Logo

Tiradentes: por que ele é o herói da Inconfidência?

WhatsAppFacebookLinkedInX
18.04.2019 - 17:31:58
 
A Inconfidência Mineira foi o movimento de rebeldia mais importante do Brasil. A afirmação não é minha, mas de Boris Fausto, historiador e membro da Academia Brasileira de Ciências, em sua obra História Concisa do Brasil (2012). O movimento foi eternizado em 21 de abril como Dia de Tiradentes. Porém, mais do que um feriado prolongado, esse é um momento de reflexão sobre a conquista da democracia, hoje estabelecida em nosso país.
 
Para isso, vale lembrar um pouco de sua história. A Inconfidência iniciou-se em 1750, quando a produção de ouro na sociedade mineira entrou em declínio. Mesmo com a situação econômica desfavorável, a Coroa portuguesa continuou cobrando impostos, o que desencadeou inquietações sociais e políticas.
 
Aqueles que resistiam aos ideais portugueses passaram a ser conhecidos como inconfidentes. O grupo era formado por membros da elite colonial – mineradores, fazendeiros, padres, funcionários, advogados de prestígio e uma alta patente militar. Entre eles estava José Joaquim da Silva Xavier, uma exceção entre os inconfidentes, pois ficou órfão e não recebeu heranças de seus pais.
 
Ele e seus irmãos tentaram trabalhar, sem sucesso, com comércio. Em 1775, José Joaquim entrou para a carreira militar, no posto de alferes, correspondente ao grau inicial do quadro de oficiais. Nas horas vagas exercia o ofício de dentista, de onde surgiu o apelido um tanto depreciativo: Tiradentes.
 
A partir de 1782, com a mudança política em Minas Gerais, José Joaquim perdeu o comando do destacamento militar que patrulhava a estratégica estrada da Serra da Mantiqueira, porta de entrada para as minas. Em meio à tentativa de impedir a cobrança de impostos atrasados por parte da Coroa portuguesa, chamada de Derrama, os inconfidentes começaram a se preparar para o movimento de rebeldia nos últimos meses de 1788.
 
Porém, em março de 1789, o visconde Barbacena suspendeu a Derrama e os conspiradores passaram a ser denunciados e presos. Tiradentes recebeu uma punição diferente. Enquanto os outros eram expulsos do país, após apelos de clemência, ele foi enforcado na presença da tropa e da população, em meio a discursos de aclamação à rainha de Portugal. Em seguida, seu corpo foi desmembrado e sua cabeça foi exibida na praça principal da cidade de Ouro Preto.
 
Sua figura foi esquecida pela monarquia como traidor da pátria portuguesa. Apenas com o início da república brasileira, em 1889, com os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, Tiradentes foi elevado à condição de herói brasileiro e figura hoje como patrono das polícias militares do Brasil.
 
Ao defender juntamente com os demais inconfidentes os ideais republicanos, inspirados no modelo constitucional dos Estados Unidos, cumpriu de forma exemplar a pena dada aos traidores dos ideais da monarquia portuguesa. Ao assumir a culpa pelos supostos crimes cometidos, Tiradentes propicia um exemplo de luta pelos ideais dos mais nobres, como é caso da defesa de uma república constitucional perante uma monarquia absolutista.
 
Enfatiza-se ainda a questão de que o alferes, advindo de família sem muitas posses, não possuía à época de seu julgamento quem olvidasse sua clemência junto à Coroa portuguesa. Como militar e preso a juramentos de fidelidade perante a Coroa portuguesa, a sentença de traição lhe foi atribuída de forma raciocinada.
 
Assim, esse episódio histórico do Brasil, longe de ser visto apenas como mais um feriado prolongado, há de ser um momento de reflexão sobre a importância da conquista da democracia, hoje consolidada em nosso país. E esse feito se deu graças a heróis como Tiradentes que, segundo Boris Fausto, é “cultuado como mártir não só pela direita e pela esquerda, como pelo povo da rua”.
 

*Gerson Luiz Buczenko é historiador, pedagogo e professor de Direitos Humanos e Cidadania no Centro Universitário Internacional Uninter 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gerson Luiz Buczenko

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]