A exposição do artista vilaboense Siron Franco, que acontece neste momento na Vila Cultural Cora Coralina, é de encher os olhos.
Pela sua variedade temática e pela sua extensão cronológica (1960 a 2025), ela vale muito mais que as demais exposições eventuais do artista (invariavelmente com número reduzido de obras e restritas a fases específicas).
E até vale mais que suas duas pungentes participações na Bienal de São Paulo (1974 e 75, com prêmio de pintor nacional e prêmio internacional), que provocou furor no cenário das artes visuais e o consagrou como um dos mais importantes artistas brasileiros daquele momento longínquo do século passado.
A mostra na Vila Coralina foi prorrogada e segue até dia 30 de julho próximo, concebida por Leopoldo Veiga Jardim e curada por Agnaldo Coelho. O nome “Expressões” reflete bem o que vemos, pois ela não quer se ater a nenhum discurso de afinidades ou, como acontece mais comumente, à uma narrativa obediente a recortes.
Pelo contrário, a constatação inicial é que aceita-se de tudo, desde que obras condizentes com a complexidade da persona do artista, que se sobressai como o grande tema da exposição.
Em seus ambientes demarcados com sutileza pelo controle fino da luminosidade (ponto alto da boa expografia), estão cuidadosamente dispostas diversas pistas e portas de entrada para o artista ele mesmo. Sem dúvida, sua pequena estatura anatômica não convence; o baixinho é um gigante. Ele se projeta entre correntes (literalmente presentes como artifício expositivo) para além da carne e do osso.
Mais que as pinturas dispostas harmoniosamente, a apresentação precária de páginas de jornais, pôsteres e capas de revistas antigas ajudam a debelar a névoa que habitualmente distancia e sacraliza o artista que está por trás de tudo isso.
Momentos caóticos -como os guiados pela frágil banalidade dos excertos de manequins de fibra- convivem com sínteses refinadas, que é uma das marcas do artista.
Entre uma e outra da centena de pequenas e médias telas desta mostra, o que chama mais atenção não é o fato pictórico, mas à tensão criativa que se mantém de obra a obra na mesma intensidade, orquestrada pelas mãos do artista enquanto pintor.
Soa alto sua capacidade de verter flagrantes do cotidiano diretamente para suas criações. É uma habilidade que se nota ao longo de toda sua carreira.
Nota-se, também, que na sua produção, da mais remota às atuais, as genialidades capturadas em algumas criações não são incomodadas pelas obviedades presentes em outras, hajam vistas as fusões simplistas da anatomia humana à dos bichos e as referências anedóticas às posturas e trajes sociais.

Nos retratos, a repetição dos recursos de manchas superpostas acontece em demasia, o mesmo com as rupturas alcançadas pelos sulcos na tela, lhe devolvendo o branco inicial. Ainda que, algumas vezes, funcionam como pequenos detalhes com o poder de redefinir toda a obra.
Duas das mais fortes pinturas presentes nesta mostra são a que o artista criou em evidentes homenagens. À Guernica de Pablo Picasso, um painel com abecedário completo da violência e crueldade bélicas, estimado em R$1.6mi; e a maior de todas elas, uma enormidade de tamanho retratando uma minúscula embarcação de possíveis emigrantes sobre o vasto oceano sem fim, como sugere as bordas infinitas da tela, deixando implicitamente na atmosfera uma alusão ao comentarista grafiteiro britânico Banksy.
Embora timidamente apresentadas, no balanço geral da mostra destaca-se o histórico das intervenções e instalações em praças públicas, com destaque para o Monumento às Nações Indígenas (construído em alusão aos 500 anos do país que ocupou suas terras), hoje totalmente destruído, ostentando duas tentativas malogradas de reconstrução.
São elas, as intervenções e instalações, que lhe dão um diferencial não encontrado em nenhum outro artista contemporâneo brasileiro. Elas o fazem expandir as paredes do seu ateliê até o outro lado da rua e escapar do centrismo de atuação, como que estirando o umbigo de suas expressões.
Em termos da sempre requisitada presença do artista na sociedade e dos questionamentos sobre a função da arte, essas interferências na ordem pública trazem uma bem-vinda carga de estranheza e outorgam à arte de Siron um tom maior, ao expor para o mundo suas vísceras cerebrais.
Mas em se tratando de Siron Franco, dúvidas e esquivas são esperadas e todo cuidado é pouco ao tentar se aproximar. Ele próprio se entende assim e não dissimula suas contradições de ser complexo, daí a sua contribuição invejada por outros criadores. “Eu sou um processo, como pessoa e como artista”, confessa ele sem ter medo de se ajoelhar no milho da crítica e pagar penitências à coerência.
Se é nas artes que suas expressões se afirmam, porém, suas habilidades proativas o credenciariam a ter sucesso em qualquer ramo de atividade que não caiba a IA.
Criatividade não lhe falta, poder de observação, tampouco. A disposição para o trabalho lhe está sempre presente, junto com o talento e a ousadia. São atributos que fariam qualquer um se diferenciar positivamente, não importando a área de atuação.
Certa vez, ainda na década de 1980, tendo eu com Betúlia Machado publicado um livro com, absolutamente, todos os artistas contemporâneos então atuantes na cena goiana (Arte Hoje, o processo em Goiás visto por dentro. Editora Marco Zero – Rio de Janeiro, 1985), ao mostrar as obras, página por página, ao Pietro Maria Bardi, curador do acervo e criador diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), ele se deteve especialmente na do Siron e falou apontando o dedo: “Excelente propagandista”.
Sem saber, o mestre italiano coincidia, a mil quilômetros dali, com o publicitário Ailso Brás Corrêa, dono da AB Corrêa, agência de destaque em Goiânia, que costumava dizer aos quatro ventos: “Se Siron fosse publicitário eu estaria fodido”, se referindo a uma impossível concorrência avassaladora.
“A arte é meu grande rio”, calmamente Siron vai passando para os que ficam na margem e indica aos incrédulos a sua escolha, por aprendizado e, inegavelmente, por vocação, respondendo com seu trabalho em moto-contínuo.
Então, com tantos elementos a seu favor, haveria algum outro motivo por trás do fato de Siron não obter nacionalmente o reconhecimento maior que lhe julgamos merecer? Por que não figura ele entre os principais artistas quando de listagens ocasionais estampadas por críticos e curadores em vetustos veículos de comunicação? Seriam estas listagens confiáveis ou seriam elas construídas a partir de aproximações afetivas aleatórias a que o Siron não mais se curvaria?
Seria ingênuo de nossa parte querer ver as grandes capitais culturais do país se renderem à sua genialidade, sem com isso nós mesmos demonstrarmos que agimos de forma culturalmente submissa e dependentes da aprovação do outro?
Por quê, por exemplo, sua obra não está em Inhotim, o principal centro de artes da América Latina na atualidade, ou sequer ela é correspondida na frequência à sua altura e trazida à tona pelos grandes museus do país?
Onde está o ponto de virada? Seria essa a paga pelo artista ter mantido um “pé local” durante toda sua carreira, ao invés de se lançar por outras terras atravessando pontes e cortando o fio umbilical com o interior segregado?
Pois foi exatamente isso o que arriscou fazer, por exemplo, a anglo-cerratense Ana Maria Pacheco, que hoje vive no limbo entre dois reconhecimentos sem ter devidamente nenhum deles, que é a paga por se tornar estrangeira também em seu torrão natal.
Pois Siron é, e Siron não é. A credibilidade final que lhe falta é sua motriz para chegar lá. E vai. Ele tem a vantagem de se apaixonar facilmente por olho de furação e estar sempre vigilante, pronto para o enxerto em suas telas e outras obras.
Seu perdão por ser um artista humano e falível é deixar pistas, como um suposto delinquente cujo verdadeiro desejo é de se comunicar com os seres seus iguais e se tornar o principal alvo das atenções.
Para isso, empregando tudo de si, da noite para o dia ele é capaz de lutar convenientemente contra o mal apontado pela mídia de véspera ou pressentido por suas antenas antecipatórias, desde que sob holofotes bem focados e que devem estar programados para acender com toda discrição.
Daí surgem suas ocupações abordadas pelo ofício: o césio, os povos indígenas, a devastação da natureza, a matança de animais e as violências infantil e contra a mulher, entremeadas por achados estéticos, como as madonas, que descobriu com frei Confaloni, as venezianas e a pele dos bichos.
É nestas pistas para se compreender o artista por inteiro que nos deparamos com a obra que poderíamos tratar como um seu fidedigno autorretrato, mesmo que realizado involuntariamente, talvez. Vejamos.
Estamos na exposição e ele nos chama para observar mais de perto esta sua obra, como se quisesse testar o olhar do outro mostrando em público a arma do crime. É uma obra sem título. Com o sangue frio lhe escorrendo por dentro, Siron parece gostar de correr o risco de ter desvendada a pista que ele nos deixa por gratidão e renovação do seu desafio de continuar no pedestal de artista e nunca ser desmascarado. Essa é a sua genialidade; a permanente e oculta ousadia de ser ou não, se equilibrando entre a fantasia e a verdade.
E, então, com gestos contidos, ele aponta abrindo ambos os braços para essa obra que é a instalação de um pequeno armário do qual vão caindo máscaras aos borbotões até ao chão, onde uma dourada se distingue das demais.
Lembro-me de imediato de sua fala em ocasião anterior: “Na universidade onde fui muito garoto ainda, eles falavam que eu não tinha personalidade, porque todo dia pintava uma coisa diferente. Eles não estavam errados. Descobri que tenho múltiplas personalidades”.
Sim, Siron. Estão aí retratadas nesta sua obra as várias máscaras de sua persona, que as tira do armário, utiliza e guarda, conforme a ocasião, a necessidade ou a simples vontade.
Surpreso? Não. Ele já havia respondido, prevenindo a constatação: “Eu gosto de tudo. Acho que tudo pode virar arte. Depende do seu olhar. Eu entendi que isso (ser múltiplo) é ter um cérebro mais amplo. É ampliar a capacidade cerebral para a criação”.
As máscaras vão caindo e, ao chão, junto às tantas utilizadas e já puídas, aquela que é a sua redenção, a de ouro, única que não é oca, a que faz brilhar a fé e futuro de um homem falível, normal como todos nós também mascarados, que reconhecemos a presença de um grande artista.
Por fim, dizer que é praxe do mercado das artes o artista ou seu representante encomendar textos a críticos e curadores para compor seus catálogos de exposição, sem exceções. Eles e elas, os escribas, embolsam um valor razoável pelo serviço prestado e, tacitamente, assumem a posição de realçar o que é desejável e deixar de lado os aspectos menos felizes daquele artista e sua obra. Este texto torto e barato foge a essa lógica. Não hesita em elogiar ou desagradar. E lhe vai de graça, como todas as coisas boas da vida.
* Px Silveira é curador residente do Instituto Biapó, biógrafo, produtor cultural e diretor presidente do Instituto ArteCidadania, que faz a gestão dos projetos incentivados do Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) e implementa o Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, Espírito Santo. É autor dos livros Conhecer Confaloni (prêmio PUC-GO), Poteiro na Primeira Pessoa e Robin MacGregor, um artista lorde inglês em Goiás, entre outros. Em parceria com IA elabora o livro Sim, Siron – Não, Siron

O Título pode ser torto e barato, mas o o texto é magnífico. Fez um panorama histórico da obra e personalidade do artista,perfeito!! Parabéns, Px !
Sempre que alguém menciona o monumento às Nações indígenas… indignação e revolta a ignorância realçam em minha alma. Uma das coisas mais belas que conheci foi este monumento…
O Título pode ser torto e barato, mas o o texto é magnífico. Fez um panorama histórico da obra e personalidade do artista,perfeito!! Parabéns, Px !
Sempre que alguém menciona o monumento às Nações indígenas… indignação e revolta a ignorância realçam em minha alma. Uma das coisas mais belas que conheci foi este monumento…
Que texto Magnífico, próprio de quem conhece Siron e sua Criativa Obra há mais de 50 anos; desde as primeiras Exposições, tendo acompanhado o Artista por diversas incursões, agora nos apresenta um texto que descreve Siron por Completo! Parabéns Irmão!!!
A minha compreensão é limitada para entender esse texto do Px, mas acredito que já seria tempo pra gente superar o complexo de que estamos sempre as margens do mundo “civilizado”; é bem verdade que as estranhezas no mundo contemporâneo são disseminadas instantaneamente na rede cibernética, e tudo parece estar nivelado por baixo, horizontal, e sem tréguas 🤣😭; a arte obviamente pressente, ressente e ate é capaz de antecipar esses comportamentos humanos, e nós homo cerratenses estamos contidos nesse contexto global contemporâneo…
Acredito sinceramente que aquilo que em arte, convencionamos a chamar de”internacional”, em um certo momento foi “local” em algum canto do planeta, só que foi exportado para outras paragens pelo poder político e pecuniário.
Essa exposição do Siron, em meu ver poderia estar em qualquer lugar do mundo que seria observada com atenção e interesse cultural…
Aqui também pode ser o “centro do mundo” 🌎, temos que propagar isso, assim nos faremos grandes, o Siron contribui e muito para isso. Ah, a artista Ana Maria Pacheco, aqui citada no texto em questão, de fato “destribalizada”, autoexilada na Inglaterra, está suspensa, e gravita de forma discreta entre duas nacionalidades, mas, talvez se tivesse ficado aqui, sua obra poderia ter tido menos alcance do que ela tem hoje, por vários motivos,e um deles (talvez) seria uma certa associação feita por aqui – que em meu ver não procede, de que sua obra tenha semelhanças com a obra sironiana.
Abraço fraterno 🌞
Magnífico texto, PX Silveira.
Com a delicadeza de quem ilumina uma catedral por dentro, você percorre os corredores da obra de Siron Franco e revela ao leitor não apenas o artista, mas as muitas marés que habitam sua alma criadora. Seu olhar atravessa as tintas, as formas e os silêncios, alcançando as raízes profundas de uma trajetória que se confunde com a própria paisagem da arte brasileira.
Ao visitar a exposição “Expressões”, sua escrita não se limita a descrever quadros e instalações; ela abre janelas. E por elas vemos desfilar décadas de inquietações, sonhos, denúncias, encantamentos e metamorfoses que fizeram de Siron uma das vozes mais singulares de nossa cultura visual.
No trecho das máscaras, seu texto ganha a força de um espelho diante de outro espelho. Cada máscara que cai do armário parece libertar um fragmento de verdade, revelando um artista múltiplo como um rio de muitas nascentes, impossível de conter em uma única margem. Ali, a obra deixa de ser apenas objeto e passa a respirar como um autorretrato involuntário, tecido entre sombras e claridades.
O mais admirável é que sua pena caminha sem coleiras. Elogia quando o mérito floresce, questiona quando a reflexão se impõe. Como um garimpeiro de sentidos, você não se contenta com o brilho da superfície: escava, encontra veios ocultos e os oferece ao leitor com elegância e honestidade.
O resultado é um texto que permanece aceso depois da leitura, como brasa sob a cinza, convidando-nos a revisitar Siron e também a revisitar a nós mesmos, todos igualmente colecionadores de máscaras, dúvidas e esperanças.
Parabéns por transformar crítica em literatura e observação em poesia.👏👏