Passei os últimos dias no nordeste do Pará, eixo da BR-153, entre Belém e Paragominas, numa viagem de campo para um projeto da Universidade Federal de Goiás, com o objetivo de conhecer mais de perto a dinâmica e os desafios da pecuária bovina na Amazônia. Estamos desenvolvendo, dentro do Lapig, o Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento da UFG, um serviço chamado “Pasto Legal”, que une inteligência artificial e grandes bases de dados territoriais, para fomentar a recuperação de pastagens degradadas e a intensificação produtiva.
A ida ao campo sempre nos esfrega na cara um paradoxo estruturante do conhecimento: apesar de voltarmos tendo aprendido muito, temos a sensação de estar mais ignorantes. O contato com a realidade, por mais que conheçamos o mundo, sempre nos confronta com o quanto nossas explicações são parciais, nossos modelos, limitados, e nossas sofisticadas teorias, simplificações ingênuas do mundo.
Conhecer implica sempre esse duplo movimento: fazer afirmações cada vez mais precisas sobre a realidade, mas, ao mesmo tempo, situar essas afirmações de maneira mais correta, tornando-as menos abrangentes porque mapeamos igualmente, com mais clareza, aquilo que não sabemos. Expandir o conhecimento é sempre também expandir aquilo que sabemos que não sabemos. Sem esquecer que, para além desses dois círculos, há ainda tudo aquilo que nem sabemos que não sabemos.
Na Alegoria da Caverna de Platão, que fala da importância do conhecimento para afastar-nos das mistificações, os seres humanos estão presos no interior de uma gruta, tomando as sombras projetadas pelo fogo na parede como a realidade. O sábio os guia para o lado de fora e mostra-lhes a luz do sol e o mundo real.
Ironicamente, na ciência, muitas vezes, a sofisticação e o impacto de nossas representações e modelos da realidade trazem o risco de cairmos numa autossuficiência que nos leva de volta para dentro da caverna, tomando nossas ideias novamente como a realidade em si.
Fronteiras econômicas, como a dessa região do Pará, são um exemplo perfeito do delírio que é pretender falar sobre uma realidade de forma completamente desconectada dela, tomando nossas ideias como mais valiosas que essa realidade.
Quase todas as certezas proferidas com arrogância sobre a Amazônia e seu futuro — seja nas altas esferas políticas ou nas mesas de bar — viram pó em dez minutos de contato com a fronteira. As caricaturas que fazemos dos agentes políticos e econômicos, tentando reduzir a complexa teia de relações sociais a um melodrama de vilões e vítimas, não se sustentam. Ideias sobre a natureza, provedora ou impiedosa, soam ridículas quando se percebe o profundo imbricamento e a inseparabilidade entre o natural e o social. Soluções trazidas de fora — seja para produzir ou preservar — são quase sempre trituradas pelo ambiente tropical e pelo contexto de profunda vulnerabilidade social de grande parte da população.
Precisamos urgentemente de programas de estágio nas fronteiras econômicas para o militante político e para o cientista de laboratório. Se resistirem ao calor e à umidade no primeiro dia, um segundo dia de exposição pode, quem sabe, começar a instilar a necessária humildade para uma relação fértil de produção de conhecimento ou trabalho político.
Na verdade, o aprendizado mais rico e básico que se pode extrair é exatamente o de que não é possível separar produção de conhecimento de trabalho político — não dá para falar em “ou fazemos ciência ou política”. A fronteira evidencia como o próprio conhecimento se estrutura como uma complexa rede de alianças que não são simplesmente um contexto para ele, mas sua própria substância.
O Pasto Legal parte do pressuposto de que, em meio à gritaria política e à polarização, há uma grande oportunidade de convergência entre pecuária e meio ambiente em que todos podem sair ganhando. A pecuária é hoje o principal vetor do desmatamento no Brasil, mas opera em um regime de baixíssima produtividade. Muitos estudos mostram que, com ganhos pequenos de eficiência, pode ser possível aumentar significativamente a produção de carne sem ocupar novas áreas. Mais especificamente, um estudo do Lapig e da The Nature Conservancy (TNC) aponta que um ganho de apenas 14% de produtividade na pecuária brasileira, possível com recuperação de pastagens degradadas e manejo mais eficiente, poderia gerar esse aumento de produção sem novos desmatamentos.
Mas transformar essa possibilidade em realidade demanda a produção de um conhecimento prático que exige envolver desde o início toda a complexa rede social e técnica da pecuária na Amazônia e no Cerrado. Não é que o conhecimento já exista e seja necessário simplesmente “repassá-lo” aos pecuaristas — essa é a visão ruim dos cientistas levando a luz aos produtores presos na caverna. O desafio é muito maior: produzir um novo conhecimento que se aproveita daquele que já temos sobre técnicas de manejo, sobre o que é um pasto degradado, sobre como o mercado influencia as decisões dos criadores. Trata-se de ampliar o campo do possível e gerar uma nova realidade, fruto desse conhecimento incorporado em pecuaristas, técnicos, cientistas e políticos.
Não há sábios guiando ignorantes para fora da gruta. A saída da gruta é sempre a formação de uma aliança que torna possível reconfigurar o real e ampliar o horizonte do possível — da caverna para paisagens sempre mais amplas.
Para nós, cientistas, isso impõe compreender esse paradoxo básico do conhecimento, de que conhecer mais é também saber menos — para dele extrairmos a profunda humildade necessária para buscar continuamente o real, lutando contra o magnetismo do laboratório, da teoria e dos modelos. Demanda o esforço de abandonarmos visões pré-concebidas para uma escuta verdadeira, compreendendo que a ciência não revela o mundo, mas o coconstrói em meio ao turbilhão do real.

concordo com vc
a realidade é sempre muitíssimo mais complexa do que nos livros
achei muito boa a sugestao do estagio no local. só lá pra poder entender
a natureza nos mostra suas leis todos os dias e continuamos a resistir sentados no trono do saber. mais humildade e menos arrogância se impõe pra quem quiser ajudar.