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Sobre Natal, livros e livrarias

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22.12.2018 - 08:41:12

Sexta-feira, Natal logo ali. Adiei as compras o quanto pude. O tempo gasto para fazer o dinheiro que vai alimentar o garoto-propaganda da Coca-Cola não deixa espaço para muita coisa. Então, com o dead line batendo na porta, tive que ir ao shopping. Neste caso particular, o Flamboyant, reputado como mais antigo da terra do arroz com pequi.
 
Nunca gostei de shopping center. O que me atrai até eles, invariavelmente, são as livrarias – e, no passado, um outro tipo de comércio que os mais jovens talvez sequer suspeitem da existência pregressa: as lojas de disco. De modo que foi melancólico ver um tapume branco cobrindo o que antes eram as portas da Fnac. 
 
Subi ao terceiro piso para dar uma conferida na Saraiva. Caída. Se pensarmos que este é o período de maiores vendas no ano, as perspectivas não são muito promissoras. Perguntei pra atendente do café como ela via o futuro da loja. Me explicou que somente aquelas que não estavam atingindo um faturamento xis seriam fechadas, mas que a do Flamboyant seguia firme. Sei.
 
Me lembrei de quando as grandes redes de livraria chegaram a Goiânia. Alvoroço. O efeito colateral veio rápido: as livrarias menores, locais, tradicionais, fecharam suas portas. Neoliberalismo é isso aí: o mais forte devora o mais fraco. Há quem ache bonito.
 
As grandes redes – Fnac, Saraiva, Cultura e outras poucas – estabeleceram uma política questionável com autores, editores e outros membros da cadeia produtiva do livro. Não sei se você sabe, mas no Brasil, o autor fica com aproximadamente 7% do preço de capa. Cerca de 43% bancam todos os custos e profissionais envolvidos na produção: gráfica, tradutor, arte-finalista, transporte, editor, etc, etc, etc. E a loja, bonitona que só ela, vai lá e morde 50%. E só paga a editora depois de três meses sobre as vendas (já que os livros são consignados). Ou melhor, pagava.
 
Com a crise que se abateu sobre o mercado livreiro, há tempos as grandes redes estão dando o calote nas editoras. Principalmente nas pequenas. A proposta da Cultura para acertar com as casas publicadoras é mais ou menos a seguinte: deságio de 40% da dívida, prazo de até 12 anos para pagá-la (sem juros e sem data determinada para o início do pagamento) e priorização daquelas que continuarem fornecendo livros em consignação. Ou seja, melhor que as privatizações da era FHC. É óbvio que várias editoras estão quebrando.
 
As razões da crise são, como sempre, variadas. Mas existe um fator determinante nesta conta: a chegada da megalodôntica Amazon ao Brasil. A estratégia é simples: vender tudo ao menor preço (im)possível e, como consequência, aniquilar toda e qualquer outra loja, grande ou pequena. 
 
O fato de não terem custos com lojas físicas ajuda explicar uma parte dos baixos preços praticados. Mas só uma parte. Más línguas garantem que as condições de trabalho nos depósitos da empresa são de deixar cortadores de cana se sentindo os reis da dignidade laboral. Outros afirmam que a Amazon está preparada para operar dez anos no vermelho aqui no Brasil. Por que razões uma empresa toparia ficar dez anos no preju a não ser para dizimar a concorrência? 
 
Não ponho a mão no fogo por essas conjecturas. Mas elas fazem sentido. Digo isso por experiência própria. Coisa de uns dez anos atrás, estava no Rio participando de uma convenção de quadrinhos que tinha como convidado o lendário Denis Kitchen. Kitchen foi responsável, entre outras coisas, por publicar parte substancial do quadrinho underground norte-americano. E por reeditar o Spirit, de Will Eisner – que anteriormente só era publicado em suplementos de jornal. Só isso já garantiria ao sujeito um lugar no pódio dos editores mais importante da História mundial das HQs.
 
Pois bem, conversando com ele, perguntei há quantas andava sua seminal editora, a Kitchen Sink Press. Com sorumbática tranquilidade ele respondeu: “Fechou”. E foi logo explicando que a Amazon havia inviabilizado uma editora especializada como a Kitchen Sink, vendendo os livros por valores mais baixos que os de produção. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. 
 
O que estamos assistindo, neste exato momento, são as grandes redes experimentando o amargor de seu próprio veneno. Afinal, ninguém é o maior para sempre. E neoliberalismo é isso aí: o mais forte extingue o mais fraco. Como a Amazon está fazendo com a geral. Há quem ache bonito. Afinal, o papo furado de “livre mercado” é sempre uma bela muleta quando estamos pagando mais barato. O problema é que as consequências cobrarão tudo com juros e correção monetária, claro.
 
Uma saída seria a aprovação de uma lei que regulasse os descontos, como a que existe na França – uma país cheio dessa coisa rara entre nós, o leitor. Lá, é proibido o frete grátis e o desconto máximo praticado (se não me engano ao longo do primeiro ano de um livro) é de 5%. O resultado desta competição mais equilibrada foi aumento na produção editorial, distribuição melhor dos lucros advindos dos livros, surgimento de novas editoras e livrarias. Principalmente as pequenas.
 
No Brasil, há proposta semelhante circulando no congresso (ou no senado, sei lá). Com o governo vindouro, as chances dela vingar são irrisórias. Não há nada que o novo governo odeie mais que livros e educação. E se há um único projeto sólido para essa turma trata-se de transformar todo mundo em seus eleitores – usualmente conhecidos por analfabetos funcionais. Ou só analfabetos, mesmo.
 
Olhar aquele tapume na frente do que era a Fnac foi melancólico. Mas não mais que isso. A lógica predatória sobre a qual está assentado o mercado editorial brasileiro é um tiro no pé. Ela se assemelha à monocultura do agronegócio: qualquer praga ou contratempo pode destruir toda a lavoura. Diversidade é sempre mais saudável.
 
De certa forma, as grandes redes cavaram sua própria sepultura. Bancar os santos defensores dos livros é um papel que não lhes cai bem. Livro é a coisa mais maravilhosa que existe. É a palavra mais bonita da língua portuguesa. Então, neste Natal, dê um livro de presente. Mas deixe para comprá-lo numa livraria pequena, que realmente ame os livros – e não celulares, computadores, auto-ajuda e Olavo de Carvalho. Vá lá, converse com o dono, tome um café, divague sobre literatura, arte e política. E saia com a certeza de estar alimentando (organicamente) este mercado tão importante para todos nós.   
 
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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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