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Jane Zanetti (Foto: divulgação)

Trinta e oito milhões de razões para agir agora

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21.05.2026 - 10:00:38

Quando falamos sobre a fauna silvestre brasileira, os números não apenas impressionam, eles escancaram uma tragédia ambiental silenciosa, cotidiana e profundamente cruel. O Brasil, país que abriga uma das maiores biodiversidades do planeta, figura também entre os principais alvos do tráfico mundial de animais. Estima-se que 38 milhões de animais sejam retirados ilegalmente da natureza todos os anos em território nacional. Trinta e oito milhões de vidas arrancadas de seu habitat para alimentar um mercado clandestino bilionário e desumano.

Mas talvez o dado mais brutal esteja no percurso dessa violência: nove em cada 10 animais traficados morrem antes mesmo de chegar ao comprador final. Morrem sufocados, esmagados, desidratados, escondidos em canos de PVC, malas falsas, caixas improvisadas, tratados como mercadoria descartável. O que chega vivo ao destino já chega marcado por trauma físico e psicológico quase irreversíveis.

As aves seguem como as maiores vítimas desse sistema perverso, representando cerca de 80% dos animais traficados no Brasil. Pássaros, papagaios e araras são capturados para abastecer um mercado que ainda romantiza o cárcere como forma de afeto. Logo atrás vêm répteis e primatas, especialmente cobras, lagartos e saguis, cada vez mais visados pelo mercado de animais exóticos e pelo colecionismo ilegal.

Ao mesmo tempo em que animais são retirados da natureza, a natureza também começa a invadir as cidades e isso não é coincidência. Em 2026, intensificou-se o avanço de espécies silvestres sobre áreas urbanas. Saruês, tatus, jiboias, capivaras e até grandes felinos têm sido vistos em condomínios, bairros residenciais e áreas periurbanas. Não porque “resolveram aparecer”, mas porque o desmatamento, as queimadas e a fragmentação de habitat estão expulsando esses animais de casa.

Essa aproximação forçada gera novas camadas de sofrimento: aumento de atropelamentos, ataques de cães domésticos, capturas inadequadas e morte por medo ou desconhecimento da população. O animal silvestre passa a ser tratado como invasor, quando na verdade somos nós que avançamos sobre o território dele.

Nos bastidores dessa crise, os Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) vivem no limite. Superlotados e com estrutura frequentemente insuficiente diante da demanda crescente, esses centros recebem milhares de animais feridos, debilitados e traumatizados. Ainda assim, os dados mostram a dedicação heroica dos profissionais envolvidos: entre 2025 e 2026, cerca de 75% dos animais recebidos pelos centros do Ibama conseguiram retornar à natureza após tratamento e reabilitação. Os demais, infelizmente, ficam com sequelas permanentes, são encaminhados para santuários ou não sobrevivem.

Como se não bastassem os desafios impostos pelo tráfico e pela destruição ambiental, o país ainda enfrenta o crescimento das espécies invasoras, como o javali e o caramujo africano, que ameaçam ecossistemas inteiros ao competir com a fauna nativa e provocar desequilíbrios severos na cadeia ambiental.

Todos esses números convergem para uma conclusão inevitável: estamos diante de uma emergência ecológica que já não pode mais ser tratada como pauta secundária.

O tráfico de animais é hoje o terceiro maior comércio ilegal do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e de armas. Isso significa que combater esse crime não é apenas uma questão de proteção animal, é enfrentar uma engrenagem criminosa altamente lucrativa, estruturada e perigosa.

O Brasil possui legislação ambiental robusta. A Lei de Crimes Ambientais é referência internacional. Mas a distância entre o que está no papel e o que acontece no território ainda é imensa. A fiscalização segue sendo um esforço quase solitário diante da dimensão continental do problema.

Proteger a fauna brasileira não é uma causa de ambientalistas.
É uma responsabilidade civilizatória. Porque quando uma sociedade se acostuma a ver a vida silvestre como mercadoria, perde-se mais do que biodiversidade, perde-se humanidade.

*Jane Zanetti é empresária, presidente da Fundação Jane Zanetti, advogada, há 20 anos atua na causa animal e ambiental. 

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por Jane Zanetti

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