Logo

Sobre livros, novelas e nossas heroínas

WhatsAppFacebookLinkedInX
23.05.2013 - 10:54:59
Goiânia – Nos livros de história da literatura, conta-se que o comportamento de homens e mulheres de diversas épocas foi profundamente marcado e influenciado pelos livros que liam. Diz-se, por exemplo, que o livro Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774 e considerado o marco inicial do romantismo como movimento literário, teria desencadeado o suicídio de muitos jovens daquela época. 

Se isso não ocorreu na realidade, a tese pelo menos aparece na própria ficção. Em Madame Bovary, publicado já em 1857, Flaubert mostra como a leitura de romances sentimentais inspirou os sonhos amorosos de Ema, ela que se empolgava não tanto com o próprio amor, mas com o ambiente e rituais que o envolviam. “Confundia, no desejo, a sensualidade do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos com a delicadeza dos sentimento. Acaso não necessita o amor, como certas plantas, terreno preparado, temperatura especial?”

Teria o adultério feminino se tornado mais comum depois da publicação da obra? Não creio, afinal a adúltera Ema foi duramente castigada no final, como de resto ocorreu com a maioria das famosas adúlteras da literatura universal (que o diga a pobre Ana Karênina de Tólstoi). De qualquer forma, os argumentos moralistas acabaram por levar Flaubert aos tribunais, acusado de atentar contra a moral e a religião, defendendo-se ele das acusações com a impressionante declaração: “Ema c`est moi” (Ema sou eu).

Difícil avaliar se os livros tiveram mesmo tal influência, se disseminavam valores e padrões de conduta ou se apenas refletiam a realidade e os comportamentos de cada período da história. Mas um fato é que os romances de folhetim, publicados nos jornais franceses no século XIX e até no Brasil, na segunda metade desse século, quando não existiam ainda a TV, o cinema ou a internet, serviram ao entretenimento principalmente das mulheres. É claro que se tratava de um prazer acessível apenas a uma pequena parcela da população, visto que não houvera ainda a universalização do ensino e nem todos eram alfabetizados ou tinham acesso a tais publicações.

E os livros que lemos hoje ou os filmes a que assistimos interferem na nossa conduta? Quais são, por exemplo, os produtos de ficção que de alguma forma têm influenciado, se é que têm, o comportamento de homens e mulheres brasileiros no século XXI? Inevitável lembrar a força e a importância que a TV e particularmente as telenovelas possuem hoje. Estudos a respeito do assunto já foram desenvolvidos nas universidades e há mesmo teses demonstrando que seu consumo equivale atualmente à leitura dos romances de folhetim no século XIX. 

Parece mesmo evidente que as novelas ditam modas, a forma de vestir, os cortes de cabelo, colocam gêneros musicais e cantores em evidência, e sobretudo retratam temas que preocupam a sociedade e que por meio delas se multiplicam, entrando na pauta das discussões públicas. Se exercem, portanto, alguma influência sobre hábitos, não terão impacto significativo sobre valores e comportamentos, ao elegerem como heróis e heroínas de suas tramas, determinados perfis de personagens? 

Na novela que terminou na semana passada, Salve Jorge, da Rede Globo, em que se discutia o tráfico de pessoas, a protagonista era uma mulher brasileira comum, moça pobre, moradora de uma favela carioca que engravidou na adolescência, não concluiu os estudos, teve dificuldades no mercado de trabalho e foi tentar a sorte em outro país, sendo vítima do tráfico. Depois de muitos reveses, a quadrilha que cometia tais crimes foi desbaratada e ela foi salva, não sem, naturalmente, a interferência do viril herói e não sem antes ter uma filha dele.

Certamente o intuito da autora da novela foi retratar a realidade de  milhares de mulheres de brasileiras, mas o pretenso propósito realista, nas tramas novelescas, é sempre demasiadamente frágil e mais ainda quando se trata das histórias entre pares românticos. No desfecho, a heroína e sua filha foram salvas pela força do Estado protetor e eficente, e pelo másculo herói. Nada  se mencionou sobre os verdadeiros desafios que uma mãe solteira de dois filhos, de baixa escolaridade, sem qualificação profissional, teria que enfrentar a partir de então. Nos contos de fadas como nas telenovelas, as princesas são despertadas e salvas por belos príncipes em seus cavalos, e a vida não prossegue depois do “felizes para sempre”.

Mas por que afinal falar de novelas? É que, dados seus altos índices de audiência, a forma como elas se tornam a pauta de discussões cotidianas, não posso deixar de supor o estrago que esse tipo de ficção causa no imaginário e na vida de milhares de mulheres brasileiras, principalmente daquelas que se identificam com o perfil da protagonista. Até que ponto histórias assim não disseminam a crença de que serão salvas de seus problemas existenciais, financeiros, sociais por homens másculos e protetores? Não era, aliás, o que repetia a letra de uma das principais canções da trilha musical, a melosa “Esse cara sou eu”? 

O cara pode ser ele, mas Morena não sou eu. Pode-se dizer certamente que minha inquietação é infundada, pois a audiência não absorve ingenuamente no que lhe é ofertado, antes reage criticamente. Longe de mim também defender que as telenovelas, assim como a literatura ou o cinema, devam ser policiadas ou apenas abordar temas com finalidade educativa. E de qualquer maneira, sabemos que a TV só tem compromisso com a própria audiência e com os próprios lucros e que dá o que supostamente o povo quer: entretenimento fácil, histórias ingênuas e fantasiosas. O que questiono é se serão elas inofensivas ou essa combinação de água com açúcar, inocentemente narcotizante, não contribui, em pleno século XXI para manter as mulheres ingenuamente adormecidas, à espera de um herói salvador e provedor? 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]