Kamylla Rodrigues
Goiânia – O último ano foi difícil para Iraci Francisca da Conceição, de 56 anos. Foram 68 dias internada no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), oito cirurgias, raspagem do cabelo para enxerto, acompanhamento ortopédico bimestral e fisioterapia duas vezes por semana no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr Henrique Santillo (Crer). Ela foi a vítima com ferimentos mais graves da queda do brinquedo chamado Twister, no Parque Mutirama, em Goiânia. O acidente, que acabou dilacerando a perna de Iraci e ferindo outras 12 pessoas aconteceu no dia 26 de julho do ano passado.
Filha de Iraci, a técnica em enfermagem Lucimar Francisca de Araújo, de 39 anos, conta que a mãe ainda não superou o trauma daquele dia. “Hoje, ela se locomove com muletas porque não firma totalmente o pé no chão. Como ela ainda faz acompanhamento médico e fisioterapia, o acidente não sai da mente dela. Antes, minha mãe era independente, fazia tudo sozinha. Hoje, ela depende de mim pra tudo e isso a deixa muito depressiva”, conta Lucimar.
Iraci foi morar com a filha em setembro do ano passado, quando recebeu alta do Hugo. Lucimar divide o tempo para dar conta das tarefas de casa, do emprego e dos cuidados com a mãe. “Eu trabalho meio período e já deixo tudo arrumado e de fácil acesso para ela. Após o acidente, eu tive que adaptar toda a minha rotina pra tornar a recuperação da minha mãe a melhor possível. Hoje, eu lavo, passo, cozinho, levo e busco de algum local”, conta.
Todo o custo com transporte de casa até o hospital e os medicamentos que Iraci precisa são bancados pela família. “A ajuda por parte da prefeitura veio apenas no começo, quando eles disponibilizaram um colchão e cadeira de rodas. Atualmente, não contamos com nenhum apoio do governo. A gente fica triste com isso, já que minha mãe estava em lugar se divertindo e que deveria ser mais cuidado”, desabafa.
Lucimar lembra que a filha dela, na época com 14 anos, também ficou ferida no acidente, já que estava ao lado da avó no brinquedo. A jovem fraturou o quadril em dois locais, mas se recuperou bem. O sobrinho de Lucimar também se feriu. Ele quebrou o pé e hoje faz terapia porque, segundo Lucimar, ele ainda tem traumas do acidente. Com o anúncio de reabertura do parque para este ano, Lucimar recomenda. “Só se deve colocar gente para brincar ali dentro, se houver segurança. Não podemos brincar com a vida de outras pessoas. O acidente com minha família mudou nossas vidas”.
Reabertura
Logo após o acidente, o parque foi interditado. Os laudos sobre a situação dos 32 brinquedos do parque foram entregues e, com isso, a reabertura do local foi programada pelo prefeito Iris Rezende para outubro de 2017. Pouco tempo depois o prazo foi estendido para janeiro deste ano, passou para maio, depois para julho, durante as férias escolares, o que também não ocorreu.
“A administração anterior comprou brinquedos usados. Depois daquele acidente, cheguei lá e pedi para parar tudo”, afirmou Iris ao lembrar que o parque foi inaugurado há 67 anos e, segundo ele, precisava dessa reforma geral. A nova expectativa da prefeitura é que a reabertura do Mutirama ocorra no dia 12 de outubro, Dia das Crianças, mas o prefeito não deu garantias. “Eu não gosto de ficar falando data. O que eu posso dizer é que será logo, logo”.
O caso
O eixo do brinquedo giratório Twister quebrou e a parte superior acabou tombando no dia 26 de julho de 2017. Ao todo, 13 pessoas se feriram, sendo que duas vítimas não precisaram de atendimento. Dos demais feridos, três foram socorridos em estado grave, entre eles uma criança de 9 anos. A menina recebeu alta no mês seguinte.
(Foto: Corpo de Bombeiros – arquivo)
O laudo apontou que o equipamento não poderia estar em funcionamento e que o problema se deu devido a um “processo de fadiga”. Além disso, em 2011 foi constatada uma fissura de 10,8 centímetros na peça, mas nenhuma ação foi tomada.
O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO) informou, na época, que foi constatada a inexistência de profissional da engenharia responsável pela manutenção dos equipamentos eletromecânicos. Em outubro do ano passado três pessoas foram indiciadas por lesão corporal.