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Um anjo me ampara em suas asas brancas

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21.01.2020 - 10:30:08
Goiânia – “Haverão de se reconhecer em qualquer tempo, em qualquer vida, em qualquer dimensão, os iguais. A cumplicidade pactuada antes, muito antes.” Ele chegou aparentemente tranquilo. Com os olhos caídos, tristes. Agora ele estava vivendo uma vida nova, tudo era novo. E isso ela iria respeitar sempre. O seu direito de buscar.
 
Agora nós vamos crescer, eles decidiram. Não adianta ir contra corrente, quebrar a cara, agora vamos fazer tudo igual. Vamos abandonar os velhos sonhos e gerar novos sonhos. Sonhos de carne. Tentaremos. Sem disfarces de realidade. Já provamos todos os pecados, assim pensavam, já deslizamos nos umbrais dos desafios, vamos aquietar juntos nossos espíritos. Vamos nos amar pela vida. O amor não deve se cansar.
 
Ela conseguiu um lugar nesse abraço, por ele, para não mais ter recomeço. Um dia ela achou também que conseguiria esquecer o amor de ontem, e dentro de seu filme se martirizou por que não entendeu. Que o amor se oculta se sepulta, mas não morre.

Recomeçar tantas vezes, todo dia, na contemplação dele mesmo. Permanece na história que traçamos de fato, quando não adianta o projeto esboçado. Permanece nos atalhos que mesmo afastados do ponto projetado foram percorridos e deixamos neles nossas pegadas, o eco do nosso sorriso, as lágrimas da emoção dos reencontros, a nossa intenção de acertar. Que mesmo à distância, o amor ainda cuida para que não se acabe. Nunca mais. O irreparável e o eterno tatuado no coração. O irreversível, depois da chama acessa.

 
“Lembrei das tuas mãos moldando minhas costas, e foi à primeira coisa que estanquei sem dor: as mãos, de unhas afiadas grudadas em meus braços”
 
Auto determinou-se que tudo seria fugaz. Tudo viria assim, como surpresa, como presente, como algo recebido, não esperado, não merecido, não planejado, nada acintoso, nada realmente insistido. Porque mesmo o fugaz incorpora da mesma e igual tudo o que é absorvido na riqueza da memória.
 
Porque a vida parecia ser coisa de deuses. E ela era de carne, sangrava, era de desejos, de contrações, de arrepios. Sentiriam os deuses esses delírios, esses deleites, esses visgos?
 
A vida teria de vir assim, num final de tarde, com o céu em lilás, em meio a pessoas correndo, enfim, em meio à massa da realidade. Pensando assim lembrou-se de seu escritor preferido Bukowski, um mártir para ela.
 
Um dia uma jornalista inglesa o perguntou o que seria amor : Amor é quando você acorda às quatro e meia da manhã, em neblina, pega o seu carro anda pela estrada distorcida , uma imagem linda, mas às seis horas tudo isso desaparece, o amor é isso, é real, mas tem o seu tempo exato de duração afirmou Bukowski.
 
Será, e o apesar de… Indagou.
 
A vida teria de vir num final de energias, a prova a existência dela mesma. Quem sabe utópica, teria que ser provada. Ou teria que se acreditar que a vida viria ao se perceber a extrema compaixão pelos seres. Como ela, conformados em viver só em contemplação.
 
Ou teria de acreditar que viria nessa mesma contemplação de si mesma. Quando ela mesma era só o desejo dessa mesma vida. Sem sonhos, porém. Porque os sonhos, esses que a gente acha imaginados, teriam de estar sempre ao alcance das mãos.
 
“Na aparente desordem do movimento dos corpos, extasiados contemplo o absoluto. E nesse absoluto imutável, onde meu corpo se move em constante noite, a desordem não é senão a simetria perfeita para o milagre que surge, assim, no acaso e no êxtase”
 
Ao alcance das mãos estariam também todos os visgos, esse ganhara com o tempo. Que desperdiçava quase todas as noites. Por que decerto teriam finalidades melhores. Não faria sentido o sopro no barro, a maçã na boca muito menos a expulsão do paraíso. Engraçado o verbo em amor, sua inconformidade: por que ser pega de surpresa? Por que deixar indícios comprometedores a conduzir os julgamentos, as análises, as classificações?
 
E numa total incapacidade para decifrar o porquê da vida na sua plenitude sentida, auto determinou-se a se deixar levar também pelo reverso, pelo avesso, pelo fluxo inevitável e induzido, pelo intuído ou até pelo insólito. Esbarra no plano divino e indaga se seria tudo isso o caminho da imagem e semelhança.
 
Com isso, poderia agora ter alternativas de adeus outonais ou em qualquer estação, mas também de chegadas, surpresas, mudanças de direção. Poderia contemplar a si, explodir sua raiva, poderia ensaiar uma insinuante ópera, um líder, poderia desfrutar das constantes andanças. Por que tudo se regenera, mesmo, mesmo num ciclo intermitente, com novas ou mesmas matrizes, com alternativas para ir e vir. Tudo recomeça e tudo acrescenta à essência. E enquanto o que partiu está para sempre. O imprescindível, o movimento iminente, latejante é urgente.
 
Sendo assim ela embarcou na leveza e na simplicidade. Sendo pluma, voo. E conseguiu viver dentro de sua consciência que está entre sua lucidez e o lúdico embriagado. E como uma forma de se render, assim entende.
 
“Trocamos às vezes os dias pela intensidade dos movimentos, momentos, momentos que se convertem em eternidades.”
 

*Pedro Scalon Netto é músico e historiador

 
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por Pedro Scalon Netto

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