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Sul

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18.12.2024 - 07:37:27

Enquanto você me lê, eu estarei na estrada, que é onde nasci e o que sou: esse ser híbrido, sempre entre, nunca em, sempre a caminho, sem nunca ter partido e jamais chegar. Vou seguindo, metro a metro, sem vencer o paradoxo de que, para chegar ao próximo ponto, é preciso cruzar metade da distância, e a metade da metade ad infinitum.
 
Sou nadador. Mas meu lugar é o meio do rio, onde surge uma terceira margem a que me agarro. Já não sou a margem de onde saltei, mas nunca serei o barranco do outro lado.
 
Meu lugar é a encruzilhada. Nasci Exu. Com asas nos pés, tornei-me Mercúrio, mensageiro, carteiro, arauto. Trago boas e más notícias. Uno extremos, ligo pontos, provoco curtos-circuitos. 
 
Voo como pássaro, ambiciono ser avião, satélite, ciborgue alado, que vê tudo do alto e traz relatos. 
 
Sou pajé, xamã, macumbeiro. Sou o passe do jogador, o arremesso do lanceiro, a pedra que dispara, a bala que fura o ar.
 
Carrego um megafone para falar do mundo, anunciá-lo para que exista. Juntem-se, pessoas. Trago a palavra de lugares distantes. Tolamente, falo do mistério. 
 
Eu estive lá, para além das planícies infindáveis. Vi desertos e, mais adiante, as veneráveis montanhas, gritos de pedra e gelo. Tive notícias dos seres que as habitam e falam uma língua cujo tempo é outro e, por isso, insondável para nossos ouvidos apressados. Contemplei lagoas cristalinas onde nadavam pássaros, olhei o céu mais azul em que voavam peixes coloridos.
 
Cheguei à beira do mundo e pude ver os precipícios, os mares bravios e os fiordes. O vento frio nos sacudia. Quando vieram as tempestades, nos abrigamos sob as mais antigas árvores.
 
Ouvi o canto grave de povos cansados que habitam as cordilheiras açoitadas pela neve. Comi seu pão aziago e bebi do seu chá que sabia a terra molhada.
 
Enquanto a tempestade se batia contra as paredes da cabana, escutei histórias de mulheres e homens ainda mais antigos e de como o mundo acabara e se refizera inúmeras vezes, mas de como aquele lugar se mantivera inalterado e, por isso, guardava histórias de todas as eras.
 
Cheguei a portos anciões, por onde partem todos aqueles que jamais regressam. Ouvi a tuba que anuncia os cortejos solenes que chegam de toda parte, observei as hordas vestidas de branco, os homens barbados e as mulheres grisalhas.
 
Sob a chuva fina, acompanhei seu embarque e vi as velas se inflarem. Acompanhei seus barcos prateados cortando as ondas e se perdendo na bruma do mar cinzento. Ouvi seus suspiros de alívio.
 
Quando a frota desapareceu no horizonte, fazia sol, mas a chuva tornou a cair grossa, a bruma se desfez e o mar se acalmou tranquilizado.
 
Volto ao Sul, como se volta sempre ao amor. Volto a você, com meu desejo, com meu temor. Levo o Sul como um destino do coração, sou do Sul, como os ares do bandoneón.
 
 
 
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por Adriana Marinelli

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