Hoje pela manhã participei de uma banca de qualificação de doutorado. Até aí, nada de mais para quem, como eu, ganha o pão com a atividade acadêmica. O problema é que acabei me envolvendo demasiadamente com a reflexão, que passou a me perseguir durante todo o dia.
O trabalho [até aqui exitoso] elaborado pelo doutorando em questão propõe uma aproximação entre duas das figuras que considero essenciais para uma compreensão global da época em que vivemos: o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e o último pontifex maximus da Igreja Católica, o Papa Francisco. Paradoxalmente, um cientista e um religioso. Ambos altamente populares em seus universos de expressão. Ambos, quero repetir, essenciais e – diria, sem medo de errar – até complementares para a interpretação do tempo presente.
Bauman, falecido em 9 de janeiro de 2017, ficou conhecido por sua tese da liquidez. Tese que, curiosamente, punha em relação os três estados físicos da água: sólido, líquido e gasoso. Isso porque sua noção de “sociedade líquida” parece ter muito a ver com a célebre frase de Marx e Engels de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. E, realmente, desmanchou-se. Ou melhor, liquefez-se, para permanecermos no estrito entendimento do sociólogo. O “líquido”: esse é o estado em que nos encontramos em nossa vida cotidiana, em nossas relações, esvaziadas do senso comunitário de pertencimento duradouro e comprometido. E sociólogo não faz previsão; interpreta os fatos tal como são dados.
Francisco, falecido em abril de 2025, foi o “papa do fim do mundo”; o primeiro não europeu em séculos eleito para realizar o ministério da comunhão com os católicos do mundo inteiro – uma prática que, oxalá, se mantenha longeva. O “papa verde”, como quiseram imputar alguns de seus opositores ideológicos. Ou, mesmo, o papa dos “últimos”, sempre os últimos, na fila das esperanças.
Mas o que um religioso teria em comum com um sociólogo ateu? Para mim, a capacidade de interpretar o presente, fecundando-se mutuamente. Bauman nunca escondeu a admiração que nutria por Francisco. Francisco recorreu a Bauman, direta e indiretamente, muitas vezes em seus escritos e pronunciamentos. E o encontro chegou mesmo a acontecer, em 20 de outubro de 2016, no Vaticano. Na ocasião, segundo relatos posteriores, o sociólogo teria dito ao papa: “Você é a luz no fim do túnel”. Ao que Francisco respondeu, em tom jocoso: “Então quer dizer que estamos no fim do túnel?”. Recebendo imediatamente a confirmação: “Sim, mas você é a luz”.
De fato, se há equivalência em termos da importância de seus legados para a compreensão do século XXI, também devemos admitir o que os distanciava e, quem sabe, até lhes garantia a admiração recíproca. Para Bauman, a dureza do presente tal como se mostra, mesmo em sua face mais agressiva. Para Francisco, a centelha de esperança que indica a possibilidade de um além, de uma reviravolta em vista de uma nova fusão. E isso sem desprezar a liquidez, sem negar o estado líquido que a tudo reúne e embala.
Sou do tempo em que um aforismo soava poderoso: “Não estamos numa mudança de época, mas numa época de mudanças”. Hoje o considero caduco. Caduco porque a mudança já se consolidou. Tendo ultrapassado a franja do século XXI e consolidado o seu primeiro quarto temporal, não acredito estarmos ainda em uma “mudança de época”. Já estamos – isso sim! – numa nova época, época em que a “mudança” é a regra. Mas nem todos podem percebê-lo, pois alguns permanecem com a nostalgia do sólido, agarrados ao que sobrou dos naufrágios, aos destroços que insistem em flutuar. Ou, quem sabe, perdidos em suas ilhas paradisíacas, totalmente cercadas pelas enseadas do líquido, prestes a submergir.
Bauman diagnosticou o líquido. Tendo-o lido, há quem procure retorno à solidez. Para mim, esse não é um caminho possível. Daí minha admiração por este Francisco que, como seu homônimo de Assis, ousou acreditar no impossível: num quarto estado de fusão para o qual nos destinamos, e que sairá do esforço da nossa iniciativa.
Enquanto isso, é melhor deixarmo-nos embalar pelo líquido, pelo estado elementar em que tudo se interliga, tudo se encontra, tudo se toca e participa de uma grande relação. O “papa verde” também sabia disso. Por isso, fez suas todas as cores, num mundo sem muros e com muitas pontes, em que ninguém pode ser realmente dono de nada, menos ainda da Terra.
Soubemos aproveitar o que há de positivo no líquido? Na água, todas as relações são facilitadas; tudo interage com tudo, tudo está conectado de uma maneira mais direta. No líquido, tudo se encontra. E o encontro é o momento disruptivo paradigmático fundamental. Os modelos “excludentes”, que tomam conta de boa parte do mundo atual, mantêm-se às custas da nostalgia do “sólido”?
Sinto-me feliz por não participar dessa nostalgia. Tenho aprendido a nadar, ainda que, às vezes, quase me afogue. E sigo, animado pelo legado desta dupla tão divergente.
*José Reinaldo F. Martins Filho. Doutor em Ciências da Religião e em Filosofia. Atual coordenador do PPG em Ciências da Religião da PUC Goiás. Pesquisador integrado ao Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa.

Parabéns, Professor Dr. José Reinaldo, fiquei encantado do texto explícito com delicadas cadências. O texto começa como um relato de rotina acadêmica, mas vira confissão: uma banca de doutorado sobre Bauman e Papa Francisco não saiu da cabeça do autor o dia inteiro. O que chama atenção é a leitura que ele faz dos dois como peças complementares para entender o tempo presente. De um lado, Bauman e sua “sociedade líquida”, que traduz em sociologia a frase de Marx de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Do outro, o Papa Francisco, figura religiosa de grande alcance popular. Juntos, segundo o autor, ajudam a nomear a fragilidade dos vínculos, a perda do senso de comunidade e o esvaziamento de pertencimentos duradouros que marcam a vida cotidiana hoje. O sociólogo não prevê, ele interpreta o que já está dado, e o texto fecha com essa ideia: estamos vivendo no estado líquido, sem a solidez de antes. Parabéns!!!