Logo
(Foto: reprodução)

Um dia a gente acerta

WhatsAppFacebookLinkedInX
06.07.2026 - 11:04:01

Eu, José Eleutério de Epaminondas Dantas, simplesmente Zetéro, cidadão da zona intermediária de Alto Alegre dos Parecis – porque não fica nem na rural, nem na urbana – cheguei lá, de onde todo mundo dava notícia, mas eu jamais me imaginaria chegando: “na” velhice. Sem quaisquer eufemismos. Situação certa, assustadora e irreversível. Deitei pra dormir bem num dia e amanheci velho. Se há que piorar, a cada dia estou mais perto da morte. E assim como eu não acreditava chegar à velhice tão rápido, também acredito que ainda falta muito para eu encontrá-la. Até porque, a morte não manda recado. Ela só leva.

Ao acordar abri os olhos me virando para o teto do quarto e aquela rachadura de meses parecia ter sido reparada. “Será que o tempo e a humidade recuperaram o dano?” Me assustei quando apertei os olhos e enxerguei um leve traçado de forma geográfica no teto. Era ela. A rachadura ainda estava lá. Tão ativa quanto nunca. E, assim como eu, cada dia mais velha. O susto se referia à minha insuficiência visual sem os óculos multifocais.

Os cabelos da minha cabeça deixaram de cair e passaram a se atirar. E nas minhas costas começaram a crescer pelos como musgo em madeira úmida. Ontem após o banho passei, ao menos, três quartos de hora olhando os pelos nas minhas costas pelo reflexo do espelho. Uma das possíveis conclusões é de que os fios que caem da cabeça acabam germinando nas costas. E questionei ao Universo, olhando pra cima, por quê disso. Evolução? Não, gente. Anúncio da chegada, em definitivo, da velhice.

Terim, meu filho, de um dia pro outro virou um homem feito e já andei percebendo alguns fios prateados que ele adquiriu nas têmporas. José Eleutério de Epaminondas Dantas Filho, o Terim, está quase beirando meio século. É certo que o menino – pra mim sempre será! – foi concebido quando eu ainda tinha meus tenros 16 anos. Como somos muito parecidos, principalmente por causa do nariz e até o jeito de falar, já fomos confundidos com irmãos não apenas uma ou duas vezes. E o filho dele é mais velho do que eu era quando fui pai pela primeira vez.

Mas se há algo pra me encabular ainda mais é o Tobias, um vira-latas preto rajado de branco, que eu trouxe pra casa dia desses, quando o primeiro neto fez um ano. Me lembro como se fossem ontem, chegando com ele numa caixa de madeira acolchoada, com o nome dele gravado em um dos lados. Isso já tem 26 anos. E Tobias resiste, mas já dá sinais de que o tempo dele também já está perto da data de validade. Está senil, meu pobre e velho amigo.

É como dizia minha bisavô Exaltina Maria Cândida Dantas, a dona Tina, que viveu 128 anos afirmando em voz alta todos os dias que jamais iria envelhecer. Aos 74 anos, depois de emagrecer mais de 20 quilos por conta da febre amarela, contraída numa viagem que fizera ao Pantanal, a cara murchou e ela viu sua feição cair como se tivesse derretido. Bisa Tina quebrou o único espelho que tinha em casa e jurou nunca mais olhar para outro. A velhice, pra ela, era o passo adiante no quotidiano de todos nós. E não cansava de repetir a qualquer mortal sobre o passar do tempo durante a nossa existência: “Um dia a mais, um dia a menos”.

Hoje, sim, batendo na porta da casa da velhice, eu penso no que dona Tina falava com muito mais preocupação. Quase desesperado. E foi aí, com a realidade à frente, cara a cara, que caí na real e percebi que começamos a envelhecer no dia e no momento em que nascemos. Consequentemente, rumo à morte. Por esse ângulo de visão e pensamento, quanto mais eu vivo, menos eu tenho para viver. E já que é assim, o melhor conselho, de fato, é aproveitar cada dia e cada momento como se fossem os últimos. Um dia a gente acerta.

*Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Rimene Amaral

*

Um comentário

  1. Excelente crônica. Nunca imaginei que a construção bem costurada, com episódios como a dos cabelos ” que passam a germinar nas costas”. Essa linguagem tão engraçada, tornou a leitura tão saborosa . Mas não é sobre isso. É sobre: ” Cada dia a mais, é um dia a menos”. Então vamos levar a vida com mais leveza, ser mais generosos conosco mesmos, rir mais, viver com intensidade cada existência. Se a velhice nos surpreende , se avizinha sem a gente
    perceber imagine a morte: apenas nos recolhe , nos leva. É a primeira vez que me deparo com uma crônica que conduz o leitor a experimentar sensações tão antagônicas. Bora viver!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]