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Últimas ararinhas-azuis que estavam soltas na natureza contraíram vírus letal; entenda

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28.11.2025 - 20:51:00

As últimas 11 ararinhas-azuis que viviam livres na natureza foram contaminadas por um vírus letal, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As aves, que estavam em um criadouro especializado na conservação da espécie, em Curuçá, na Bahia, foram recapturadas para testagem, após a suspeita da doença. Todas testaram positivo para o circovírus, segundo o instituto.

A espécie é uma das mais raras do mundo e considerada “criticamente em perigo (possivelmente extinta)” na natureza desde 2020.

O Criadouro Ararinha-Azul diz que todas as ararinhas foram testadas antes de entrar no criadouro e os testes foram negativos para o vírus. As 41 aves que vieram para o País em 2025 passaram por rigoroso controle veterinário na Alemanha e no Brasil e observaram quarentena, sem registro de sintomas. O criadouro contesta a letalidade da doença.

Oriundo da Austrália, o circovírus é o principal causador da doença do bico e das penas em psitacídeos, grupo de aves que inclui araras, papagaios e periquitos. A enfermidade não tem cura e, segundo o ICMBio, mata a ave na maior parte dos casos. Os sintomas incluem a alteração na coloração das penas, falhas no empenamento e deformidades no bico. Este vírus não infecta humanos nem aves de produção.

As aves haviam sido repatriadas da Europa e mantidas no criadouro da Bahia, sendo posteriormente soltas na região em 2022. Segundo o ICMBio, investigações vêm sendo realizadas para identificar a origem do vírus nas ararinhas. O próximo passo é a separação segura entre animais positivos e negativos, para garantir que as medidas de biossegurança sejam incorporadas à rotina de manejo dessas aves.

Criadouro foi multado

Após a detecção de circovírus em uma ararinha-azul, em maio deste ano, o ICMBio instaurou o chamado sistema de comando de incidente para gerenciar a emergência para circovírus, com o objetivo de impedir a disseminação do vírus para outros indivíduos de ararinha-azul e demais psitacídeos da região.

Após várias vistorias técnicas do ICMBio, em parceria com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e a Polícia Federal, foi constatado que os protocolos de biossegurança não estavam sendo seguidos pelo criadouro. Foi feita uma notificação e, após constatação de seu descumprimento, aplicada multa no valor aproximado de R$ 1,8 milhão.

Entre as medidas exigidas, constavam a limpeza e a desinfecção diária das instalações e dos utensílios, incluindo os comedouros onde era fornecida alimentação diária às aves de vida livre, os quais se encontravam extremamente sujos, com acúmulo de fezes ressecadas. Também foi determinada a obrigatoriedade do uso de equipamentos de proteção individual pelos funcionários, após serem flagrados utilizando chinelos, bermuda e camiseta durante o manejo dos animais.

O criadouro, anteriormente identificado como Blue Sky, também foi alvo de operação pelo Inema, sendo autuado em cerca de R$ 300 mil. O criadouro é parceiro da organização alemã Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP, na sigla em inglês), que detém 75% das ararinhas registradas em todo o mundo. A reportagem tenta contato com a ACTP.

A coordenadora de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, Cláudia Sacramento, diz que, se as medidas de biossegurança tivessem sido atendidas de forma correta, a contaminação inicial não teria se espalhado para as 11 aves. “O que a gente espera é que o ambiente não tenha sido comprometido, ameaçando a saúde de todas as espécies de psitacídeos de nossa fauna”, diz.

Acordo foi rompido

De acordo com o ICMBio, houve diversas iniciativas do governo brasileiro para a união de instituições e pessoas potencialmente importantes para a conservação da ararinha-azul. Além de ações relativas à disponibilidade de habitat para a espécie, o manejo em cativeiro é, atualmente, a principal estratégia para conservação da espécie, uma vez que a população sob cuidados humanos é a única viável até o momento.

Em 2019, o ICMBio celebrou um acordo de cooperação técnica com a Associação para Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP) para a transferência de 93 aves que estavam no exterior. Em 2024, o ICMBio encerrou o acordo alegando o descumprimento de compromissos pela entidade.

Entre os fatores que motivaram a não renovação do acordo está a venda e transferência de 26 ararinhas-azuis da Alemanha para a Índia sem o conhecimento ou consentimento do ICMBio. As aves foram destinadas a um mantenedor que não fazia parte do projeto de reintrodução em ambiente natural das ararinhas-azuis.

Segundo o ICMBio, o encerramento do acordo não impede a continuidade das ações de conservação da espécie por parte da ACTP. O instituto diz que elas deverão seguir os instrumentos oficiais de implementação das políticas públicas de conservação da biodiversidade no Brasil: o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul, o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga, e o Programa de Manejo Populacional da Ararinha-Azul, todos coordenados pelo ICMBio.

‘Esforço de décadas para reproduzir’

O Criadouro Ararinha-Azul contesta as afirmações do ICMBio de que houve descumprimento dos protocolos de segurança, incluindo desleixo com a limpeza e desinfecção dos recintos. “Essa afirmativa de desleixo é completamente falsa, jamais trataríamos mal essas aves que fizemos um esforço de décadas para reproduzir e trazer de volta para o Brasil. Chega a ser absurdo esse tipo de alegação”, diz.

Em publicação no site oficial, o Criadouro Ararinha-Azul diz que todas as ararinhas-azuis foram testadas antes de entrar no criadouro e os testes foram negativos para o vírus. “As 41 aves que vieram para o Brasil em 2025 passaram por rigoroso controle veterinário na Alemanha e aqui e observaram quarentena, sem registro de sintomas.”

Segundo o criadouro, o primeiro caso do vírus foi detectado em um filhote nascido na natureza. Como o período de incubação é de 20 a 25 dias, o filhote teve contato com a doença quando as aves estavam na Alemanha ou em Petrolina, antes de entrarem no criadouro. “É sabido que o circovírus de psitacídeos está presente em populações de cativeiro e em centros de resgate e reabilitação do Brasil. Ou seja, (a doença) pode ter origem aqui no Brasil.”

O criadouro afirma ainda que o vírus não tem representado risco para a sobrevivência das ararinhas, e nenhuma morreu. Entretanto, por medida preventiva, o órgão ambiental determinou a captura das aves de vida livre. Esses 11 animais foram capturados no dia 2 de novembro de 2025.

O Ararinha-Azul diz ainda que os órgãos ambientais foram notificados sob a detecção do circovírus e todas as medidas de biossegurança para prevenir a dispersão do vírus para a população foram adotadas. “Esperamos em dezembro informar que o vírus não está mais ativo no criadouro”, diz.

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por Agência Estado

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