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Um primo que se tornou irmão

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13.07.2020 - 09:51:18

Eu era ainda adolescente, morava em Anápolis, GO, quando fui passar alguns dias de férias na casa de minha tia Julieta, avó materna do Jayme de Oliveira Júnior. A sua casa ficava ao lado e havia uma passagem pelo quintal da tia que dava acesso a casa dele. Naquele dia eu e minha prima Rosa Maria, sua tia, usamos aquela passagem para ir até lá. Recordo-me que Jayme Júnior estava no alpendre da casa com outras pessoas, as quais não me lembro quem eram. Lá estava um pequeno piano de cauda, onde Jayme Júnior, sentado em um pequeno banco, tocava e cantava divinamente. Fiquei inebriada com aquela imagem. Suas mãos deslizavam suavemente e sua voz entoava uma canção que era seguida com aquela expressão de paz e seriedade que sempre carregou consigo. Os demais dias ver e ouvir tocar e cantar era a melhor diversão.

O tempo passou, ele seguiu seu caminho indo morar no exterior e eu segui o meu em Anápolis. Mas aquela imagem dele, naquele piano, continuou na minha memória. Foi um grande período de afastamento. Casei-me e tornei mãe. Nasceu minha primogênita, Daniella. E novamente aquela cena do piano retomou minha memória. Quando ela completou cinco anos comecei a busca por um piano de cauda, mas tinha que ser igual aquele que o Jayme Júnior tocava. Encontrei um parecido, mas não era de cauda. Mas os dons são natos e este não era o da minha pequena menina. Ela apenas colocava os dedinhos no teclado e mal fluía uma ou outra nota musical.

Esta foi a nossa primeira e emocionante história, a qual continua viva na minha memória. Posso vê-lo tocando com suas mãos ágeis, sua voz melodiosa, o sorriso aberto e um balançar com o corpo ao ritmo de cada nota musical. E o tempo passou… e passou! Até que chegou o convite de casamento, Jayme Júnior e Margareth, endereçada ao meu pai, Manoel Gonçalves de Araújo Sobrinho, extensivo a toda família. E no dia, lá estava eu. Não conhecia a Marga, mas recordo-me que estava linda e repleta de luz. A cerimônia foi mágica e encontrei várias pessoas da família. Ali mesmo, na igreja, nos despedimos de maneira formal, com os cumprimentos de felicidades! E se foram mais alguns longos anos sem nos ver.

Creio que nossos encontros sempre foram realizados pela Providência Divina, pois mais uma vez nos reencontramos dentro de uma igreja. Era uma missa de formatura, e logo que a cerimônia terminou, as pessoas já se retirando, eu e meu marido Elson estávamos sentados na última fileira e ele estava três fileiras à frente. De repente ele se virou para trás, deu aquele sorriso e juntos, na mesma entonação, expressamos um “Ah, Júniorrrr…”, “Bethinhaaa…”!! E foram só abraços, agradecimentos pelo reencontro, troca de telefones, alegria e contentamento…

Desde então nunca mais nos distanciamos. Marcamos um encontro na minha casa, ele e a Marga vieram, conheceram meus filhos, encontraram outras pessoas da família, papai, mamãe e meus irmãos, e nossa amizade foi fortalecendo dia a dia. Amigos são como as plantas, que precisam ser regadas e cuidadas diariamente! E neste cuidado mútuo, ele e Marga abriram as portas de sua casa para acolher meu filho Ricardo, que fazia uma especialização na área de Oftalmologia. Segundo Ricardo foram momentos de muita alegria, regada a boa música, e com direito a brincarem de máster chefe, fazendo risoto e outras delícias. Imagino-o de avental, o astral nas alturas e aquele sorriso estampado no rosto, quanta alegria!!!

Jayme Júnior não foi somente um exímio pianista e cantor, foi um mestre em muitas outras artes. Tinha espírito sonhador, gostava de criar, de fazer a diferença em tudo que realizava. Era um fazedor de artes! Foi meu arquiteto na reforma da nossa casa, meu incentivador na busca do conhecimento.

Quando entrava de férias ou recesso no trabalho, logo ligava dizendo “Bethinha estou de férias… posso ir a sua casa?” E logo estava conosco para um lanche ou um almoço. Falávamos de tantos assuntos que seria necessário um livro para descrevê-los. O tempo passava tão rápido, ele preocupado com o relógio para não se atrasar para buscar sua amada Marga no trabalho. Ela quase nunca estava presente, mas seu nome estava sempre na sua, na nossa fala. Nunca chegava de mãos vazias, trazia seu afeto, o abraço da Marga e alguma gostosura para saborearmos juntos! A última vez que veio comentou sobre a viagem que estava planejando fazer. Já havia feito todo roteiro, seria uma viagem como ele disse “estilo mochileiro”; eu e o Elson queríamos fazer parte desta aventura. Ele sempre dizia: “Bethinha nunca podemos deixar de sonhar. Os sonhos fazem parte da esperança que carregamos dentro de nós”.

De repente houve um grande silêncio. Jayme Júnior não ligava, ficamos preocupados. Logo soubemos da doença. Fomos visitá-lo no hospital. Ajudamos a servir o lanche da tarde, foi uma visita rápida. Otimismo e fé, é o que resume aquele dia. Depois tivemos o nosso último encontro presencial, nos abraçamos apenas no olhar, nossos braços já não podiam se encontrar, era preciso cuidado com qualquer tipo de contaminação. Os dias seguintes foram carregados de apreensão e tristeza, mas ele não se entregou, cantava e a Marga filmava para enviar aos amigos. Ao telefone ele continuava aquele homem forte, otimista, esperançoso… repleto de espiritualidade! E eu, do outro lado da linha, quase não conseguia esconder a minha fragilidade ao dizer que quando ficasse bem viria a nossa casa comer “aquela costelinha”! Segundo a Marga, dois dias antes de ir para UTI, disse que precisava ligar para mim, mas que sua voz não estava boa… E então essa voz se calou…!!!
 
                Então meu querido irmão
                O que você diria para mim
                Porque calou sua voz
                E deixou meu pranto cair!
 
               Sua voz ressoa fundo
               No recôndito da minha alma
               Diz logo por onde andas
               Pois irmãos não se separam!
            
               Sua voz não calará
               Para aqueles que te amam
               Será ouvida em cada melodia
               De cada nota entoada!
 
               Aqui deixe o meu abraço
               Meu carinho e admiração
               Minha eterna gratidão
               A este primo que se tornou irmão!!!
 
 
*Elizabeth Araújo de Souza é psicopedagoga, com especialização em Educação Especial.

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por Elizabeth Araújo De Souza

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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