Théo Mariano
Goiânia –
Realizada nesta quinta-feira (23/7), a última edição da série ‘Trilhas da Longevidade – Desafios Diante da Pandemia’ discutiu os aprendizados obtidos com a pandemia do novo coronavírus, com foco nas políticas de apoio aos idosos. Para a conversa, o webinário reuniu convidados da Espanha, Argentina, Brasil e Chile, que expuseram suas ideias acerca do tema. A série foi promovida pela Organização dos Estados Ibero-americanos, em parceria com o Centro Internacional de Longevidade (ILC) e a instituição Inteligência Educacional. A programação também conta com apoio da Unibes Cultural.
Nas boas-vindas ao debate, o diretor e chefe da representação da OEI no Brasil, Raphael Callou, agradeceu a participação de todos os palestrantes da ocasião. “Neste período [de realização dos webinários], tivemos participação de mais de 20 especialistas de diversas origens e áreas, com representantes de Argentina, Uruguai, Espanha, Chile, além da contribuição de vários profissionais brasileiros”, ressaltou.
Raphael Callou / (Foto: Divulgação)
Em seguida, o secretário geral da OEI, Mariano Jabonero, iniciou sua parte na transmissão. Ele comentou sobre os impactos da pandemia em segmentos da sociedade como educação, saúde e economia. “O vírus se manifestou com consequências cruéis e duras para a população em geral, além de se propagar com muita velocidade”, prosseguiu.
“Depois da pandemia, teremos coisas para corrigir também no sistema educativo. Temos que assegurar educação de qualidade e com equidade, de modo que inclua todos”, ponderou Jabonero. “Se acreditam que depois da pandemia voltaremos à normalidade, não penso desta maneira. O vírus demonstrou que vivemos em um sonho de normalidade, que se mostra desigual no dia a dia”, disse, ao acrescentar que situações de pobreza e ausência de acessibilidade devem ser solucionadas por meio de “diálogos” com agentes sociais da educação, cultura e ciência.
Mariano Jabonero / (Foto: Agência Brasil)
Na sequência, Alexandre Kalache, diretor do ILC no Brasil, apresentou o professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Paulo Buss, que iniciou sua fala com uma dedicação às vítimas do novo coronavírus e aos “milhões de latino-americanos invisíveis para políticas públicas”. “Aprendemos muito com a pandemia até agora, mas vamos absorver muito mais, porque hoje o vírus completou apenas 30 ou 50% de seu caminho”, frisou.
“Creio que esta é a maior crise de saúde nos últimos 100 anos”, enfatizou Buss, que é membro titular da Academia Nacional de Medicina. Para ele, um vírus com tamanho impacto nos mais diversos setores da sociedade é algo que não tínhamos vivido ainda. “Eu diria que o século XXI está se iniciando, lamentavelmente, com esta pandemia”, acrescentou, demonstrando preocupação com o cenário na África que, para ele, é um continente com mais “vulnerabilidades”.
Paulo Buss / (Foto: Sergio Velho Junior/Fiocruz)
“Provavelmente, teremos aumento da desnutrição em crianças e adultos e, consequentemente, poderemos ter acréscimo dos enfermos, demandando preparo de hospitais”, explicou ao pontuar deficiências no investimento em saúde no País. Para o emérito da Fiocruz, existem problemas na capacitação dos profissionais da saúde em cidades interioranas. “Nossos sistemas de saúde são geograficamente mal planejados”, pontuou. Ele ainda acrescentou que a “falta de colaboração das esferas federal, estadual e municipal contribuiu para a propagação do vírus”.
A gerontologista e especialista em serviços sociais, Pilar Rodríguez, destacou na sua parte do seminário a necessidade de se pensar a abordagem da vida atualmente. Ela acredita que muitos países deram exemplos negativos na adoção de políticas públicas eficazes para se combater o novo coronavírus. “As pessoas têm seus direitos infringidos cotidianamente”, continuou.
Pilar Rodriguez / (Foto: Divulgação)
Para Pilar Rodríguez, deve-se agir de modo que “tais infrações não prossigam”. Além disso, ela enfatizou a necessidade de incluir famílias em situação de maior vulnerabilidade social em programas de apoio econômico e sanitário, possibilitando que permaneçam em casa durante a pandemia. “O esforço e o foco deveria ser voltado ao amparo dessas famílias.”
Após a participação da gerontologista, o presidente da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria em Buenos Aires, José Jauregui, discorreu sobre a situação do novo coronavírus na Argentina. “A sociedade que estamos passa por uma situação [moral] preocupante. Sabemos que sistemas de saúde estão fragmentados e não estavam preparados para frear o avanço da pandemia.”
José Jauregui / (Foto: Divulgação)
Jauregui alertou para condições de pessoas que são obrigadas a deixar suas residências para conseguirem se manter economicamente. “Estamos cansados de promessas que posteriormente não são cumpridas”, disse. Para ele, a comunicação entre academia e sociedade não é a “adequada” e ressaltou a necessidade de se investir em educação qualificada para a comunidade em geral. “Quero adiantar que estamos trabalhando em tecnologias para aprimorar a comunicação pós-pandemia.”
Relatora das Nações Unidas para Direitos das Pessoas Idosas, a professora Rosita Kornfeld-Matte disse que será preciso adotar medidas para comportar as transformações demográficas que se darão nos próximos anos. “Atualmente, existem cerca de 900 milhões de idosos no mundo e este número deve atingir 2 bilhões até ano de 2050”, justificou Rosita. “Será necessário transformações políticas, sociais e culturais para nos adaptarmos a esta nova situação demográfica.”
Rosita Kornfeld-Matte / (Foto: Reprodução/Web)
“A taxa de mortalidade da covid-19 nas pessoas maiores de 80 anos é cinco vezes maior que no resto da população”, prosseguiu. Ela ainda enfatizou a importância do respeito aos direitos humanos. “Se os idosos possuem direito a votar e escolher quem governa, também têm o direito de serem escutados. A tecnologia digital é uma obrigação, e as pessoas de mais idade precisam ter acesso”, complementou ao destacar a “ausência de solidariedade, explicitada pela pandemia”. “Temos que criar uma sociedade mais amigável para os idosos, com legislações robustas para proteção destas pessoas”, concluiu Rosita.
Última palestrante do webinário, a diretora da Escola Andaluza de Saúde Pública da Espanha, Blanca Fernández-Capel traçou perspectivas sobre os problemas sanitários que atingem a população mais velha. “Vejo com dor a maneira como se castiga a longevidade neste momento [pandemia]”, disse ao justificar a ausência de políticas públicas voltadas aos idosos.
Blanca Fernández-Capel / (Foto: Reprodução/Web)
Para ela, a mídia não noticia o suficiente sobre o avanço da covid-19 em países sul-americanos. “A imprensa se interessa mais em vítimas de Nova York”, justificou Blanca. “Estes países subdesenvolvidos possuem deficiências na distribuição de renda para a população e a comunicação entre governo e sociedade é mal feita.”
O professor Alexandre Kalache, na continuação da conversa, relembrou problemas que, além da pandemia, expuseram as fraquezas das políticas públicas vigentes em locais menos desenvolvidos. “Não sabemos ainda como a covid-19 se sucederá na África”, disse ao destacar que a pandemia ainda se “desenvolve em meio ao negacionismo”.
“Uma palavra muito marcante deste episódio é ‘desigualdade escancarada’. O novo coronavírus não forjou este problema, ele já estava presente. O que acontece agora é resultado da falta de políticas sanitárias e sociais”, sublinhou. Kalache desacredita na possibilidade de se solucionar uma pandemia enquanto chefes de governo “praticam corrupção”. “Falta letramento científico para nossos governantes”, enfatizou ao acrescentar que o processo de envelhecimento também precisa ser melhor compreendido pela sociedade.
Alexandre Kalache / (Foto: Divulgação)
Kalache reiterou a necessidade de se respeitar a Organização Mundial da Saúde (OMS) e apontou “atitude mesquinha” de governantes, que infringem normas e orientações de especialistas do órgão. “Certamente, num futuro próximo, viveremos outras pandemias e precisaremos dessas organizações para nos prevenir de problemas como os de hoje”, disse. “O grupo que mais cresce no mundo ainda carece de legislações específicas que garantam a sua segurança, precisamos trabalhar pelos idosos”, concluiu.