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Sonhos para a velhice

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02.10.2014 - 13:57:37
Goiânia – Você percebe que está velho quando começa a sonhar mais com a aposentadoria do que com a próxima balada ou aquela gata que lhe dá um baita mole. A tradicional pergunta “o que você vai ser quando você crescer?” é substituída pelo “o que você vai fazer quando se aposentar?”. É nesse estado senil que orgulhosamente me encontro. Sonhando com a aposentadoria.
 
Como em todo esquema de longo prazo, o acaso é fator preponderante. De nada vão adiantar os planos de agora se um AVC tolher os sonhos no meio do caminho e me deixar tristemente acamado até o fim dos meus dias. Faz parte. Vicente Matheus já nos ensinou que quem está na chuva é para se queimar. Como nos sonhos trabalhamos no cenário ideal, deixo a cabeça fluir sem restrições de ordem prática.
 
Cada dia penso uma coisa. Cada semana um local diferente. Se tem gente que joga na Mega-Sena só pelo direito de sonhar, eu faço diferente. Não gasto nem um real com a jogatina oficial da Caixa Econômica Federal. Sei fazer melhor uso desse dinheiro. Com pinga.
 
Compro meu direito de sonhar de outra forma. Pago uma previdência privada que, somada ao que é confiscado mensalmente pelo INSS do meu salário, pretendo garantir uma velhice tranquila. Como Cazuza dizia, perdendo a esperança com meus bichinhos de estimação e plantas. Já terei vivido tudo e com a ciência de que a vida é bela.
 
Contudo, não passa pela minha cabeça ficar sem trabalhar. Trabalhar não. Essa palavra é muito forte. Sem atividade seria mais preciso. O que almejo é ficar sem obrigação. Trabalhar só com aquilo que me motiva. Sem encheção de saco, sem reuniões prolixas, sem conversas com gente chata, sem compromisso de terminar nada que não queira.
 
Se tiver cansado do projeto, largarei. Se tiver com preguiça, não irei. Se tiver que fazer média com imbecis, faltarei. Se achar alguém sacal, direi.
 
Sei que não serei a pessoa mais agradável do mundo. Ok, é exatamente essa a minha ambição.
 
Sempre sonhei morar no litoral. Em uma cidade pequena mas próxima a uma capital, com uma casa na beira do mar. De preferência no Nordeste, para não sofrer com frio e nem com dias nublados. Por outro lado, uma cidade histórica em um belo casarão como os de Goiás Velho também não é má ideia. Mas hoje acho a hipótese de dar bom dia ao Atlântico até morrer mais sedutora.
 
Como atividade, já pensei montar um restaurante sem cardápio. O prato do dia seria aquele que eu quisesse cozinhar, o que encontrasse fresco na feira. Se tivesse com preguiça, não abriria. Funcionaria da forma que meu ritmo ditasse. Mas não sei se quero isso. Pode ser muito trabalhoso.
 
Atualmente, a ideia de montar um sebo com os livros, revistas, discos, CDs, gibis e DVDs que acumulei vida afora me atrai. Conversar com gente interessada em cultura me parece mais interessante do que conversar com gente com fome. Só não sei se até lá ainda existirá gente interessada nesse tipo de quinquilharia.
 
Enquanto o que faz alguns levantarem da cama é a sede por poder e grana, eu só cedo ao despertador pois tenho que garantir esses dias tranquilos na velhice. Adaptando o que Raul Seixas nos ensinou, o meu hedonismo é tão hedonista que o auge do meu hedonismo é querer trabalhar. É assim que levo a vida.
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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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