. Mas ela ignorava tudo isso. Ignorava no mais puro sentido do verbo: ela não sabia do que se tratava. O que ela sabia é que aquele chão era muito fofinho e quentinho. Bom demais de sair rolando para lá e para cá. Uma maravilha se jogar numa parede sem se machucar. 
 
Uma pequena munduruku fez do chão do plenário da Câmara terra de sua aldeia na última quinta-feira (16/4), durante sessão solene em homenagem ao dia do índio. Enquanto lideranças indígenas e deputados tomavam o microfone para lembrar que o genocídio que começou há cinco séculos não acabou, ela só queria saber de rolar no carpete. Roubou a cena.
 
Era difícil não tirar os olhos dela. Pela ingênua ousadia. Pela beleza que tinha. Pela afetuosidade que despertava com seu carisma fazendo graça para câmera. Foi emocionante, sobretudo, porque no auge de sua espontaneidade infantil, ela disse muita coisa. Seu corpinho estava todo pintado: com desenhos de sua etnia e também com frases de ordem: PEC 215 não. O corpinho brincava, rolava. Mas já trazia uma frase da qual seu futuro depende. Trazia a suavidade de ser criança e a dureza de ser índia.
 
O sombrio ano legislativo de 2015 começou com o desarquivamento da PEC 215. É sabido que fazia parte da negociação entre a bancada ruralista e Eduardo Cunha para que fosse eleito presidente. Em poucas palavras, a proposta passa do poder Executivo para o Legislativo a prerrogativa de demarcar terras. Se já não há demarcações há mais de ano, imagine o que é entregar de mãos beijadas essa possibilidade a uma Câmara claramente conservadora, ruralista e empresarial. Eles dão os seus sinais: na mesma quinta tentavam instaurar CPI para investigar demarcações de terras. Demarcações essas que sequer acontecem. 
 
A partir de 1988, os índios aguardariam cinco anos para demarcar suas terras, prazo previsto na nova Constituição. Já se passaram mais de 20 anos que o prazo expirou. O que eles encontram em Brasília? Ditos representantes que se lixam para esse prazo e para constituição. Não apenas não querem demarcar mais, como querem a prerrogativa de voltar atrás nas terras já demarcadas. 
 
Eles não vêem o que os índios vêem: solo, água, animais, plantas que servem para gerar vida, cultura, espiritualidade e equilíbrio natural. Para preservar e respeitar história e ancestralidade. Vêem hectares para produção de soja. Árvores para serem transformadas em madeira a ser exportada. Vêem seres que podem ser mortos ou inseridos na mesma forma de vida de não-índios. Na mesma forma miserável que quem não tem dinheiro se insere: na marginalidade. Na prostituição, alcoolismo, mendicância.

Eles reivindicam muito pouco. Reivindicam o direito de ser o que são e que sempre foram. O direito de viver na terra que sempre foi deles. Reivindicam a possibilidade de ser espontâneos. Era essa a espontaneidade que a mundurukuzinha trazia ao plenário. Mas a alegria do seu corpo e de seu olhar não era possível de se encontrar nos olhos de nenhum indígena ali, todos mais velhos que ela. Eles expressavam a violência que vivem cotidianamente. O temor de perder mais. A indignação de tantas privações.  

A pequena munduruku rolando, de lá para cá, não foi à Câmara apenas acompanhar a mãe. Ela, tão pequenininha, tão sem querer, representava tão bem os seus. O lugar de uma criança não é ali fazendo política. Ela só queria brincar. Ela só quer ser o que é: índia. Mas para isso seu corpo tem que estar pintado para guerra. Ela tem que ir a Brasília fazer política. Para ter o direito de assegurar sua espontaneidade, deve estampar seu corpo: eu preciso das minhas terras para viver. Por isso, PEC 215 não.

Lideranças indígenas e parlamentares buscavam palavras para traduzir a indignação, o medo e a fúria. Mesmo quando não há palavras para essa tradução. E por essa razão mesmo, era um raro dia de emoções sinceras que tomavam o plenário. Enquanto, por horas e horas eles tentavam achar jeito de expressar o que queriam, a munduruku suave, dando risadas altas, ignorando toda a formalidade do ambiente, quase flutuando no carpete, traduzia o que eles querem: ser livres.

 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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