Nos últimos dez anos, o Brasil saiu da 14ª para a 2ª maior reserva mundial de terras raras, resultado de descobertas realizadas por geólogos brasileiros com apoio de capital estrangeiro, em uma das etapas mais arriscadas da mineração: a pesquisa mineral.
A descoberta mineral é o primeiro grande desafio do setor. Trata-se de uma atividade de alto risco, que exige conhecimento técnico, investimento e muitos anos de trabalho até que um projeto se torne viável economicamente.
Superada essa etapa, com importantes descobertas realizadas principalmente em Goiás, Minas Gerais e Bahia, o Brasil agora entra em uma nova fase: a implantação das minas e o início da produção dos concentrados minerais de terras raras. Essa é uma etapa que demanda investimentos muito elevados. Cada mina exige, em média, cerca de US$ 500 milhões para implantação e operação.
O Brasil já iniciou esse processo. Goiás possui hoje a primeira mina de terras raras em operação no país, a Serra Verde, em Minaçu. Outros projetos estão em desenvolvimento e implantação, como a Aclara, em Goiás, além da Meteoric e da Viridis, em Minas Gerais.
O potencial brasileiro é significativo. O país pode implantar entre seis e dez projetos de produção de concentrados de terras raras nos próximos anos, tornando-se um dos principais e mais consistentes fornecedores desse insumo industrial. Isso representa investimentos estimados entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões, geração de mais de 10 mil empregos diretos, arrecadação de impostos e interiorização do desenvolvimento.
Mas é importante compreender que a mineração representa apenas a primeira etapa da cadeia produtiva.
O produto gerado pelas minas é o concentrado mineral de terras raras. Esse concentrado reúne os 17 elementos químicos conhecidos como terras raras, em proporções variáveis de acordo com o minério e o processo de concentração.
A etapa seguinte é a separação desses elementos para uso industrial, especialmente daqueles destinados à fabricação de ímãs permanentes de alta eficiência, fundamentais para diversas tecnologias. E é justamente nesse ponto que está o principal desafio brasileiro.
Hoje, o Brasil ainda não possui plantas industriais de separação de terras raras. Essas indústrias serão as futuras clientes das mineradoras. Fora da China, existem poucas unidades desse tipo em operação. Cada planta industrial exige investimentos entre US$ 250 milhões e US$ 350 milhões.
Neste momento, a produção mineral brasileira tende a ser destinada ao mercado externo. Atualmente, a China é o principal comprador estruturado desse mercado. Em breve, os Estados Unidos também devem se tornar compradores relevantes dentro do movimento internacional de diversificação das cadeias de suprimento.
Diante desse cenário, a discussão sobre terras raras exige visão estratégica.
A prioridade do Brasil deve ser fomentar a mineração para aproveitar plenamente o potencial mineral já descoberto e consolidar o país como fornecedor relevante de concentrados de terras raras.
Ao mesmo tempo, o país precisa criar condições para atrair indústrias de separação para o território nacional, inclusive com participação de empresas estrangeiras em uma etapa inicial, enquanto desenvolve sua própria capacidade tecnológica e industrial.
A industrialização nacional depende de capital, tecnologia, política pública e participação empresarial. Esse movimento já começou no Brasil com iniciativas como a MagBras, uma cooperação tecnológica que reúne mineradoras, centros de pesquisa, indústria e empresas consumidoras de ímãs, com o objetivo de desenvolver toda a cadeia nacional de terras raras, do concentrado mineral até a fabricação de ímãs.
O Brasil possui uma oportunidade concreta de desenvolver uma cadeia produtiva relevante nesse setor. Mas isso exige planejamento, continuidade e políticas públicas capazes de fortalecer tanto a mineração quanto as etapas industriais associadas às terras raras.
*Luiz Antônio Vessani é presidente do Minde (Sindicato da Indústria da Mineração dos Estados de Goiás e do Distrito Federal)
