Logo

Só podia ser mulher…

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.03.2024 - 12:11:14

Levanta a mão a mulher que nunca ouviu essa frase. Bem, não aconselho esperar muito para ver essa tal mão surgir estendida, muito menos se você estiver de pé. Ela não surgirá. Seja no trabalho, em rodas de amigos ou familiares, no trânsito, na mesa vizinha no bar, toda mulher já ouviu essa expressão.
 
“Ah, por favor, é brincadeira. Hoje em dia não se pode falar mais nada”. Se você pensou isso, bem, tenho que informar que se a piada constrange, diminui ou ofende uma pessoa, gênero, etnia, orientação sexual ou religião, então o melhor mesmo é se calar. Pois o que para alguns é só uma brincadeira, na verdade, é uma microagressão. E elas são muitas e tão variadas que poderiam encher uma página inteira.
 
“Deve estar de TPM”, “Isso é falta de homem”, “Mulher no volante, perigo constante”, as clássicas sobre cartão de crédito e mulher, e por aí vai. Comentários que estão tão enraizados na nossa sociedade que, muitas vezes, quem os diz não percebe o quanto são nocivos.
 
Infelizmente, as microagressões não param por aí. Estão em gestos como a interrupção da mulher enquanto ela fala, na necessidade de explicar coisas óbvias referentes à área de atuação e especialidade dela, até manipulações psicológicas que fazem uma mulher duvidar de si.
 
Essas pequenas violências cotidianas, muitas vezes tão sutis que demoram para serem percebidas, afetam a saúde mental, minam a confiança, a autoestima, causam estresse e muitas vezes depressão. E, antes que alguém diga que isso tudo é mimimi, saiba que isso também é uma microagressão. Que diminuir e invalidar os sentimentos e as dores do outro também é uma forma de agredir.
 
Se você está lendo e pensando: “Certo, entendi. Mas e agora?”. Agora é hora de olhar com mais empatia para quem está ao redor. Um olhar atento e cuidadoso que capture situações como essas e não finja que nada foi visto ou percebido. Um olhar que impulsione homens a dizerem para seus amigos que aquela piada sobre mulher não tem graça. Que encoraje mulheres a não forçarem um sorriso diante de comentários “brincalhões” que a inferiorizam, a defender outras mulheres em situações de constrangimento, dar apoio.
 
Quem sabe assim, no futuro, nossas filhas levantem a mão em resposta à pergunta que fiz lá no começo. Quem sabe elas não ouçam nunca “que só podia ser mulher.”
 
*Jéssica Chagas tem 30 e poucos anos, é baiana, mora em São Paulo e escreveu A história de como eu morri
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jéssica Chagas

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]