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Um caso de amor com o Setor Oeste

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05.07.2021 - 16:43:45

Vindos do interior mineiro, ao chegarmos a Goiânia, moramos no Bairro Popular. Bairro simpático, com jeito de interior, tudo ali pertinho, sapateiro, venda, colégio. Alguns anos depois deixamos a casa alugada e fomos para a nova casa, numa das primeiras ruas do novo Setor Sul. Ali tudo era diferente: casas novinhas e distantes umas das outras, com recuo frontal, sem mercadinho e sem bairro no nome. 
 
Duas ruas para a frente, mudava tudo de novo: o bairro já tinha ruas asfaltadas e casas mais antigas. Diziam que ali viviam os ricos: era o Setor Oeste. Muito lentamente, fui fazendo amigos do Setor Oeste e fui perdendo o preconceito. Hoje, coincidentemente, é neste bairro que vivo. 
 
Se no Setor Oeste falta o jeito interiorano do Bairro Popular, na esquina tem venda, sapateiro e colégio. Quase só ando a pé. O centro fica ali, logo do lado, mas o bairro mantém seus ares de tranquilidade. 
 
E isso tem a ver com a própria história do bairro. Quando o arquiteto projetou a cidade, ele pensou num núcleo central circundado por áreas para futura expansão. E batizou-as “setores”, com os pontos cardeais: Setores Norte, Leste, Sul e Oeste. 
 
O Setor Central foi o primeiro a ser implantado, juntamente ao Setor Norte (o futuro Bairro Popular). O Setor Sul seria mais tarde completamente modificado em seu projeto original e levou ainda uns anos para sair do papel, e o Setor Leste sofreu várias invasões. O Setor Oeste resta portanto como único bairro construído ainda planejado pelo arquiteto Atílio Correia Lima. Infelizmente adotou-se recuo frontal para o comércio, o que não constava do projeto original. 
 
Atílio optou por um desenho tradicional, com quadrícula ortogonal, entrecortada por largas avenidas. Decidiu nomear as vias com letras e números, não quis usar dos tradicionais nomes de personagens nacionais. Retomou do 1 a numeração das ruas e as avenidas e praças receberam letras. Com o tempo, a Avenida C virou Assis Chateaubriand, e a Praça E, Tamandaré. Mas as Avenidas B e a D estão ainda lá firmes.
 
Atílio também não caiu na armadilha dos modernistas de separar os usos: no Setor Oeste, convivem lado a lado comércio e residências, o que dá ao bairro sua vitalidade. Enquanto o Setor Sul vem perdendo apelo residencial sem conseguir firmar-se comercialmente, o Setor Oeste é pura vitalidade. Dizem até que tem o metro quadrado mais caro de Goiás. Não é à toa que o bairro sedia os maiores empreendimentos imobiliários atualmente em execução na capital.
 
O bairro ainda mantém algumas marcas do início de sua ocupação. O Bosque dos Buritis perdeu muito de sua área original de 40 hectares, retalhada e doada a instituições e entidades religiosas, como foi o caso das irmãs Dominicanas, dos padres Salesianos e da Assembleia. Sobrou menos da metade da área original do parque. Noutro ponto do bairro houve doação à igreja cristã ortodoxa, o que reuniu o grande contingente de libaneses em seu redor e motivou a homenagem na troca de nome da antiga Avenida E para República do Líbano. E convém lembrar a homenagem à antiga capital do Estado, na Praça das Mães, com seu pioneiro jardim de Cerrado. O Lago das Rosas, também previsto pelo arquiteto Atílio, como Parque Capim Puba, marca os limites históricos do Setor Oeste. 
 
E esse é o maior mérito do plano de Atílio: um projeto aberto e multifuncional, separado do centro por uma enorme reserva de mata nativa. Essas características é que vêm permitindo que o bairro siga o crescimento em sua ocupação e adensamento sem piora da qualidade de vida nem perda de valor de imóveis. 
 
Entre os desafios para o futuro estão justamente essas duas frentes: manter e dinamizar suas áreas verdes, aumentando o adensamento com uso multifuncional. A combinação de comércio vicinal e residências adensadas permitirá mais circulação de pedestres e diminuirá ainda mais a circulação de veículos pelas largas ruas do bairro. É assim nas melhores cidades do planeta: o primeiro bairro de Goiânia continua como seu melhor.

*Wolney Unes é jornalista, escritor, historiador e engenheiro
(Texto publicado em edição da revista do Grupo José Alves e reproduzido no jornal A Redação) 

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por Wolney Unes

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