Logo
José Reinaldo F. Martins Filho

Sobre a nostalgia do sólido

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.06.2026 - 09:59:18

Hoje pela manhã participei de uma banca de qualificação de doutorado. Até aí, nada de mais para quem, como eu, ganha o pão com a atividade acadêmica. O problema é que acabei me envolvendo demasiadamente com a reflexão, que passou a me perseguir durante todo o dia.

O trabalho [até aqui exitoso] elaborado pelo doutorando em questão propõe uma aproximação entre duas das figuras que considero essenciais para uma compreensão global da época em que vivemos: o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e o último pontifex maximus da Igreja Católica, o Papa Francisco. Paradoxalmente, um cientista e um religioso. Ambos altamente populares em seus universos de expressão. Ambos, quero repetir, essenciais e – diria, sem medo de errar – até complementares para a interpretação do tempo presente.

Bauman, falecido em 9 de janeiro de 2017, ficou conhecido por sua tese da liquidez. Tese que, curiosamente, punha em relação os três estados físicos da água: sólido, líquido e gasoso. Isso porque sua noção de “sociedade líquida” parece ter muito a ver com a célebre frase de Marx e Engels de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. E, realmente, desmanchou-se. Ou melhor, liquefez-se, para permanecermos no estrito entendimento do sociólogo. O “líquido”: esse é o estado em que nos encontramos em nossa vida cotidiana, em nossas relações, esvaziadas do senso comunitário de pertencimento duradouro e comprometido. E sociólogo não faz previsão; interpreta os fatos tal como são dados.

Francisco, falecido em abril de 2025, foi o “papa do fim do mundo”; o primeiro não europeu em séculos eleito para realizar o ministério da comunhão com os católicos do mundo inteiro – uma prática que, oxalá, se mantenha longeva. O “papa verde”, como quiseram imputar alguns de seus opositores ideológicos. Ou, mesmo, o papa dos “últimos”, sempre os últimos, na fila das esperanças.

Mas o que um religioso teria em comum com um sociólogo ateu? Para mim, a capacidade de interpretar o presente, fecundando-se mutuamente. Bauman nunca escondeu a admiração que nutria por Francisco. Francisco recorreu a Bauman, direta e indiretamente, muitas vezes em seus escritos e pronunciamentos. E o encontro chegou mesmo a acontecer, em 20 de outubro de 2016, no Vaticano. Na ocasião, segundo relatos posteriores, o sociólogo teria dito ao papa: “Você é a luz no fim do túnel”. Ao que Francisco respondeu, em tom jocoso: “Então quer dizer que estamos no fim do túnel?”. Recebendo imediatamente a confirmação: “Sim, mas você é a luz”.

De fato, se há equivalência em termos da importância de seus legados para a compreensão do século XXI, também devemos admitir o que os distanciava e, quem sabe, até lhes garantia a admiração recíproca. Para Bauman, a dureza do presente tal como se mostra, mesmo em sua face mais agressiva. Para Francisco, a centelha de esperança que indica a possibilidade de um além, de uma reviravolta em vista de uma nova fusão. E isso sem desprezar a liquidez, sem negar o estado líquido que a tudo reúne e embala.

Sou do tempo em que um aforismo soava poderoso: “Não estamos numa mudança de época, mas numa época de mudanças”. Hoje o considero caduco. Caduco porque a mudança já se consolidou. Tendo ultrapassado a franja do século XXI e consolidado o seu primeiro quarto temporal, não acredito estarmos ainda em uma “mudança de época”. Já estamos – isso sim! – numa nova época, época em que a “mudança” é a regra. Mas nem todos podem percebê-lo, pois alguns permanecem com a nostalgia do sólido, agarrados ao que sobrou dos naufrágios, aos destroços que insistem em flutuar. Ou, quem sabe, perdidos em suas ilhas paradisíacas, totalmente cercadas pelas enseadas do líquido, prestes a submergir.

Bauman diagnosticou o líquido. Tendo-o lido, há quem procure retorno à solidez. Para mim, esse não é um caminho possível. Daí minha admiração por este Francisco que, como seu homônimo de Assis, ousou acreditar no impossível: num quarto estado de fusão para o qual nos destinamos, e que sairá do esforço da nossa iniciativa.

Enquanto isso, é melhor deixarmo-nos embalar pelo líquido, pelo estado elementar em que tudo se interliga, tudo se encontra, tudo se toca e participa de uma grande relação. O “papa verde” também sabia disso. Por isso, fez suas todas as cores, num mundo sem muros e com muitas pontes, em que ninguém pode ser realmente dono de nada, menos ainda da Terra.

Soubemos aproveitar o que há de positivo no líquido? Na água, todas as relações são facilitadas; tudo interage com tudo, tudo está conectado de uma maneira mais direta. No líquido, tudo se encontra. E o encontro é o momento disruptivo paradigmático fundamental. Os modelos “excludentes”, que tomam conta de boa parte do mundo atual, mantêm-se às custas da nostalgia do “sólido”?

Sinto-me feliz por não participar dessa nostalgia. Tenho aprendido a nadar, ainda que, às vezes, quase me afogue. E sigo, animado pelo legado desta dupla tão divergente.

*José Reinaldo F. Martins Filho. Doutor em Ciências da Religião e em Filosofia. Atual coordenador do PPG em Ciências da Religião da PUC Goiás. Pesquisador integrado ao Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por José Reinaldo F. Martins Filho

*

Um comentário

  1. Parabéns, Professor Dr. José Reinaldo, fiquei encantado do texto explícito com delicadas cadências. O texto começa como um relato de rotina acadêmica, mas vira confissão: uma banca de doutorado sobre Bauman e Papa Francisco não saiu da cabeça do autor o dia inteiro. O que chama atenção é a leitura que ele faz dos dois como peças complementares para entender o tempo presente. De um lado, Bauman e sua “sociedade líquida”, que traduz em sociologia a frase de Marx de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Do outro, o Papa Francisco, figura religiosa de grande alcance popular. Juntos, segundo o autor, ajudam a nomear a fragilidade dos vínculos, a perda do senso de comunidade e o esvaziamento de pertencimentos duradouros que marcam a vida cotidiana hoje. O sociólogo não prevê, ele interpreta o que já está dado, e o texto fecha com essa ideia: estamos vivendo no estado líquido, sem a solidez de antes. Parabéns!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]