Logo

Uma cinebiografia, um fórum e um olhar acadêmico

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.06.2019 - 10:01:53
 
Goiânia – A cinebiografia é um gênero peculiar. Definível como representação cinematográfica da vida de alguém, geralmente uma personalidade de relevância histórica em qualquer área, ela nem sempre relata com fidelidade absoluta importantes aspectos da vida do cinebiografado. Para quem já leu uma biografia o mais próxima possível dos fatos relativos à vida do biografado, o que é característico de um bom trabalho jornalístico – daí, geralmente, os bons biógrafos serem jornalistas – às vezes o que é mostrado na telona pode causar certo espanto.
 
Em “Kardec: A História por Trás do Nome”, um desses momentos espantosos ocorre quando Allan Kardec, pseudônimo do francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, é conduzido à prisão por perseguições de um adversário clerical dotado de influência política. No filme, aliás, o sacerdote representa emblematicamente os embates que Kardec teve com parte do sacerdócio católico, que via na doutrina então sistematizada por ele uma perigosa heresia.
 
Suas diferenças com parte dos representantes da igreja podem ser acompanhadas ao longo dos onze anos em que esteve à frente do periódico mensal por ele publicado, a “Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos”, cuja edição completa se encontra atualmente disponível na internet no sítio www.kardecpedia. A leitura da obra “Kardec: A Biografia”, do jornalista Marcel Souto Maior, em que o filme se baseia, não traz notícias sobre a prisão, ainda que breve, que é apresentada nas telas pelo diretor Wagner de Assis.
 
Tanto a prisão quanto a rivalidade com o sacerdote católico representam um recorte espaço-temporal de eventos distintos de que são emblemas. A condensação para o curto espaço de tempo de uma exibição cinematográfica exige recursos dessa natureza, conforme se pode inferir ao comparar a biografia de Souto Maior com o roteiro-adaptação escrito por Wagner de Assis e L.G. Bayão.
 
POLIMATIA
Até a metade do século 19, quando Allan Kardec sistematizou a doutrina espírita a partir de uma ampla gama de fenômenos mediúnicos que ocorreu na Europa e na América, era possível ainda o amplo domínio de áreas significativas do conhecimento universal, fenômeno conhecido como polimatia. Allan Kardec era um polímata, conforme se infere da informação de outros biógrafos, que compartilham com Souto Maior o relato sobre a sua vida.
 
Autor de obras didáticas, tradutor, o sistematizador do espiritismo dominava idiomas como o inglês, o alemão, o holandês, o italiano e o espanhol. Discípulo de Johann Heinrich Pestalozzi, Rivail-Kardec aplicou a sua cultura polímata na codificação da doutrina espírita. Suas investigações sobre os fenômenos espirituais das chamadas “mesas girantes”, caracterizados pela movimentação desses móveis por parte de uma força oculta, levou-o ao universo de uma subjetividade peculiaríssima a que denominou mediunidade.
 
Na mediunidade, a inteligência do médium se conectaria à inteligência de um ser extracorpóreo, estabelecendo um processo de comunicação que mais comumente se expressa pela linguagem oral e escrita, num processo de que decorrem conhecimentos que em sua amplitude remetem às considerações de pensadores como Leibniz em obras como “Monadologia”. Assim, quando um ser espiritual se comunica pela boca de um médium, tem-se a psicofonia. Se a manifestação se dá pela escrita, tem-se a psicografia, fenômeno celebrizado no Brasil pela performance de Francisco Cândido Xavier.
 
Além de outras, essas duas modalidades mediúnicas contribuíram de forma significativa para o conjunto massivo do material que Rival-Kardec coligiu para sistematizar a doutrina espírita com a publicação de cinco volumes doutrinários e uma revista mensal durante onze anos. Assim, o espiritismo, como fenômeno cultural, teve desdobramentos significativos no tempo e no espaço. Em relação à espacialidade, sofreu um processo de desterritorizaliação e reterritorialização franco-brasileira, conforme os postulados da filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari.
 
A AEPHUS, KARDEC E A ACADEMIA
Da segunda metade do século 19, período da codificação do espiritismo, até os dias atuais, o conhecimento humano teve uma expansão jamais vista anteriormente. A figura do indivíduo polímata, hoje, parece algo bastante soberbo, por mais que a cultura individual desse ou daquele pensador seja admirável. O conhecimento se encontra tão fragmentado em especialidades e subespecialidades, que alguém como Leibniz, que dominava praticamente todo o conhecimento humano disponível em seu tempo, parece humanamente impossível.
 
Atualmente, quando algum nome é anunciado como vencedor do Prêmio Nobel em determinadas áreas do conhecimento científico, representa ele uma vasta equipe de pesquisadores que contribuíram para o sucesso da pesquisa. A exceção é a literatura, cujo laureado produz individualmente a sua obra. Esse fenômeno cultural representa um espírito de época de que é impossível escapar, conforme asseverava Hegel sobre a inserção do homem na cultura de seu tempo.
 
Assim, no estudo do espiritismo sistematizado por Allan Kardec, todo um aparato da teoria do conhecimento pode e deve ser movimentado para compreender todas as implicações decorrentes da doutrina que o pensador francês deixou registrada a partir de suas pesquisas no contexto cultural do século 19. Na atualidade, o universo acadêmico dispõe de diversas ferramentas epistemológicas no campo das Ciências Humanas.
 
Disciplinas como sociologia, filosofia, ciências da religião e outras contribuem com seus aportes teóricos para a compreensão do trabalho realizado por Kardec. Nesse particular, o estado de Goiás se encontra na vanguarda desse campo de pesquisa. Fundada há quase dois anos, a Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais (AEPHUS) é uma organização não governamental voltada para estudos e pesquisas sobre sociedade e espiritismo.
A organização foi fundada pela professora e pesquisadora Dra. Ângela Teixeira de Moraes, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás, contando com a assessoria do pesquisador Dr. Luiz Signates Freitas, do mesmo Programa de Pós-Graduação. Congrega a AEPHUS pesquisadores doutores e mestres que atuam em diversos campos das Ciências Humanas, buscando estabelecer vínculos epistemológicos entre as suas áreas de atuação e o pensamento kardequiano mediado pela doutrina espírita, no âmbito de pesquisas que tratam do diálogo cultural entre o espiritismo e a sociedade organizada como um todo.
 
De 14 a 16 deste mês, a AEPHUS realiza o seu segundo fórum, sob a rubrica de “Fórum de Pesquisa Filosófica e Social sobre O Espiritismo: Direitos Humanos e Cultura de Paz”. A sede do fórum será na UFG (IPTSP- Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, à Rua 235, esq. c/ 1ª Avenida, Setor Universitário). A exemplo do primeiro, ocorrido em 2018, o evento contará com a apresentação de trabalhos de pesquisadores ligados ao universo acadêmico em temáticas que serão abordadas através de artigos, ensaios e relatos de experiência em torno do trabalho gerador de Allan Kardec em diálogo com o etos social.
 
Dentre os convidados para o fórum, a AEPHUS contará com a presença da professora Dra. Dora Incontri, que no ano de 2001 defendeu tese de doutorado na USP sobre a pedagogia espírita e sua inserção cultural em solo brasileiro, com ênfase na figura de Allan Kardec e sua formação como educador e humanista. Trata-se, portanto, de diálogo que se anuncia proveitoso entre o espiritismo e o mainstream acadêmico.
 
GISMAIR MARTINS TEIXEIRA é Doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da UFG; pesquisador do Grupo de Pesquisas em Comunicação e Religiosidade da Universidade Federal de Goiás.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gismair Martins Teixeira

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]