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Vinicius Duarte Lima (Foto: divulgação)

Trabalho e felicidade

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09.05.2026 - 14:07:45

Imagine um final de semana tranquilo numa praia com os amigos mais queridos. O dia termina com um pôr do sol de cores indescritíveis, acompanhado pela sinfonia das ondas e do vento. Uma sensação de paz e completude toma conta de tudo e você percebe que não é o único tocado por aquele momento. As pessoas ao redor também parecem hipnotizadas, levemente conectadas umas às outras por algo invisível. A beleza já não está apenas no cenário, mas em tudo o que vem junto, a alegria, a paz, o amor, a plenitude. Nada sobra, nada falta. Algumas pessoas diriam que esse é um momento de felicidade.

Surgem, então, perguntas importantes: essa felicidade precisa estar restrita em um momento? Por que não a sentir o tempo todo? Por que não carregar essa leveza também para o trabalho e para os deveres cotidianos?

Não é exatamente incomum encontrar pessoas que tenham dificuldade de integrar trabalho a ideia que se tenha de felicidade. Para muitos, esses conceitos pertencem a mundos opostos. E me refiro aqui não apenas ao trabalho como meio de vida, onde se recebe algum pagamento pelo esforço despendido, mas a qualquer trabalho que se necessite realizar, como limpar e organizar um quarto. Se vista dessa forma, essa é uma questão muito importante a ser resolvida. Afinal, de um modo geral, todos queremos ser felizes, mas, por outro lado, viver implica, de uma forma ou de outra, em trabalhar.

Para chegar a uma conclusão sobre essa questão, vale a pena buscar compreender o que é felicidade. E é aqui que teremos um ponto desafiador, pois existem muitas visões sobre isso. E as mais comuns podem nos pregar uma peça. A primeira delas é a ideia de que ser feliz significa não fazer nada, no sentido de se ver livre de deveres e obrigações. Sêneca, em A Brevidade da Vida, já criticava aqueles que passam a existência esperando a aposentadoria para “finalmente viver”. O problema aqui é duplo: por um lado, não há garantia de que esse momento chegará. Por outro lado, adiar a felicidade para o futuro significa empobrecê-la no presente. E isso vale até mesmo, em menor escala, para quem deixa somente para as folgas e ocupação em ser feliz.

A segunda visão associa felicidade à acumulação de bens. Kant já alertava que colocar a felicidade na posse de algo é colocá-la nas mãos das circunstâncias e, portanto, fora do nosso controle. Além disso, quando tudo passa a ser visto como meio para conseguir mais, as relações e as experiências perdem profundidade, pois passam a ser apenas meios para alcançar seus desejos. Tudo deixa de ter valor em si mesmo e, muito menos, de forma permanente.

A terceira visão, por sua vez, busca maximizar o prazer e fugir da dor a qualquer custo. Essa lógica gera ansiedade constante por estímulos (ou fuga deles) e desconexão com o presente. E como aquilo que nos agrada hoje pode não nos agradar amanhã, construir uma vida sobre essa instabilidade é uma aposta arriscada e frágil.

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles investigou exatamente essa questão. Ele conclui que a felicidade genuinamente humana não pode depender de circunstâncias externas. Para ser feliz por si mesmo, esse estado deve ser resultante da atividade da alma direcionada ao desenvolvimento da virtude. A generosidade, a coragem, a bondade, a justiça, entre outras, são valores em si mesmos e colaboram para a realização de nossa própria natureza. Entretanto, essas qualidades não são inatas e necessitam ser cultivadas e praticadas. E o mais fascinante: a simples realização dessas virtudes já é, em si mesma, fonte de felicidade. Cada virtude, por sua natureza, implica servir aos outros. E servir é fazer parte. Como numa grande orquestra, cada músico contribui com sua melodia para uma harmonia que pertence a todos.

É aqui que o conceito de vocação ganha seu sentido mais profundo. A palavra vem do latim vocatio: “chamado”. Não se trata de escolher a profissão certa, mas de compreender como cada um de nós se encaixa no fluxo da vida e contribui para ele. O poeta Khalil Gibran, em O Profeta, capturou essa ideia com precisão rara: “Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição e o labor uma desgraça. Mas eu vos digo que amar a vida através do trabalho é partilhar do segredo mais íntimo da vida.” E conclui com uma das frases mais belas já escritas sobre o tema: “o trabalho é o amor tornado visível”.

Essa frase muda tudo. Se o trabalho é a forma como o amor se manifesta no mundo concreto, então trabalhar com dedicação e cuidado é uma das expressões mais profundas de quem somos. Isso vale para as grandes realizações, mas também para os gestos mais simples: segurar a porta para alguém entrar, lavar a louça sem que ninguém peça, preparar a casa com carinho para receber um amigo. Em cada um desses atos há trabalho e há amor. E nem mesmo depende do resultado da ação e sim da atitude com que se age.

Trabalho e felicidade, portanto, não são opostos. São dois aspectos de uma mesma realidade: a vida vivida com propósito e amor. Quando trabalhamos a partir do que somos, colocando o melhor de nós em cada coisa que fazemos, nos conectamos a nós mesmos, aos outros e a algo maior. Não é preciso esperar o fim de semana, as férias ou a aposentadoria. A felicidade está disponível agora, em cada ação realizada com inteireza. Basta amar a vida através do trabalho.

*Vinicius Duarte Lima é professor voluntário da escola de filosofia Nova Acrópole e professor da Universidade Federal do Pará.

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por Vinicius Duarte

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